EMBALOS DE SÁBADO À NOITE

Já se vão 15 anos cobrindo automobilismo (o tempo passa, goste-se ou não) e a experiência que vivi neste sábado à noite foi inédita. Uma coisa é você pôr os pés no asfalto sagrado de uma pista de corrida – e isso eu tive o privilégio de fazer no Brickyard, a lendária faixa de tijolos da linha de chegada em Indianápolis. Outra é percorrer toda a extensão de um traçado, seja a pé, de bicicleta, scooter, carrinho de golfe, ter a noção exata da inclinação de cada curva, da extensão de cada reta, imaginar como é possível chegar à velocidade X ou usar a marcha Y num determinado trecho, tentar entender se os bumps (as ondulações), tantas vezes citados, são realmente tão pronunciados a ponto de justificar a preocupação dos pilotos.

“Falta do que fazer?” “Loucura?”. Não, simples curiosidade, e uma oportunidade que sei lá quando se repetirá. Só acabei seguindo o sentido inverso ao da passagem dos carros, em meio à movimentação da Indy Run, a rústica de 8 quilômetros que passou a fazer parte da programação. E confesso que entendi as palavras do pole Will Power, quando disse que São Paulo se tornou a referência em termos de circuitos de rua. O trecho em asfalto parece o cenário que está no fundo do blog – são apenas alguns centímetros de espessura, o suficiente para garantir o máximo de uniformidade possível para um circuito de rua. Nos trechos em que o asfalto encontra o concreto, há verdadeiros degraus, mas nada que comprometa o desempenho das máquinas. E a “Reta dos Bandeirantes”, com seus 1.500m de extensão, é interminável. No sambódromo, estão claras as marcas da fresagem que garante a aderência necessária para evitar os problemas de 2010. Logo a cabeça começa a viajar. Aqui dá para engatar segunda, terceira, quarta, freada na placa dos 100m, duas reduções… e assim vai. Curioso passar sobre uma ondulação na entrada do trecho misto ao lado do Anhembi que havia visto pela manhã, do lado de lá do muro, e sentir exatamente o desnível. De tempos em tempos, um dos sinalizadores eletrônicos de bandeira amarela.

Como minha volta foi ao contrário e começou na entrada dos pits, é lá que termina também. Poderia ser apenas uma caminhada de 4.080m exatos, mas serviu para admirar ainda mais o trabalho daqueles que sonharam com a volta dos carros norte-americanos ao Brasil (depois da extinta ChampCar). Confesso que, no começo de 2010, quando foi anunciado o local e o desenho do circuito paulistano, torci o nariz e achei que não daria certo. Agora, como a maioria dos pilotos, pessoal das equipes e público da velocidade, espero ver a São Paulo Indy por bem mais do que os 10 anos inicialmente previstos. Que venha a bandeira verde…

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DETALHE (OU MAIS UMA IMAGEM)

Não, o objetivo da foto não é fazer publicidade de fabricante de cerveja (mesmo porque faz concorrência à patrocinadora principal do evento), mas mostrar algo que exemplifica bem a riqueza de detalhes de um carro da Indy Racing League (IRL). Quem é fã da categoria já sabe do que se trata, se você nunca prestou atenção, eu explico. Essa alavanquinha, que tem alguns milímetros de espessura, permite aos mecânicos alterar a inclinação da asa dianteira durante os pitstops. O número de voltas (ou cliques) depende do que diz o piloto, de quanto o carro sai de frente ou de traseira. É uma das poucas formas de tentar deixá-lo mais neutro, ao lado do sistema que divide a força da frenagem entre os eixos dianteiro e traseiro. Comece a prestar mais atenção nas paradas para ver como acontece… É coisa de segundos…

