VIRTUAL E REAL… AINDA BEM…

Num post publicado dia 2, questionei a quantidade de pilotos reservas, e segundos, terceiros ou quartos à disposição das escuderias da F-1, especialmente no momento em que os testes se limitam a 15 dias na pré-temporada e uma semana depois do campeonato. Claro que tem gente que aproveita para ganhar uns bons trocados (especialmente as menores), como há quem não tenha talento suficiente para chegar por méritos próprios e leva uma mala cheia de dólares para posar de piloto da principal categoria do automobilismo…

Segundo minhas contas (que ainda não tinham Nick Heidfeld em lugar de Robert Kubica), são 19 reservas para 24 titulares, e teve gente, como a própria Lotus Renault, que caprichou. Cheguei a citar inclusive que o italiano Davide Rigon, duas vezes campeão da F-Superliga (aquela dos clubes de futebol) foi contratado pela Ferrari apenas e exclusivamente para trabalhar no simulador de Maranello.

Felizmente descubro que hoje, na pista de Fiorano, Rigon deveria ter completado suas primeiras voltas no comando de um F60 (de verdade), o carro de 2009. A chuva, no entanto, adiou a programação, mas Rigon terá sua chance. Menos mal, ou eu iria sugerir que os times começassem a procurar nos campeonatos de Playstation seus próximos colaboradores. Ainda bem que continua sendo tarefa para pilotos com P maiúsculo…

SÓ UM DETALHE…

Tudo bem, estamos no mês do ínício de mais um Mundial de Fórmula 1 – seriam apenas duas semanas de espera caso a situação no Barein não tivesse chegado ao ponto em que chegou – mas entre tantas coisas ditas, feitas, tantos testes, análises e novidades, uma coisa em especial me chamou a atenção e mostrou que o sucesso pode ter, sim, uma pitadinha de sorte.

Senão vejamos: a Pirelli, desde setembro do ano passado, limou o asfalto de vários autódromos pelo mundo (Monza, Mugello, Barcelona, Paul Ricard, Valencia, Abu Dhabi) com um carro 2009 da Toyota e a colaboração de Nick Heidfeld, Pedro de la Rosa e Romain Grosjean. Foram mais de 18 mil quilômetros e, apenas na semana seguinte ao término do campeonato, as escuderias tiveram contato com as primeiras versões dos novos compostos, em Yas Marina. Puderam avaliar, comparar e dar sugestões – Felipe Massa e Michael Schumacher encabeçaram o coro por pneus dianteiros que proporcionassem mais grip e mais rápido, no que foram prontamente ouvidos pela equipe técnica do fabricante milanês.

Só que…nenhum teste, até o início propriamente dito da pré-temporada, em 1º de fevereiro, foi feito levando em conta as duas grandes novidades da temporada: a volta do Sistema de Recuperação de Energia Cinética, o Kers, e a adoção da asa traseira móvel que, quando acionada, reduz a resistência ao ar. O cálculo é de que, juntos, os dois mecanismos proporcionem 30 km/h de velocidade extra, ainda que por alguns segundos.

Pois bem, por enquanto está tudo saindo como manda o figurino, mas ainda não se sabe se, em condições extremas, a borracha aguentará. A Pirelli garante que levou todo o tipo de fenômeno em conta, mas admite que só pôde ter uma ideia do que a espera quando os carros 2011 ganharam a pista. E não revela se foi ou será obrigada a fazer algum tipo de reforço para evitar problemas. Se for o caso, periga de os pilotos encontrarem, em Melbourne, algo bastante diferente daquilo a que se acostumaram. O que pode ser mais um fator numa equação que já não é das mais simples. Tomara que seja apenas cisma…

PILOTAR E RANGER OS DENTES…

Quanto mais o homem conhece sobre si próprio e a tecnologia, mais fatores são levados em conta na preparação de um piloto de ponta. Ayrton Senna tornou lendária a preocupação com o preparo físico e cada detalhe que poderia valer décimos de segundo preciosos. Hoje há clínicas e aparelhos especializados em trabalhar músculos e reflexos específicos, sem contar os simuladores impressionantemente realistas e capazes de, num recinto fechado, reproduzir todos os movimentos e mesmo a ação da força da gravidade sobre o organismo.

