Gelo no circo…

Ainda que com algum atraso, dou meu palpite sobre a volta de Kimi Raikkonen ao Mundial de Fórmula 1. O finlandês é um piloto diferenciado, mas um personagem quase nulo diante do bom humor de Sebastian Vettel, Mark Webber, Jenson Button e Rubens Barrichello, apenas para citar alguns exemplos. Entrevista coletiva do Homem de Gelo é sinônimo de poucas palavras, fala baixa como a de Lewis Hamilton e quase nada de interessante. E sem a balela de readaptação, de dificuldade, já prevejo: vai brigar por um quinto, quarto lugar, dificilmente beliscará um pódio, a não ser que a Lotus R32 seja fenomenal. Claro que será ótimo ver seis campeões mundiais batendo rodas, mas daí a imaginar que ele possa repetir o feito de 2007…

Pausa na F-1… por pouco tempo

Não, o título do post não tem a ver com a situação do circo da F-1, que finalmente ganha folga depois de 19 cansativas etapas e um longo Mundial. Mas sobre os post de Interlagos, que ainda serão muitos, já que os quatro dias acompanhando o GP do Brasil renderam muitas boas histórias e imagens, que contarei ao longo dos dias. A pausa é apenas para comentar duas outras provas que, aliás, contam com o envolvimento direto de dois brasileiros com passagem pela categoria máxima: um o bicampeão Emerson Fittipaldi, o outro Rubens Barrichello.

O primeiro tornou-se promotor da etapa brasileira do renascido Mundial de Marcas (ou de Endurance), que pela primeira vez pintará por estas bandas, depois da vinda da Le Mans Series. No dia 16 de setembro, pelo menos 36 máquinas, entre protótipos e GTs (inclua na lista as Audi R18 e Peugeot 908 diesel oficiais) vão rasgar o retão de Interlagos para uma corrida de 6 horas – a torcida é a para que Emerson saiba emprestar seu prestígio à prova para termos arquibancadas bastante ocupadas, já que o espetáculo é sensacional. Sou o primeiro a querer acompanhar e me deliciar, como foi o caso na única passagem do DTM (então ITC) por pistas verde e amarelas, em 1996.

Rubinho levou a sério a paixão pelo Corinthians e é o criador de um rali no melhor estilo “Corrida dos Campeões”, em pleno gramado do Parque São Jorge que, nos dias 17 e 18 próximos, vai se transformar em pista de terra. Um time de feras (16 pilotos) correndo com máquinas iguais – os Mini Cooper JCW de 210cv – vão fazer um tira-teima de tirar o fôlego. O que me preocupa, apenas (e sempre tem alguma coisa…), é que, de rali mesmo, a iniciativa parece ter pouco. Os primeiros nomes cogitados são todos de pista, e faltam feras das estradas. Com direito a acordo com TV aberta e a cabo e uma promoção que parece bem encaminhada, seria uma chance de ouro para promover a modalidade. Tomara que se lembrem de algum craque – que tal Kris Meeke e Dani Sordo, que defendem a marca inglesa no WRC?

Sem dizer adeus

Se há alguém que não guardará boas lembranças do 40° GP do Brasil é o belga Jerôme d’Ambrosio. Não pelo 19° lugar com a limitadíssima Marussia Virgin, mas por ter, ao menos oficialmente (o paddock já especulava e muitos davam a informação como certa) a confirmação de que não fará parte do time em 2012. Com um comunicado na calada da noite, o time anglo-russo revelou que o francês Charles Pic formará dupla com Timo Glock – sucesso para a empreitada de todo um país, incomodado com a falta de representantes na categoria. Pic, de 21 anos, fez até uma temporada razoável na GP2, pela equipe Barwa Addax, mas, sem ser vidente, é possível prever que terá um futuro digno… do passado recente de D’Ambrosio: últimas filas, briga com a Hispania (que ultimamente vem levando a melhor) e algo em torno da 17ª, 18ª posição, quando muito. Pelo menos houve o agradecimento de praxe ao mais novo desempregado do automobilismo internacional. “Queremos destacar o comprometimento e a importante contribuição de Jerôme nos últimos 12 anos. Ele tem um futuro promissor diante de si e desejamos todo o sucesso”, afirma o Team Principal John Booth. Então tá… Não vai fazer as bolsas subirem ou resolver a crise econômica no Velho Continente, muito menos afetar o preço do dólar, mas é notícia…