OUTRO MUNDO…

Como se ainda faltassem exemplos de que a atmosfera na Indy é bem mais agradável do que na F-1 – alguns profissionais do circo chegam a olhar para você em Interlagos como se fosse um alien, o que, felizmente, não é a regra, mas acontece – estava eu batucando as linhas da matéria de amanhã do Estado de Minas/Correio Braziliense quando Mark Robinson, assessor de imprensa da Firestone se aproxima da minha mesa para deixar seu release. De repente, ele olha para a minha mochila e brinca: “mau gosto, hem. Nem um pouco interessante. Se tivesse uma das nossas eu traria agora”. Detalhe, a bolsa tem impresso, em letras garrafais, um Goodyear Racing, ou seja, concorrência (não aqui, que a IRL tem fornecedor único, mas nos mercados pelo mundo). E o mais curioso de tudo é que os pneus da Indy são fabricados em Akron, Ohio, onde está também a sede de uma “tal” Goodyear…

Aliás, ontem, conversando com Mark, ele me deu um bom parâmetro da qualidade dos produtos desenvolvidos para alguns dos carros mais velozes do mundo. “A empresa anunciou que deixaria a categoria e as equipes, por unanimidade, nos pediram para continuar. Seguimos pelo menos até 2013”. A turma dos pneus começa, feitas as malas em São Paulo, o mês mais insano na categoria (e olha que já foi pior). “Trouxemos 1.500 pneus ao Brasil e, se não chover, boa parte deles não terá uso. Nas 500 Milhas de Indianápolis serão ao menos 5.000”. Haja trabalho…

AULA DE ENGENHARIA…

Quem gosta de automobilismo gostaria de estar no meu lugar na noite desta sexta-feira, no escritório da equipe AFS Racing, de Rafa Matos. Tive a chance de assistir uma verdadeira aula, no que era “apenas” a reunião entre o piloto mineiro e os engenheiros Tom Brown e Adam Schaechter, para discutir o acerto inicial a ser usado nos treinos para a São Paulo Indy 300, a quarta etapa da temporada, no circuito de rua do Anhembi. O leitor deve imaginar que não se trata de uma ocasião muito comum, especialmente por se tratar de assunto “confidencial” guardado a sete chaves pelas equipes. Numa categoria tão equilibrada, qualquer jogada de mestre que proporcione ganho de um décimo de segundo é ouro puro. E, como brincou o próprio Rafa, depois de mostrar a suspensão traseira de seu Dallara Honda, e depois cobri-la novamente com uma capa, “the devil is on the details” (o diabo está nos detalhes).

Para começo de conversa, esqueça a idéia de que basta sentar no carro, acelerar, frear e esterçar o volante nas horas certas. Automobilismo é ciência mais do que exata. E nem é necessário contar com computadores potentes, ou estrutura digna de time de F-1. Bastam dois laptops, os bons e velhos cadernos de anotação e, das palavras de Rafa e das conclusões de Brown, com suas mais de duas décadas de trabalho ao lado de feras como Emerson Fittipaldi, Paul Tracy e Dario Franchitti, para que surja no papel um desenho do circuito, recheado de observações.

O piloto fala de como prefere o comportamento do carro, de como gostaria que ele se comportasse, enquanto Brown e Schaechter parecem falar a mesma língua, e apostam em sua teoria. Maior altura do carro em relação ao solo, suspensão mais macia e pneus com pressão mais alta são, segundo eles, o segredo para um bom desempenho (claro que estamos falando sempre de milímetros de diferença, de uma libra, ou uma libra e meia a mais, nada gigantesco). Algo que poderia contrariar a lógica, mas os engenheiros mostram com números e explicações, que tem tudo para ser o caminho certo. O número de pitstops já está definido (segredo que eu conto amanhã), bem como a decisão de usar o warm-up de domingo pela manhã para que Rafa teste sua capacidade de economizar etanol.

