HÁ OS GRANDES PILOTOS. E OS CAMPEÕES…

 Peço perdão pelo atraso mas, antes tarde do que nunca, aí vai o texto da coluna de segunda-feira no Correio Braziliense…

No princípio, eram raros os circuitos permanentes no cenário internacional do automobilismo. Indianápolis, a inglesa Brooklands, Monza eram exceções num mar de pistas provisórias, que tomavam emprestadas ruas e estradas, com todo o perigo que isso comportava. Nem faz tanto tempo assim – quem teve o prazer de ver as impressionantes imagens do clássico Grand Prix, de John Frankenheimer, sabe do que estou falando. Casas, cercas, muros, postes e milhares de pessoas estavam ali, a metros de distância da trajetória ideal. Sair dela era sinônimo (ou quase, nos casos de mais sorte), de tragédia. Alguns monumentos daquela época resistiram, como Le Mans e seus mais de 13 quilômetros; Mônaco, e Spa-Francorchamps. Sim, Spa-Francorchamps que, originalmente, emprestava uma fatia de 14 quilômetros das estradas entre as cidades que ainda dão nome ao traçado, na região das Ardennes, próximo a Liége. A pista “sumiu” do mapa entre as décadas de 1970 e 1980, até a magia do local fizesse com que as autoridades belgas a fizessem reviver, numa nova configuração, com metade da extensão, mas várias curvas e o caráter desafiador preservados. Ainda que a cada ano a pista passe por mudanças, apareçam áreas de escape asfaltadas e a segurança seja prioridade (mais do que justo), não há arquiteto ou projetista capaz de desnaturar o mito. Com certeza o circuito atual é bem mais moderno (em termos de estrutura, principalmente) do que naquele 28 de agosto de 1994 quando, ainda sob o impacto da morte de Ayrton Senna, Rubens Barrichello conquistava sua primeira pole na F-1. Já ali a chuva andava fazendo das suas e ajudou o brasileiro, com uma limitada Jordan Hart, a superar Schumacher, Hill, Hakkinen, Coulthard e outros tantos. Passadas 18 temporadas, Rubinho completa, nesta mesma Spa, a marca de 300 largadas. Sem muito o que fazer, abalroou o carro de Fernando Alonso na freada do Bus Stop, ao ser surpreendido pelo asfalto molhado. Com todo o respeito que ele merece, e a marca também, era de se esperar um desfecho assim. Afinal, de todas as provas com números redondos, ele só não abandonou no 100º, quando foi terceiro. O que não apaga a honesta temporada. Por mais que seja uma das pistas mais velozes do calendário, palco de pilotos diferenciados, Spa, por conta da meterologia incerta típica da região, premia não apenas o mais rápido mas, muitas vezes, o mais inteligente. Quem é capaz de identificar as mudanças nas condições do asfalto, diminuir o ritmo o suficiente para manter o carro na linha certa. E mesmo quem faz o que deve ser feito leva seus sustos – não é, mister Lewis Hamilton? Brincadeiras a parte, a vitória foi mais do que merecida. Desmerecido foi o golpe sofrido por um incauto Jenson Button, que pode ter jogado as esperanças do bicampeonato pela janela graças ao alemão Sebastian Vettel. Que mostra cada vez menos ter o estofo que diferencia os campeões dos grandes pilotos. E, ao contrário do novo líder do campeonato, pode ser obrigado a esperar muito tempo até ter a maturidade necessária, se é que ela um dia vai chegar. Sobre Fernando Alonso, vale um discurso parecido. Apesar dos dois títulos, mostra inexperiência de iniciante – quem é que não viu a roda dianteira esquerda da Ferrari tocando a faixa verde da zebra, escorregadia como quiabo? Se os deuses das pistas forem justos, um, como o outro, não terminarão o ano com o número 1. Por uma questão de justiça, Hamilton, Button e Webber são os três que merecem seguir na luta – qualquer dos três será um campeão digno.  