Até aí tudo bem. Eu mesmo tive o privilégio de conhecer a que é hoje considerada a meca dos pilotos de ponta, a Formula Medicine, empresa criada pelo médico italiano Riccardo Ceccarelli em Viareggio, na Toscana, com base em sua experiência na F-1 e em outras categorias de ponta. Aliás, dia desses eu falo sobre o projeto, coisa mais do que profissional e séria – basta falar em sobrenomes como Massa, Kubica, Briscoe, Junqueira e Trulli, alguns dos que se valeram dos preciosos ensinamentos e experiências do projeto.

Mas, aqui o assunto é outro: tudo bem que, nos tempos atuais, de estresse e cobrança máximos, um dos sintomas típicos da modernidade é o bruxismo (o ranger de dentes). E que a indicação para quem padece do problema é o uso de uma placa de acrílico durante a noite (principalmente) ou a prática esportiva, para atenuar os efeitos danosos. Só que, também da Itália, vem algo ainda mais especializado. Pois o doutor Pietro d’Agostino, dentista da terra da bota, propõe o uso de um protetor chamado de Race Bite (bite é mordida, em inglês…). Segundo ele, é possível, com um sistema de coleta de dados, calcular os picos de força dos dentes durante o esforço da pilotagem e desenvolver uma placa personalizada, capaz de melhorar o desempenho do piloto ao “estabilizar o baricentro numa posição ideal”. Será que é preciso isso tudo? Sei lá…

ELAS E O CAVALINHO…

Já vão longe, felizmente, os tempos em que as mulheres chamavam a atenção na pista única e simplesmente por serem diferentes. Eram destacadas com olhos exclusivamente masculinos e se falava em atributos como vaidade, beleza, charme; isso quando não se aconselhava a senhora (ou senhorita) a pilotar um fogão, ou uma máquina de lavar. Falar nelas atualmente é pensar, sim, em vitórias, títulos, briga pelas primeiras posições. E não faltam bons exemplos: Bia Figueiredo, Simona de Silvestro, Sarah Fisher, Danica Patrick, Katherine Legge, Vanina Ickx, Maria de Villota, Valentina Albanese, Pippa Mann, Rahel Frey (integrada pela Audi a seu time no DTM), Cyndie Allemann e Beitske Visser, apenas para citar os nomes que vieram à mente.

Pois “a” escuderia por definição resolveu abrir os olhos para o fenômeno e procura uma representante do sexo feminino para sua escolinha de pilotos. Responsável pela Ferrari Driving Academy, Luca Baldisserri recebeu a missão de identificar uma menina de potencial, para vesti-la de “vermelhinho básico”. Duas italianas são as mais cotadas: Vicky Piria, de 17 anos, que vai disputar sua segunda temporada na F-Abarth; e Alessandra Brena, que vai estrear na categoria depois de boa passagem pelo kart. Se é garantia de que teremos uma mulher na F-1 em breve? Isso a Driving Academy não garante a nenhum de seus pupilos, independentemente do sexo. Mas que é um avanço para um time que não conta com mulheres entre suas técnicas – apenas em funções ligadas a marketing e assessoria de imprensa, isso ninguém duvida. E era mais do que tempo.

Ferrari/divulgação

CACÁ NO MUNDIAL DE TURISMO…

O que era um projeto, uma possibilidade, se confirmou com a divulgação da lista de inscritos para a íntegra da temporada do Mundial de Turismo, o FIA WTCC. Embora o direto interessado ainda não tenha confirmado, Cacá Bueno vai pilotar um Chevrolet Cruze 1.6 Turbo na equipe oficial Chevrolet RML, ao lado do campeão Yvan Muller, do suíço Alain Menu e do inglês Robert Huff. Em 2010, ele disputou, com o time, a etapa de Brands Hatch e não fez feio, mas um princípio de incêndio no motor o levou a abandonar a primeira bateria e a ficar fora da segunda. O que se comentava nos bastidores era a possibilidade de criação de um time bancado pela Honda com apoio da Petrobras, que contaria ainda com o argentino Lionel Pernía, mas a ideia não foi adiante. Opiniões à parte (e eu volto a afirmar que, além de ser gente finíssima, Cacá é um dos melhores pilotos de turismo do continente), é muito bom manter uma presença verde e amarela de ponta depois da saída da BMW, que levou junto o paranaense Augusto Farfus, provavelmente a caminho do DTM…