Sinfonia da velocidade…

De volta de uma experiência quase sobrenatural e, especialmente, muito ruidosa. Pois a Red Bull resolveu se lembrar de que é uma escuderia diferente das outras e, em vez de apenas posar para uma foto diante dos carros com Sebastian Vettel e Mark Webber em destaque, resolveu festejar a temporada próxima da perfeição de um modo no mínimo curioso. Eis que, noite caindo em Interlagos, o circo praticamente desmontado, começa uma sinfonia de motores V8 em sua melhor expressão. Uma caminhada e está desfeito o mistério (como se fosse difícil descobrir). Sebastian e Mark, sob os olhares dos jornalistas, mecânicos e curiosos que ainda restam, observam os Renault de seus carros acelerados ao máximo, sem carroceria, dentro de um box fechado, que amplificou o som. Mesmo os dois tentam proteger os ouvidos e não escondem a surpresa – o australiano ainda tenta falar ao telefone, como querendo mostrar a alguém o berro ensurdecedor, com direito a cheiro de gasolina e óleo. Faltou o gravador para registrar – posso jurar que nunca ouvi tanto barulho na minha vida, e temi pelos tímpanos… O da camisa 73 na foto é o vencedor do GP do Brasil se divertindo com a brincadeira.

Números da temporada

Pois é, terminou mais uma temporada do Mundial de Fórmula 1 e, antes de falar sobre o que foi o GP do Brasil, aí vão vários números levantados pelo time dos bastidores da Pirelli, que completou em Interlagos sua primeira temporada completa no Mundial desde o retorno. Algumas informações mais relevantes, outras simples curiosidades, da série “Você sabia que…”. Bastante interessante

Total de pitstops: 1111

Pitstop mais rápido: 2s82 (Mercedes, GP da China)

Maior velocidade da temporada: 349,2 km/h (Sergio Pérez, treino oficial de Monza)

Total de pneus usados na temporada: 21.100 para pista seca; 2.900 para pista molhada

Total de borracha depositada no asfalto dos 19 circuitos: 10,2 toneladas

Duração média de um jogo de pneus: 120 km

Tempo médio para a montagem de um pneu: 2m30

Temperatura mais alta: 43° (Abu Dhabi)

Temperatura mais baixa: 6° (testes em Valência)

Corrida com maior número de ultrapassagens (asfalto seco): GP da Turquia, com 126

Líder do maior número de voltas: Sebastian Vettel (739)

Aliás…

Continuo acreditando que o post aí abaixo foi a melhor do dia, mas Sebastian Vettel se superou durante a conversa com os jornalistas em que comentou o recorde de 15 poles na temporada. Ao justificar o desejo de que Rubens Barrichello na categoria, exagerou um… pouquinho. Até estimou certo o número de GPs disputados pelo brasileiro da Williams (“trezentos e alguma coisa”), mas passou do ponto ao afirmar que Rubinho “participou de mais da metade das provas da categoria”. E fez cara de quem sabia que estava errando. Tudo bem que estamos falando de quase 20 temporadas no circo, mas a F-1 caminha a passos largos para o milésimo GP (estamos na prova n° 858, para ser mais exato). Começou em 1950 e, que eu me lembre, a estreia foi bem depois disso…

A melhor do sábado

Que os pilotos da Fórmula 1 costumam ser bem humorados uma vez fora dos carros, sem capacete ou adversários para superar não é propriamente uma novidade, embora haja raras e honrosas exceções (Fernando Alonso não é, como nunca foi, um protótipo de descontração, e costuma revelar o que sente apenas pela cara, meio amarrada, meio triste). Mas a entrevista coletiva dos três primeiros no treino oficial para o GP do Brasil proporcionou mais um momento divertido. O leitor deve ter notado que a dupla da McLaren corre com um desenho de flores e pássaros nos macacões, uma decoração que foi diferente ao longo da temporada, e normalmente se inspira no país da corrida.