ALGO A COMEMORAR…

Rubens Barrichello não foi o único a comemorar neste domingo uma marca “redonda” em suas estatísticas – bem verdade que a saída ainda na primeira volta do GP da Bélgica dá poucos motivos para alegria além daqueles que o piloto da Williams já demonstrava. Por não ser muito dessas coisas, não fosse o contador posto no pé da página e nem me daria conta de que este é exatamente o post de número 200 do blog. Qual a importância disso? Apenas que o número quer dizer que assunto não faltou, felizmente leitores também não e que, neste aspecto, escrever é bem mais fácil do que acelerar (não precisei de 18 temporadas para chegar lá, e espero superar os 300, 500 e quantos mais em ritmo de corrida). Só posso agradecer pela paciência e pelo prestígio que você me dá ao gastar uns minutos lendo as mal traçadas linhas. Valeu!

FERRARI + MINARDI = F.RENAULT?

Essa é boa, vem de fonte digna de crédito (o site Italiaracing), e eu só fico tentando entender a lógica da operação. Este ano 12 equipes disputam a World Series da F-Renault 3.5, de onde saíram pilotos como Ricardo Zonta, Robert Kubica e Sebastian Vettel. Há uma 13ª vaga que, para 2011, seria assumida por uma dobradinha Ferrari/Minardi. Confuso? Só um pouco. Na verdade seria uma parceria entre o programa de jovens pilotos do time de Maranello e a estrutura da escuderia faentina, que se transformou em Toro Rosso ao ser vendida para a Red Bull, mas nunca morreu. Luca Baldisserri, pelo lado vermelho, e Giovanni Minardi (filho de Giancarlo) estariam à frente da iniciativa, que contaria, ainda, com o engenheiro e projetista Gabriele Tredozi, outro com vasto currículo no circo. Não deixa de ser irônico que, com GP3 e GP2, a escolhida seja justamente a categoria mantida por uma rival da Fiat, controladora da marca do cavalinho. Enfim, é o automobilismo…

SEXTA É DIA DE AGENDA…

Como o blog também é utilidade pública, o trabalho que o leitor teria de procurar, site por site, a programação sobre rodas do fim de semana chega pontualmente. Vamos a ela, mesmo porque se as atrações não faltam no domingo, desta vez o sábado também é agitado. Confira então:

Sábado

6h       Treino livre GP da Bélgica de F-1 (Sportv2)

9h       Treino oficial GP da Bélgica de F-1 (Globo)

10h40  GP2 – Etapa de Spa-Francorchamps (Sportv)

21h     GP de Chicago – Indy Racing League (Bandsports/Band * a partir das 21h20)

Domingo

9h      GP da Bélgica de F-1 (Globo)

12h    Sul-americano de F-3 – 15ª etapa, em Curitiba (Rede TV)

13h    GP de Indianápolis – Mundial de MotoGP (Sportv2)

22h    VT do GP da Bélgica de F-1 (Sportv)

CAVEIRA DE BURRO

É impressionante o que ocorre com as provas de longa duração no Brasil. Trata-se de uma das mais democráticas modalidades do automobilismo já que, além de dividir os gastos por dois, três ou até quatro pilotos dependendo da distância a percorrer, supermáquinas como as Ferrari F430 GT2 e o Audi R8 convivem com Fuscas envenenados ou carros de turismo apenas com o aparato de segurança e pequenas modificações. Teoricamente, vista a tradição do país, que fez história com provas como as Mil Milhas, as 12h de Tarumã ou os 500km de Interlagos, os grids deveriam estar cheios. Especialmente considerando a criatividade de projetistas, engenheiros e abnegados capazes de criar os mais variados engenhos de corrida – protótipos caros e baratos, adaptações de chassis de F-Chevrolet, F-3, nomes que ganharam notoriedade como o Espron e o Spyder. E não faltam categorias capazes de garantir equipamento de ponta – GT Brasil, Porsche GT3 Cup, os regionais de Marcas…

Só que, entre disputas políticas e um certo descaso, a Endurance tupiniquim pede socorro. A Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA) apostou na SRO, a mesma empresa que organiza o Mundial de GT1 e o Europeu de GT3. Não foi adiante. Enquanto o promotor saía pela prova dos fundos, a própria CBA, em conjunto com as federações estaduais, tomou as rédeas da competição. Que recomeça este fim de semana, em Curitiba, com 14 inscritos. Isso mesmo, 14 carros quando existem, em potencial, 40, 50 ganhando poeira nas garagens das equipes. Pobre esporte brasileiro…

APENAS UM PALPITE…

Querer arriscar resultados nas atuais condições do Mundial de F-1 é tarefa das mais complicadas, ainda que a Red Bull seja a dona do melhor carro. Especialmente se tratando de Bélgica, com a chuva normalmente ajudando a embolar as coisas. Ainda assim, vou dar meus palpites e fazer as devidas considerações. Parece uma corrida desenhada para Mark Webber ou Sebastian Vettel (mais para o primeiro do que para o segundo), especialmente porque o motor que faltou em 2009 deve responder presente a partir de amanhã. A provável ameaça das McLarens depende, acima de tudo, da qualificação, já que em termos de mecânica e aerodinâmica as Flechas de Prata não ficam muito a dever à dupla do touro vermelho.