SÓ PRA ATUALIZAR…

Para quem por acaso ainda não viu, aí vai a distância atualizada percorrida pelas equipes da Fórmula 1 com seus novos carros, somando-se os quatro dias de treinos em Barcelona. A Ferrari segue imbatível na ponta quando o assunto é o tempo de pista, seguida por Red Bull e Mercedes que, como quem não quer nada, tem andado muito, e por vezes rápido. A Virgin, que não contou com o MVR02 em Valência, está tirando o atraso e, a exemplo do Team Lotus (o verde e amarelo), chegará à Austrália com muito mais chão percorrido do que no ano de estreia…

Distância percorrida
(em quilômetros)

Ferrari        5.215,9
Red Bull Renault    4.406,6
Mercedes        4.296,7
Sauber Ferrari        4.097,7
Williams Cosworth    4.066,9
Toro Rosso Ferrari    3.798,6
Lotus Renault        3.415,8
McLaren Mercedes    2.571,8
Virgin Cosworth    2.483,5
Force India Mercedes    2.435,1
Team Lotus Renault    2.422,6
Hispania Cosworth    0 (*)

Treinos: Valência (1 a 4); Jerez de la Frontera (10 a 13); Barcelona (18 a 21)
(*) computados apenas os testes feitos com os carros 2011

ALGUNS NÚMEROS

Você saberia dizer quantos reais custa percorrer um quilômetro com um carro de Fórmula 1? Não se trata de pensar no aluguel de um carro que foi da categoria – e o que mais há na Europa são empresas ou escolas de pilotagem que oferecem o serviço, com direito a curso intensivo, telemetria, macacão, capacete e todo o aparato necessário, mas isso é assunto para outro post.

Na verdade, cada equipe faz um cálculo com base em todas as despesas envolvidas: o que se gasta com pneus, com o salário dos mecânicos, técnicos, engenheiros e pilotos, combustível, peças de reposição, o custo de fabricação dos chassis, aluguel da pista (quando se trata de teste) e todo o mais. E para efeitos de orçamento, chega-se ao custo médio por quilômetro.

Que, no caso da categoria máxima do automobilismo mundial é estimado em 1.000 euros, cerca de R$ 2.820. Um quilômetro, que fique bem claro. Sendo assim, a volta mais barata seria a completada nas ruas de Mônaco, com exatos R$ 9.352. Basta multiplicar pela distância percorrida em um ano e dá para chegar aos orçamentos milionários das escuderias.

Só como curiosidade, a Pirelli, obrigada a alugar o carro 2009 da Toyota para testar seus compostos de pneus, conseguiu um “precinho camarada” de 650 euros (R$ 1.480) pelo quilômetro rodado. Como teve de testar em nove circuitos diferentes e andou mais de 18 mil quilômetros, a brincadeira não ficou tão mais barata: algo em torno de R$ 26,6 milhões. Haja dinheiro…

DECISÃO SENSATA…

Só para não me estender mais sobre o tema, totalmente sensata a decisão de cancelar o GP do Barein, ainda que não se saiba o que será da prova (se volta no fim do ano ou apenas em 2012). Do alto de seu pedestal, o circo (leia-se: FIA, FOTA, Bernie Ecclestone) deu uma inesperada prova de humildade ao admitir que há aspectos bem mais importantes no mundo, como o futuro político de um país e vidas humanas em jogo. E não haveria como prever, agora, qual será o cenário na primeira quinzena de março. Arriscado demais seguir adiante com os planos. Dessa forma, testa-se mais uma vez em Barcelona e o Mundial começa dia 27, em Melbourne, o que não trará qualquer prejuízo à imagem da categoria.

