O PILOTO 107

Pensa que é apenas no futebol ou no tênis que os esportistas ou suas equipes são classificados em rankings? Se parece complicado misturar, na mesma cumbuca, F-1 e Indy, rali e Nascar, a revista britânica Autosport, com seu mais de meio século de tradição e credibilidade, resolveu topar a parada. Para tentar equilibrar o peso dos diferentes campeonatos e modalidades, criou um sistema que é explicado numa apostila virtual de 20 páginas. Resumindo, parece dar certo. Nunca será perfeito, mas compara mais de 2.000 pilotos, considerando os resultados nos últimos 365 dias. E uma rápida olhada no topo da lista aponta Sebastian Vettel como líder, à frente de Lewis Hamilton, Mark Webber e do tetracampeão da Nascar Jimmie Johnson. Rubens Barrichello, em 13º, é o melhor brasileiro. Mas, o mais interessante é constatar onde anda Michael Schumacher. O heptacampeão mundial talvez não imaginasse ser obrigado a brigar por posições com Adrian Sutil e Vitaly Petrov, nem a sofrer com as carências de um carro que, em sua versão anterior, valeu o título a Jenson Button. Mais do que isso, o alemão ocupa, no citado ranking, o posto de número 107. Longe, muito longe de onde gostaria de estar. Bem verdade que, de julho a março, não somou pontos, pois ainda curtia a aposentadoria e se recuperava da contusão no pescoço. Vai ser interessante acompanhar a evolução de Schumi… Aí vai o link,

http://www.castroldriverrankings.com/rankings/

Anúncios

EM BOCA FECHADA…

Fernando Alonso está na equipe que sonhou, venceu o primeiro GP do ano em sua estreia pela Ferrari e leva a melhor no duelo interno com Felipe Massa, ainda que nem sempre por circunstâncias de corrida. Mas não lidera o Mundial, nem voltou a vencer. Ainda assim, parece que a situação subiu à cabeça. Desceu do carro em Valencia (logo onde, diante do público de casa…) dizendo-se injustiçado. Vítima de uma corrida manipulada. Prejudicado pelos homens da FIA, que teriam demorado a aplicar uma punição a Lewis Hamilton, que ultrapassou o safety car depois da linha permitida e, com a vantagem de que dispunha, atravessou os boxes a baixa velocidade e ainda assim manteve a segunda posição.

As declarações tiveram repercussão negativa, soou mal entre as demais equipes e levantou um clima de suspeita desnecessário. Afinal, estamos falando do mesmo GP da Europa em que nove pilotos foram punidos (de forma discutível, é verdade) por terem acelerado mais do que o permitido quando a prova foi neutralizada.

Diz o ditado que “quem fala muito dá bom dia a cavalo”, e parece ter sido o caso com o bicampeão mundial. Que voltou aos refletores para pedir desculpas, antes de a situação se voltar contra ele. “Reagi emocionalmente. Naquela situação era muito fácil dizer coisas que poderiam ser interpretadas equivocadamente e levantar suspeitas, o que não queria fazer. O que falei foi que alguns pilotos, como eu, que seguiram as regras, foram prejudicados, enquanto outros, mesmo penalizados, se deram melhor”. Tá bom, seu Alonso. Não desmentiu o que disse e ainda teve de engolir as palavras…

PARA O ALTO, E AVANTE…

Pikes Peak. Se para você o nome não diz muito, vale citar alguns números para entender o tamanho do desafio. Desde 1916, malucos de todos os gêneros enfrentam uma subida de montanha para alcançar o ponto culminante dos EUA (o Monte McKinley é mais alto, mas fica no Alasca), no estado do Colorado. A largada ocorre a 3.000m de altitude e a chegada a mais de 4.000m, com um percurso de 19,98 quilômetros e, pasme, 156 curvas, muitas delas com barrancos intermináveis à espera. Pois o tempo passou, a evolução veio, dizem que hoje é mais fácil do que no tempo dos pioneiros (em termos de equipamento com certeza), mas ainda é uma prova que atrai pilotos de currículo invejável. Nos anos 1990, a Peugeot preparou versões especiais dos modelos com que dominava o Paris-Dacar e deu, a feras como Ari Vatanen e Juha Kankkunen, a missão de subir o morro. São 11 categorias, de carros históricos a caminhões monstruosos, com potências das mais variadas. Uma espécie de vale tudo sobre rodas. Atendeu as exigências de segurança, pode alinhar…

A edição deste ano foi disputada domingo e mais uma vez a marca fatídica dos 10 minutos, perseguida de forma obsessiva, não foi superada. O japonês Nobuhiro “Monster” Tajima preparou um protótipo com carroceria de Suzuki SX4, chassi tubular e mais de 800cv de potência (dá uma olhada aí embaixo…). Venceu mais uma vez, mas completou o percurso em 10min14. Ele que já completou o percurso em 10min01 promete voltar ano que vem. E com ele um bando de malucos e suas máquinas voadoras. Um verdadeiro monumento sobre rodas…