A verdadeira incógnita responde pelo nome de Ferrari. Bem verdade que, mesmo numa temporada encardida como a passada, Raikkonen levou o carro vermelho à primeira posição, mas o F10 ainda não foi testado em condições como as de Spa – longas retas, curvas velozes e downforce menor. Silverstone, que era referência, mudou o traçado este ano e perdeu boa parte das características. Em Hockenheim veio a dobradinha de tristes lembranças, mas lá também a pista é outra em relação ao que foi nos tempos áureos. Por fim, não será nenhuma surpresa apostar em bons resultados das Force India. Basta lembrar que Giancarlo Fisichella foi pole na edição passada e terminou em segundo, por total mérito de carro e piloto. Em outros tempos, ver Michael Schumacher largando no fundo do grid era emoção certa. Agora, provavelmente não, um pouco pelo piloto, muito pelo carro… É esperar para ver. O bom das previsões é que elas podem até se confirmar…

NECESSIDADE OU EXAGERO?

Há um fenômeno recente no automobilismo brasileiro que chama a atenção e merece ser analisado. De uns tempos para cá, se tornou moda os aspirantes a campeão (em especial os mais endinheirados) contratarem os serviços de um piloto com currículo recheado e experiência para dar e vender (no caso vender…) para ajudá-los na adaptação aos carros de fórmula e mesmo ao kart, ensinando macetes, manhas e tentando agilizar o processo. Nada contra, especialmente porque quem recebe tal tipo de convite normalmente não teve as oportunidades merecidas e encontra uma forma de engordar o orçamento, ou financiar a participação em algum campeonato. São feras como Rubem Carrapatoso (campeão mundial de kart), Sérgio Jimenez, Júlio Campos ou Dennis Dirani.

Só que me parece consequência de um sistema que pressiona e exige dos novatos resultados cada vez mais imediatos. Houve uma época em que se aprendia na marra, às custas de talento, trabalho e curiosidade. Principalmente em terras distantes, nas quais a cultura e a barreira da linguagem tornavam tudo mais difícil. E que errar ou enfrentar dificuldades no começo eram coisas normais. Me lembro bem que Bruno Junqueira largou no fundo do grid de sua primeira corrida na F-Chevrolet, em Goiânia. E Clemente Jr. assim que teve o primeiro contato com um F-3, rodou na saída dos boxes em Campo Grande, sendo motivo de risadas para os mecânicos da equipe Cesário. Algo mais do que normal para quem passa dos 20, 30 cavalos de um kart para 200, 250, com direito a asas, câmbio e tudo o mais. E vejam até onde os dois mineiros chegaram… Numa época em que os recursos à disposição do piloto são bem maiores e a pilotagem, se pode ser dito dessa forma, bem mais fácil (ou menos trabalhosa), não será um erro apostar nessa “condução a quatro mãos”? É algo a se pensar…

HORA DE GANHAR O MUNDO

“Estou disputando dois campeonatos mas, se os calendários não baterem, posso correr até três. Minha mulher sabe e entende que passo mais tempo na pista do que em casa”. A afirmação dá uma pista (sem trocadilho, juro…) do que um dos melhores pilotos de turismo do Brasil nos últimos anos pretende em 2011. Cacá Bueno, que vem de sete dias impressionantes – venceu a Stock nas ruas de Salvador, conquistou a primeira prova e foi o melhor piloto do fim de semana no Trofeo Linea, em Interlagos, ficou com um gostinho de quero mais depois da experiência de acelerar um Chevrolet Cruze oficial na etapa de Brands Hatch do Mundial de Turismo (WTCC). Na ocasião, sentou no carro sem treinos e mostrou toda a sua capacidade de adaptação para, com pouco tempo de pista, conseguir um desempenho mais do que razoável. Problemas mecânicos, com direito a princípio de incêndio, o impediram de brigar pelos pontos. Ele admite que está negociando para disputar toda a temporada em 2011, ao que eu acrescento. As filiais da Honda no Brasil e na Argentina trabalham para montar um esquema com Cacá e o argentino Leonel Pernía, com modelos Civic preparados pela equipe italiana Jas. Leonel é, nada mais nada menos, do que o filho de Vicente Pernía, ou “El Tano”, bicampeão da Libertadores pelo Boca Juniors nos anos 1970, antes de se transformar em piloto. Um dos irmãos herdou a paixão pelas pistas, o outro, Mariano, é um dos destaques do Atlético de Madrid.