Lá se vão uns 40 minutos de briefing, e não faltam motivos para descontração, como, por exemplo, quando Rafa brinca sobre como fará para raspar a barba, ou pede a opinião dos demais sobre a sapatilha prateada que seu fornecedor mandou para a corrida (a maioria torce a cara, mas ele decide usá-la mesmo assim). E numa ocasião tão solene até mesmo este que vos escreve se mete no papo, tira dúvidas, tenta entender como será possível trocar a configuração dos treinos livres para a qualificação em menos de duas horas – só para que você entenda, inclinação das asas, pressão dos pneus, altura em relação ao solo, tudo isso muda. Brown explica cuidadosamente, e mostra que não é tão complicado assim. As histórias de corridas passadas, experiências que servem e outras que não, ajudam a temperar ainda mais uma experiência daquelas para não esquecer nunca. Se é que ainda havia alguma dúvida, estamos diante de um esporte de equipe, com certeza, e cheio de heróis muitas vezes nas sombras. E sabe quando eu teria uma oportunidade destas na Fórmula 1, ainda que fosse conhecido de fulano, amigo ou parente de beltrano? Nunca… Por essas e por outras que eu cada vez mais me convenço que o circo é fantástico, mas categorias como a IRL também são sensacionais…

ASSUNTO DE FAMÍLIA

Dario Franchitti é como aqueles jogadores de futebol que, por melhor que fossem, não conseguiram disputar uma Copa do Mundo (culpa de suas seleções, não deles…). Merecia ter ganho uma chance na F-1 além de um teste-relâmpago na Jaguar, já que ganhou por onde passou, e foi competitivo na F-3 e no DTM, onde chegou a reforçar o time oficial da Mercedes. Como aliás fez um certo Paul di Resta, que vem a ser primo do piloto da Ganassi, e hoje começa a ser apontado como a aposta para aposentar um tal de Michael Schumacher graças aos promissores primeiros resultados com a Force India.

O escocês bom de braço e gente boa – olha que nem entra no julgamento o fato de ele ser casado com uma “certa” Ashley Judd – podia se sentir chateado, mas é o primeiro incentivador do primo, a ponto de tê-lo apoiado inclusive financeiramente nas categorias de formação. “Se eu sentisse inveja dele, não o teria ajudado. Muito pelo contrário, é fantástico que Paul tenha chegado lá. Sei que ele merece e tem toda a capacidade de fazer muito mais. Não é apenas meu primo, é meu irmão, sempre fomos muito próximos”. Aliás, automobilismo é mesmo coisa de família, já que Marino, irmão (mesmo) de Dario, não é tão talentoso, mas se transformou num piloto bastante honesto nas provas de longa duração.

AMANHÃ…

Os 26 pilotos inscritos na segunda edição da São Paulo Indy 300 vão passar inúmeras vezes por esta reta, quando entrarem e saírem da pista a cada momento dos treinos, para os ajustes de praxe, as trocas de compostos de pneus, as “instalation laps”, e tudo o mais. O que chama a atenção é que, por mais que tenha tentado, não encontrei um piloto que tenha disputado a prova ano passado que não tenha elogiado o recapeamento no trecho de rua (vale lembrar que a reta do sambódromo, normalmente fechada ao tráfego, tem piso de concreto, que, aliás, perde a tinta refletiva graças a uma fresagem que, em 2010, foi feita na madrugada da corrida)Mas ninguém foi capaz de jogar pedras no traçado, mesmo na configuração do ano passado, que era um grande aprendizado para todos. E a reta de 1.500m que, nos dias “normais”, é uma pista lateral da Marginal Tietê, deixa a todos salivando. Ultrapassagens vão acontecer, e não serão poucas, acreditam as estrelas da festa. Tanto melhor…

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TROFÉU? NÃO, DÁ AZAR…

Vencer numa categoria competitiva e de alto nível técnico como a IRL exige coragem, técnica, equipamento e… superstição. Como assim? Ontem já havia sido o caso, na coletiva dos brasileiros, quando apenas o mineiro Rafa Matos aceitou tirar uma foto com o troféu que será entregue ao vencedor. Acabou há pouco no Anhembi a coletiva dos três vencedores de corrida na temporada – o tricampeão Dario Franchitti, o vice-campeão Will Power e o britânico Mike Conway. Brincadeiras à parte – os dois súditos de sua majestade admitiram ter dado uma espiada no casamento de William e Kate (mas Dario entregou colega de equipe Scott Dixon, que não teria saído do quarto e ficou comovido com a cerimônia), nenhum dos três aceitou posar com a taça. “Bad luck” repetiram. É, segundo eles dá azar, e a foto saiu sem troféu mesmo…