Crédito: Suzuki Sport

VAI QUERER CONSERTAR E ACABA ESTRAGANDO…

O sujeito senta na frente da TV para ver o GP da Europa e, de repente, se depara com a notícia de que nove carros estão sendo investigados por irregularidades durante a entrada do safety car, acionado pela impressionante capotagem de Mark Webber ao decolar no choque com a Lotus de Heikki Kovalainen. Depois, vai fazer outras coisas e não fica sabendo o que ocorreu, se alguém foi efetivamente punido, e o porque. Na verdade os nove foram, com a soma de cinco segundos em seu tempo final, o que fez com que Sebastien Buemi e Pedro de La Rosa perdessem posições (e o espanhol o suado pontinho). Tudo bem que regras existem para ser cumpridas, mas todo evento esportivo que termina com cheiro de tapetão e resultado extra-oficial desagrada o espectador, ou será que não? Talvez por isso os comissários tenham optado por uma punição salomônica, para não virar de ponta a cabeça a classificação da corrida. Tudo porque os carros dispõem agora, na central eletrônica, de um sensor de velocidade que monitora, quando o carro de serviço entra na pista, se alguém está apressadinho numa circunstância de perigo (só nelas é que as provas são neutralizadas). A ordem é manter um ritmo seguro, sem que alguém tente, desesperadamente, dar o pulo do gato. É de perder a memória quantas corridas foram decididas assim, até que finalmente alguém desse o grito. Até o ano passado, quando o reabastecimento era permitido, fechar os boxes até que o pelotão estivesse agrupado e a baixa velocidade era algo complicado – lembram do famoso GP de Cingapura’2008, aquele em que Fernando Alonso se valeu do estratagema provocado por Nelsinho Piquet? Pois é, esse problema não existe mais. Basta manter o sinal vermelho na entrada do pitlane. Quem quiser desrespeitar a orientação, leva 25 segundos ou um drive-through automaticamente. Não seria bem mais fácil?

SEMPRE ELA…

A agendinha do blog não para, mesmo em tempos de Copa do Mundo. Afinal, os motores seguem roncando em meio às vuvuzelas. Ao vivo mesmo, no domingo, “só” o GP da Europa, às 9h, pela Globo. Com a coincidência de horários, a quarta etapa do Brasileiro e Sul-americano de F-Truck vai ao ar às 21h, na Band. No sábado o Sportv2 mostra, a partir das 6h (de Brasília), as três categorias do Mundial de MotoGP, no espetacular traçado holandês de Assen.

VALE PELA TENTATIVA, AINDA QUE NÃO VÁ FUNCIONAR

Reunião do Conselho Mundial da FIA, Pirelli escolhida como fornecedora de pneus pelos próximos três anos, volta da regra dos 107% (na teoria, porque na prática vai ser complicado tirar cinco, seis carros do grid a cada GP, se as novatas não melhorarem em 2011) e… mais uma proposta para favorecer as ultrapassagens. A enésima: a partir da próxima temporada os carros contarão com asas traseiras móveis, acionadas quando o piloto estiver a menos de um segundo do adversário, nas retas. Com isso, será possível ganhar 15, 20 quilômetros por hora e, teoricamente, favorecer as brigas por posição.

Sinceramente? Vale pela tentativa, mas não dará certo. Primeiro de tudo: será mais uma traquitana, mais um dispositivo, um botãozinho, como se os pilotos já não tivessem inúmeros para dar conta. Segundo, toda iniciativa recente com o mesmo objetivo não trouxe o efeito esperado. Senão vejamos: fim dos apêndices aerodinâmicos, retorno dos pneus slicks, aumento da largura dos carros, diminuição da largura dos pneus dianteiros, asas dianteiras móveis, adoção do Kers, que por sinal vai retornar. Por falta de ideia não é. Só que com o nível atual de segurança das pistas, o equilíbrio entre os motores e as estratégias Ctrl C/Ctrl V das equipes (uma igualzinha à outra, exceção feita ao Canadá), o mais rápido larga e termina na frente, e assim por diante. Como as máquinas estão cada vez mais próximas em desempenho, mesmo a ajuda da aerodinâmica não será o suficiente. Enfim…

OLHA O VILLENEUVE AÍ DE NOVO…

Goste-se dele ou não, Jacques Villeneuve é um personagem que não passa despercebido. Muita gente considera uma heresia o fato de que ele conquistou o título mundial que o pai, Gilles, não conseguiu, mas é indiscutível o talento de alguém que soube aproveitar as oportunidades, venceu em todas as categorias que disputou e ajudou a F-1 a sair do marasmo. Afinal, acessível nas entrevistas, o canadense sempre disse o que pensava, coisa cada vez mais rara numa categoria em que tantos interesses se sobrepõem. Saiu do circo quase pela porta dos fundos, mas merece um lugar numa categoria de ponta. Só não paga para correr, no que está muito certo. Me lembro de um GP de Miami da F-Indy, em 1997, quando, de repente, passou um baixinho de camiseta, bermuda e chinelo. Outro jornalista comentou: “puxa, é a cara do Jacques Villeneuve”. Era o próprio.