CONFISSÕES DE UM ESTREANTE

Interlagos, terceira etapa do Trofeo Linea (é assim mesmo, para marcar a origem italiana do carro). Intervalo entre as corridas e nos fundos dos boxes da equipe do experiente Luiz Otávio Paternostro, o Pater, o mineiro Clemente Jr. fala sobre a experiência na categoria. E sobre o duro aprendizado em meio a feras como Cacá Bueno, Ricardo Maurício, André Bragantini ou mesmo seu companheiro Giuliano Losacco. Por mais que carregue na bagagem cinco títulos brasileiros de kart e seja campeão sul-americano de F-3, ele paga pelo noviciado. Não pode treinar entre as etapas por um motivo simples: a organização reprograma a central eletrônica dos carros, que não passa das 1.500 RPMs (o suficiente para fazer manobras e pequenos deslocamentos). E ainda se sente meio peixe fora d´água correndo pela primeira vez com teto no carro. “No Rio, na primeira rodada dupla, eu ainda me comportei como se estivesse na F-3, acelerando com mais cuidado. Rapidamente eu vi que não dá certo. Tem que reaprender e entender que os toques são normais. Nunca tinha corrido com um carro de tração dianteira e ainda estava apanhando um pouco para regular os freios. O jeito é acumular experiência e avançar a cada etapa”. Realmente todos os carros têm quatro rodas e motor, mas a prática mostra que a teoria, as vezes, é outra.

ECOS DE INTERLAGOS…

Pois é, eu estive em Interlagos e, como vários outros colegas curiosos para ver o que se “escondia” sob o nome de Racing Festival, fiquei animado e satisfeito com o que vi. Desenvolver campeonatos que agradem, ao mesmo tempo, a pilotos, equipes, patrocinadores e principalmente ao público, que o faça ir aos autódromos, ligar a TV, não é nem de longe uma tarefa simples, Mas que a turma capitaneada pelo competente Carlinhos Romagnolli (entre os responsáveis pelo espetáculo estão, coincidentemente, vários mineiros que ganharam fama como navegadores no rali de velocidade – Marcus Tucano, Donato Khouri e Georges Gazzinelli, para dar nome às feras) acertou na medida, não restam dúvidas.

O evento é grande, sem ser grandioso, exagerado. Horários cumpridos, regulamentos mais ainda, respeito com todos os envolvidos e muita vontade de fazer bonito e transformar o Trofeo Linea, a F-Future e a Copa Hornet 600cc em competições tradicionais no panorama do automobilismo e motociclismo brasileiros. Claro que o envolvimento de Felipe Massa (que aliás passeou por Interlagos, literalmente, com um Fiat 500 e só quis ficar longe de polêmicas, mas recebeu todo o carinho do torcedor) pesa, mas não faz tudo sozinho. Ver pilotos como Cacá Bueno, Giuliano Losacco ou André Bragantini descerem dos carros elogiando o comportamento dos rivais nos pegas – e olha que a quantidade de totós é uma grandeza – e sorrindo de orelha a orelha é a melhor prova de que a fórmula, com o perdão do trocadilho, chegou para ficar. Tudo bem, um Linea com motor 1.4 turbo de 210cv, com todas as limitações de um modelo feito para andar nas ruas, não é comparável a um Stock, mas pego carona nas palavras de um “certo” Christian Fittipaldi para tentar explicar. “Se você me perguntar que carro é mais gostoso de pilotar, mentiria se dissesse que não é o Stock. Mas, se você me perguntar que categoria dá maior prazer, com certeza é o Linea”. Tem muita história boa colhida em um dia de Interlagos. Durante a semana eu conto…