O Sandokan de Oviedo (Coluna Sexta Marcha)

*** Como é costume, segunda-feira depois de GP, é dia de coluna impressa Sexta Marcha. Quanto mais quando a prova da véspera deu pano pra manga. O mais impressionante é a insistência de alguns numa teoria da conspiração – como se a orientação dos boxes para que Sergio Pérez lembrasse da importância do segundo lugar para um time “modesto” como a Sauber fosse uma senha para deixar Alonso vencer. Os 18 pontos do piloto de Guadalajara têm tudo para pesar muito em dólares na conta dos suíços, não pelo desconto no fornecimento de motores para 2013, mas pela posição entre os construtores mesmo. E para quem chegou ontem ao circo, um segundo lugar com um carro de meio de pelotão vale ouro. Sobre a situação de Felipe Massa, melhor não acrescentar nada ao que está no papel e se juntar àqueles que torcem para que o piloto de um dia volte a ser…

    Sandokan era um pirata que vagava pelo Mar do Sul da China no século 19. Em suas aventuras, enfrentava as ameaças britânica e holandesa e ganhou a alcunha de “Tigre da Malásia”. Não existiu de verdade, mas foi fruto da criatividade do escritor italiano Emilio Salgari. Italiano, enfrentava a ameaça britânica, Tigre da Malásia, os pontos em comum são muitos para se traçar um paralelo com o que se viu durante as 56 voltas do GP de Sepang. Trazidas para os dias atuais, e de forma ainda mais específica para o Mundial de Fórmula 1, as histórias bem poderiam ganhar as feições de um espanhol de 30 anos, dono de uma confiança que beira a arrogância, de um talento dissecado em verso e prosa e de outras qualidades capazes de fazer com que brilhe mesmo quando as circunstâncias parecem jogar contra, quando os mares estão revoltos e os adversários, não só britânicos, mas austríacos e suíços, dispõem de armas mais eficientes.

    Não era uma corrida para Fernando Alonso, muito menos para o F2012. Que até o início da temporada, do primeiro treino livre em Melbourne, era apenas um carro inovador incompreendido, mas agora confirma ser um fiasco com poucas possibilidades de remédio. Absurdamente instável, sem aderência mecânica e aerodinâmica, fraco em condições de qualificação, como o F150 Italia, mas também nas de corrida, em que o antecessor mostrava algo mais. E dono de uma janela ideal de acerto estreita (e desconhecida) o suficiente para exaltar apenas o repertório de um piloto diferenciado. A bem da verdade, o Sandokan de Oviedo deve ter um pacto com as divindades malaias, espanholas e mesmo com a madonna (a virgem, não a cantora) venerada na terra natal de sua máquina. Foi beneficiado com a chuva, estava no lugar certo na hora certa e, com toda a sua experiência, não se intimidou diante de uma ultrapassagem que parecia inevitável. E seria, caso Sergio Perez não se deixasse surpreender pelo excesso de confiança – aliás, único senão em uma corrida irrepreensível. Eu era daqueles que viam no mexicano de apenas 22 anos muito mais o peso de seus milionários patrocinadores do que um talento em potencial, mas a capacidade de poupar pneus e apostar em estratégias arriscadas com sucesso no ano passado começou a mudar minha opinião.

    Pior para o outro integrante da nau de Maranello. Será tão absurda a grita da imprensa italiana, que, como a Ferrari, esperou três longos e intermináveis anos pelo Felipe Massa de um dia? Nós, brasileiros, quando não queremos enxergar as evidências, adoramos perguntar: “por que todos os problemas se concentram no carro de fulano?” (por fulano entenda Barrichello, Massa, ou quem mais couber na descrição). Talvez seja o caso de começar a questionar: “por que fulano não tem a mesma “sorte” de beltrano”? (e substitua beltrano por Schumacher, Alonso ou Button que vale do mesmo modo). E a resposta é cristalina como talvez não sejam os mares do Sul da China. Não se trata de sorte. Quem larga quatro posições à frente está em situação bem mais favorável para se aproveitar dos problemas alheios; ganha a preferência na estratégia de pitstops e, é lógico, está geograficamente mais próximo do alto do pódio. Perder terreno para um objeto voador branco e cinza identificado (a Sauber de Perez, notadamente o carro mais rápido em Sepang) é uma coisa. Não conseguir se desvencilhar de Petrov e Ricciardo na briga pelo 15º lugar é outra bastante diferente. Difícil discordar do diretor da Autosprint, Alberto Sabbatini, tão execrado por alguns ao dizer, num editorial que Felipe parece “a sombra pálida do piloto veloz e raçudo de outros tempos”

    Aposto que hoje, na reunião habitual das segundas-feiras pós-GP em Maranello, ninguém vai se esconder do fato de que a Ferrari também é uma sombra pálida da equipe dominadora e capaz de ditar tendências. E o presidente Luca di Montezemolo não vai mudar o discurso cauteloso para afirmar que sua escuderia voltou a ser o que era. Mas resultados como o de ontem, além de ajudar o carisma de Alonso a se afirmar ainda mais no imaginário dos tifosi, servem como ponto de partida para sair de uma espiral negativa, mostrar que é possível, dar novo ânimo e perspectivas a um trabalho que ainda promete ser árduo. Algo de que o ex-entregador de quentinhas em Interlagos também precisava. Porque artilheiro que não faz as pazes com as redes começa a ser vaiado e acaba no banco (ou mesmo negociado, nos casos mais sérios), caso não consiga se explicar a tempo.

    Por fim, palmas para o outro grande vencedor do GP malaio, que não estava no pódio, diferentemente de Alonso, Perez e Hamilton (o terceiro sem grande mérito ou virtude, a bem da verdade). Boa parte da imprensa europeia deu mais valor do que a brasileira ao fato de Bruno Senna ter tirado a vaga de Rubens Barrichello na Williams, como se fosse crime de lesa-pátria ou fruto único e exclusivo da mala cheia de dólares. Que eu saiba, o sobrinho de Ayrton nunca prometeu ser campeão mundial ou falou mais do que seus resultados. Trabalhou e trabalha quieto, tem altos e baixos, mas mostrou que está à vontade num time que começa a ver a luz no fim do túnel. Teve problemas no enrosco da largada, contou com uma estratégia inspirada dos boxes e fez sua parte com agressividade e cautela dosadas na medida certa num domingo de chuvas, trovoadas e aderência precária em Sepang. Não quis ser Senna, e foi Bruno, conseguindo muito. A continuar assim e não seria absurdo começar a conjecturar um casamento que não chegou a tempo para o tio: o do capacete verde e amarelo com o vermelho de um certo cavalinho empinado…

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