Pois foi só alguém lembrar Jenson Button das flores para o inglês, num humor nada britânico, começar a brincadeira. “Quero corrida com chuva. Se chover, as flores crescem, e aí a coisa muda”. Sem perder a deixa, o bicampeão Sebastian Vettel saiu com mais uma de suas tiradas. “Sabe como é, se chover é preciso saber com que intensidade e em que momento, se as flores vão crescer, aí pode ficar complicado”. Pelo visto, só mesmo as flores no macacão de Button podem ameaçar o piloto de Heppenheim. E se funcionar, o risco é ver o campeão do mundo de 2009 plantar uma roseira no cockpit de seu carro…

Dois tricampeões = muitas risadas

Se ontem havia nada menos que 21 títulos mundiais de Fórmula 1 passeando por Interlagos, a conta subiu para 24 com a chegada de Andreas Nikolaus Lauda. Com o inconfundível boné vermelho (só muda o patrocinador), o austríaco logo encontrou um canto ao lado do escritório da Red Bull para bater papo com outro tricampeão, Nelson Piquet. Eis que de repente surge um livro com fotos históricas da categoria para os dois autografarem O brasileiro vê a foto do amigo e antigo adversário antes do acidente de Nurburgring’1976 e logo brinca: “puxa, mas até que você era simpático”. Em seguida, faz cara de espanto ao ver o mesmo Lauda de 1977 e 1984, como se estivesse diante de uma assombração. Nada politicamente correto, mas mais Piquet e Lauda impossível…

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História sobre quatro rodas…

Ela está ali, parada, ao lado da entrada do paddock de Interlagos, longe dos olhares da grande maioria dos amantes da velocidade no país. Mas, domingo, por volta das 12h35, vai voltar a emitir o ronco característico do Cosworth V8 DFV, um dos mais fantásticos motores de competição já criados. E sob o comando de quem a fez brilhar nas pistas do mundo. Fruto da genialidade do sul-africano Gordon Murray, a Brabham BT49 é um concentrado de simplicidade sobre quatro rodas, e com certeza ficaria tímida se chegasse perto da Red Bull RB7 de Sebastian Vettel. O câmbio está ali, do lado direito, uma alavanca que era sinônimo de muitos calos e bolhas, especialmente em pistas como Mônaco. Não há aletas, defletores, sensores de telemetria, as linhas são limpas e harmoniosas, especialmente num tom de azul bem escuro que caracterizaria o time criado por Jack Brabham, e mantido em seguida por Bernard Charles Ecclestone, simplesmente o grande dono da brincadeira chamada F-1.

Pois foi justamente da coleção particular de Bernie que o carro saiu. Como não há mais os pneus da época, vieram os Avon, ingleses (e reza a lenda que também eles já foram propriedade do ex-vendedor de carros usados que fez fama e fortuna no circo e esbanja vitalidade do alto de suas oito décadas). Caso São Pedro resolva acompanhar a exibição, está à disposição um jogo de pneus de chuva. E uma caixa relativamente pequena guarda peças de reposição e ferramentas exigidas por esse sensacional trintão. No domingo, Nelson Piquet vai fazer quem viveu a época mergulhar no tempo sem escalas e se arrepiar. E quem não viveu vai entender como era bem mais difícil. Como a Lotus 72 conduzida ano passado por Emerson Fittipaldi, será difícil não se emocionar com a exibição, que reunirá vários dos integrantes daquele time. Sobre ela, eu falo com calma domingo. Mas não podia perder a chance de mostrar um aperitivo…

Agenda simples, mas especial…

Sim, resta apenas um campeonato mundial no automobilismo para dar fim à temporada – depois é o momento dos eventos especiais, como as 500 Milhas de Kart, o Desafio das Estrelas organizado por Felipe Massa, o Masters de Kart de Bercy (este ano disputado com modelos movidos a eletricidade) ou o Motor Show de Bolonha (esse merece um post especial). No Brasil resta apenas a rodada dupla decisiva do Brasileiro de Marcas, que começou mais tarde. Não por acaso, a agenda tradicional do fim de semana na TV é curta, mas especial. Como imaginar de forma diferente o momento de um GP do Brasil de F-1? Esqueça que o campeonato está decidido, que o trio verde e amarelo não vem tendo motivos para nos dar orgulho, que Sebastian Vettel vem destroçando recordes e aceite meu conselho: curta os treinos e as 71 voltas, como os pilotos prometem curtir cada passagem pelos 4.309m. Acredite, especialmente depois do reasfaltamento que deu fim às ondulações (ou quase), eles adoram correr por estas bandas e sentem uma emoção que Malásia, Coreia do Sul ou Abu Dhabi não proporcionam.

Sábado

11h     F-1: GP do Brasil (terceiro treino oficial)                    Sportv

14h     F-1: GP do Brasil (qualificação)                                 Globo

Domingo

14h     F-1: GP do Brasil (corrida)                                 Globo