CHEGA A SER CURIOSO

Começo da noite no hotel que recebe a grande maioria dos pilotos e pessoal das equipes para a São Paulo Indy 300, e a cena chega a ser divertida, especialmente levando-se em conta o que ocorre na F-1. Quem passa e não conhece bem tenta arriscar: “acho que aquele ali é piloto”, mas passa raspando. Logo ao lado está o vice-campeão da Indy Racing League (IRL), Will Power, conversando com a mulher, de camiseta e calça jeans sem qualquer referência à Penske. Poderia passar por qualquer outra coisa. Numa mesa próxima, Vítor Meira bate papo com familiares, enquanto Rafa Matos, sentado, aguarda a namorada. Alex Tagliani passa de volta da academia de ginástica; mecânicos, engenheiros e jornalistas de todo o mundo dividem o mesmo espaço. Vai longe o clima de paranóia, espionagem ou rivalidade. Cada um tenta fazer sua parte bem feita, e que a pista mostre quem é o melhor. Taí um exemplo que muita categoria menos importante poderia seguir. Olha que está longe de ser um campeonato qualquer…

COMO FOTO NÃO TEM SOM…

Tão interessante quanto o fato de reunir os cinco pilotos brasileiros entre os 26 inscritos para a segunda edição da São Paulo Indy 300 é saber que o encontro é garantia de diversão na certa. Longe das neuroses da F-1 e suas frases feitas, da ditadura dos assessores de imprensa e seus gravadores onipresentes, prontos a registrar qualquer deslize para fazer o coitado entrar na linha (deles, claro…). É possível ser rápido, talentoso e ter opinião sem que isso represente risco de ser chamado para uma conversa por instâncias superiores. Por isso mesmo, do lado de cá do Atlântico, Helinho pode dizer que não gosta do sistema de relargadas inspirado na Nascar, com os pilotos alinhados dois a dois (entendo que o público norte-americano prefere assim, pode ser mais emocionante, mas não para nós). Vítor Meira pode provocar Tony Kanaan, que trocou a poderosa Andretti pela menos poderosa KV Lotus, ao dizer que, enquanto seu carro para os circuitos mistos está em São Paulo, o chassi para as 500 Milhas de Indianápolis está na sede do time de A.J.Foyt.

“Você tem dois carros? Tá bem, hem…”, provocou o baiano. “Pois é, quem te viu e quem te vê, agora você tem apenas um”, devolveu o brasiliense, em clima de total descontração. Rafa Matos garantiu que não vai formar fila dupla na curva 1, por um motivo simples. “Ali só cabe um carro, ou é acidente na certa. Ninguém vai me ver fazendo isso, que eu não sou bobo”. E Bia Figueiredo, com estilo fashion e marca do patrocinador até na tala que protege o punho operado, pedir desculpas pelo atraso, alegando que “estava retocando o batom”. Aliás, um deles, cuja identidade eu não revelo nem sob tortura, brincou com o fato de encarar Bia, Danica Patrick e Simona de Silvestro, e nem sempre levar a melhor. “Estou acostumado a correr cercado de calcinhas” – claro que aí a brincadeira não foi pública, mas é digna de uma categoria com astral totalmente diferente. Felizmente, por estas bandas, não há divisórias barrando os olhos curiosos do trabalho das equipes, entrevistas cronometradas rigorosamente ou a torcida incontrolável para que um piloto tenha de ir ao banheiro para pegar uma declaração pelo caminho. Os tempos mudam, pilotos e equipes também, mas o espírito bem mais leve prevalece. Ainda bem que, na IRL, o espetáculo é ordem, e o torcedor é quem manda…