Pois Jacques tem corrido esporadicamente, enquanto administra o restaurante que abriu em Montreal (que tem o nome de Newtown, ou Villeneuve, que quer dizer nova cidade, em inglês). Além disso, gravou um CD, uma história que já contei. Mas não desiste, com razão, de acelerar. No fim de semana, voltou a disputar uma etapa da Nascar Nationwide (a categoria de suporte à Sprint Cup), no misto de Road America, pista que conhecia dos tempos da Indy. Largou em segundo, brigou longamente com Carl Edwards, estrela da categoria, e só deu adeus ao bom resultado por um problema no alternador. Mas, como costumam dizer nos países de língua inglesa, segue “alive and kicking” (vivo e chutando). Para a alegria dos fãs do automobilismo.

INVEJA DA ESPANHA…

Uma pausa no automobilismo sul-africano para falar de uma realidade que impressiona. Na década de 1970, Jarama era o único grande autódromo espanhol (já existiam Calafat e Albacete), muito embora já na época pilotos como Ángel Nieto dessem as cartas na motovelocidade. A F-1 se apresentou algumas vezes no Parque Montjuich, em Barcelona, até que a falta de segurança forçasse a suspensão da prova. Vieram Jerez de La Frontera, na Andalusía; Montmeló, em Barcelona, mas foi apenas com a explosão provocada pelos títulos de Fernando Alonso e a descoberta do automobilismo por seus compatriotas que a coisa tomou proporções desmesuradas. Só para entender, uma festa marcou a inauguração, no fim de semana, do Circuito de Navarra, homologação 2 da FIA (só não pode receber a F-1), 3.993m de um traçado desafiador e campeonatos como a F-Superliga e o GT Open Europeu confirmados no calendário. Lá, como as coletividades e os “ayuntamientos” (as províncias) são praticamente autônomas, cada uma quer ter uma pista melhor. Com isso, Navarra já é a 12ª – nos últimos anos foram abertas Valencia (o Circuito Ricardo Tormo, não a pista de rua que receberá a F-1 domingo); Guadix, Cartagena, Motorland Aragón, Almería e Monteblanco. E olha que tem caixa para mais… Felizes, esses espanhóis…

Crédito: Circuit de Navarra

DA TERRA DA COPA…

Nada melhor do que o pretexto de uma Copa do Mundo para falar do automobilismo sul-africano. Olha que o panorama nas pistas do outro lado do Atlântico é mais do que interessante. E, ao contrário do que ocorre nos gramados, nas pistas já houve um “Bafana” que dominou o mundo: Jody Scheckter, que levou a Ferrari ao título de 1979. E vários outros pilotos de talento, especialmente em provas de longa duração. Muitos com talento, mas que preferem seguir correndo em casa a dar o longo salto que os separa da Europa ou dos EUA. Além de seis autódromos: Kyalami, o mais tradicional; Welkom, o mais moderno; Killarney, na Cidade do Cabo, East London, Zwartkops, em Pretória e Aldo Scribante, em Port Elizabeth. E um campeonato de rali de dar inveja a muitas competições continentais, com diversos Toyota Auris/Corolla e VW Polo Super 2000. Como não podia deixar de ser, depois de tanto tempo de dominação estrangeira, brancos descendentes de holandeses e ingleses são maioria, mas os negros começam a encontrar seu espaço. E, só para dar uma primeira ideia, já que voltarei a falar da terra do Mundial (de futebol), a grande atração é o WesBank V8 Challenge, para máquinas com motores V8, chassis tubulares e carrocerias de Corvette ou Jaguar XKR. Na prática, uma stock car com sabor zulu, patrocinadores fortes e grids cheios. E olha que ainda tem as categorias sobre duas rodas… Definitivamente, quando o assunto é o esporte a motor, a África do Sul está batendo um bolão…

Crédito: tracksidepics.co.za

EU PENSEI QUE JÁ TINHA VISTO DE TUDO…

Poderia ser uma daquelas pegadinhas de 1º de abril, ainda que fora de época – alguém mais implicante poderia dizer que só tinha de ser coisa criada em Portugal, com o que eu não concordo – mas confesso que fiquei sem acreditar quando vi, num respeitado site do país europeu, referência à criação de uma Copa Ford Transit. Sim, porque, se você não conhece, o modelo em questão é um veículo de carga médio, quadrado como um pão de forma e maior do que uma Kombi, por exemplo. Cá com os meus botões, imaginei que a iniciativa não chegaria longe. Olha que, nos anos 1990, a própria Ford surpreendeu ao criar um brinquedo com chassi de uma versão anterior do modelo e… o motor V10 usado na Benetton de Michael Schumacher.

Eis que o campeonato saiu do papel e vive sua primeira rodada dupla, em um circuito de rua (Vila Real). Mais do que falar, melhor deixar que a imagem diga por si mesma. Tá certo que, num cenário em que mesmo os caminhões deram origem a campeonatos interessantes e emocionantes, não seria de se espantar. Mas que deve ser muito estranho acelerar um bicho desses, isso deve…