PEDRA SOBRE PEDRA…

A vitória de um menino que, na véspera, completou 20 anos e disputava pela primeira vez a prova que é um verdadeiro monumento do automobilismo mundial já seria assunto suficiente para badalar a edição 2011 das 500 Milhas de Daytona. Mesmo nos EUA poucos haviam ouvido falar de Trevor Bayne até hoje. Mais impressionante ainda é o fato de ele correr por uma equipe tradicionalíssima (a Wood Brothers Racing), mas que não sabia o que era vencer há exata uma década – lá está o Ford Fusion de nº 21 no alto do pódio, depois de uma corrida que justificou a tradição, com acidentes cinematográficos, 16 bandeiras amarelas e 69 mudanças na liderança.

Só que existem outras curiosidades que cercam o evento, um daqueles que deveriam fazer parte do calendário de qualquer fã da velocidade. Ocorre que, depois da vergonha da edição do ano passado, que teve de ser interrompida depois que pedaços de asfalto começaram a se soltar, os donos do oval foram obrigados a refazer o piso. Aí, estamos falando dos EUA, da meca do capitalismo e do marketing, em que tudo pode ser uma bela oportunidade de negócio.

Pois o que é que a família France decidiu fazer? Você já deve ter imaginado: vender pedaços de asfalto como suvenir. Tem de vários tipos e tamanhos. Alguns reproduzem números que se tornaram lendários no local – e não é surpresa descobrir que o 3, do falecido Dale Earnhardt, é o mais procurado. E também tem blocos tirados das quatro curvas e da reta principal, além de chaveiro, medalha, e miniatura de carro sobre… um pedacinho de asfalto. Os preços vão de acessíveis R$ 41,50 a mais salgados R$ 330. Não deixa de ser curioso, e tem um detalhe que não dá para ignorar. Ocupa um belo espaço na bagagem, além de não ser coisa das mais leves. Enfim…

Nascar/divulgação

NAS DUAS, COMO NAS QUATRO RODAS…

Responda rápido, sem olhar a foto que está no pé do post: o que têm em comum Alain Prost, Fernando Alonso, Jarno Trulli e os brasileiros Cristiano da Matta, Bruno Junqueira, Tony Kanaan, Rafa Matos e Christian Fittipaldi além do fato de serem todos pilotos com carreiras destacadas no automobilismo?

Cronômetro zerado, já deu tempo para pensar, e eu respondo, inspirado pelo exemplo pessoal (embora quem seja eu pra me comparar a essas feras…): um modo de manter a forma física que combina o útil ao agradável, e tem um quê de paixão. São todos loucos pelo ciclismo, em suas mais variadas modalidades. Entre eles há até quem tenha começado sobre duas rodas para, então, abraçar as quatro – Bruno Junqueira foi um dos destaques das categorias menores do bicicross nos anos 1980 até passar para o kart.

E não é só um treino com rodas o que atrai essa turma, que poderia correr, nadar ou jogar tênis. Todos são extremamente alucinados com as magrelas. Procuram notícias nos sites, se informam sobre as últimas novidades, tratam as bikes com um ciúme danado e não se contentam em simplesmente completar quilômetros. Querem a sensação das pernas queimando, o mix de sofrimento e felicidade que só quem experimenta pode definir. Nos tempos em que morava em Mônaco, por exemplo, Cristiano tinha como hobby tentar encarar algumas subidas de montanha percorridas no Tour de France – só não conseguia entender como Lance Armstrong tinha conseguido fazê-lo tão mais rápido. Antes disso, em 2001, ele apostou com Tony que quem vencesse uma prova da Indy no ano ganharia uma bicicleta top do outro. Moral da história: o baiano ganhou duas bikes para a coleção.

E eles não brincam. Já virou tradicional o “Pega da Galera”, diversão de fim de ano criada, entre outros, por Cristiano – um desafio de mountain bike que reúne ainda a turma do enduro, de outros esportes radicais. Prost chegou a ser sócio de uma fábrica de bicicletas e foi prestigiar a quinta etapa do Tour de Omã, ao lado de ninguém menos que Eddy Merckx e Bernard Hinault, duas das maiores lendas do pedal.

Antes que você pense que pode ser um esporte mais seguro que o rali, vale comentar. O próprio Alonso disse quase ter sido atropelado durante um treino. Felizmente, na maioria dos casos, não é o que acontece. E mais um exemplo de que andar sobre rodas, seja sobre duas ou quatro, pode ser igualmente divertido. Nenhum deles vai me desmentir…

Alain Prost, em Omã