A estrada de Abbey (Coluna Sexta Marcha)

Aí está a coluna Sexta Marcha, tal e qual publicada na edição desta segunda-feira do Estado de Minas, falando, como não podia deixar de ser, do GP do Barein. Não há muito a acrescentar, já que o texto fala por si só, a não ser reafirmar que manter a corrida acabou se mostrando a decisão correta…

A estrada de Abbey

Começo com uma pergunta, com um quê de constatação, válida para calar boa parte dos argumentos contrários ao GP do Barein: em meio a um contexto político ainda mais dramático e sangrento em países como o Egito, a Líbia e mais recentemente a Síria, alguém daria atenção às reivindicações e à mobilização da maioria xiita por reformas no emirado não fosse por conta da celeuma em torno da presença da Fórmula 1? A resposta é simples: não. Por mais séria que seja a situação, por mais que os dois lados passem às vezes das medidas, e aí entram os confrontos, as bombas de gás lacrimogêneo e as cenas lamentáveis há muito tempo mostradas, o que se passa no pequeno país que se tornou independente do Império Britânico em 1970 só deixou de ser pé de página na imprensa de todo o mundo quando a principal categoria do automobilismo questionou sua presença no arquipélago da terra “entre dois mares”.

E neste aspecto, qualquer que seja a opinião ou a postura política diante das divergências internas, é de se aplaudir a postura de todos os lados envolvidos. A monarquia sunita da família Al-Khalifa teve coragem ao abrir as portas para os jornalistas de todo o mundo – bem verdade que um repórter do italiano La Stampa teve o visto inicialmente negado por ter entrevistado um líder dos movimentos de oposição, o que exigiu a interferência da FIA, diferentemente do governo sírio, que tenta vender ao mundo uma impressão de normalidade sem permitir que o resto do globo saiba exatamente a extensão dos confrontos. Os relatos vindos do emirado revelam que bastava sair das vias principais, procurar um pouco, para registrar os protestos, em sua grande maioria pacíficos. Os sunitas também optaram por manter a linha moderada, não foram adiante em seus propósitos de transformar a presença do circo nos “dias de raiva”.

E que corrida teriam perdido os amantes do esporte caso a intolerância e a selvageria prevalecessem – é bom que se ressalte, o importante não é que apenas aqueles ligados à prova tenham tido dias tranquilos em solo barenita, mas que nada mais sério tenha ocorrido com os cidadãos do emirado. As 57 voltas pelo arenoso asfalto de Sakhir trouxeram o quarto vencedor do ano, reafirmaram tudo aquilo que a pré-temporada fazia supor (que nenhum time dominaria como a Red Bull em 2011) e ampliaram o time das escuderias que lutam pelo prêmio de personagem principal e não se contentam com o papel de coadjuvantes. A Lotus prometia muito desde as primeiras voltas do E20, iniciou o ano com um terceiro lugar de Romain Grosjean no grid em Melbourne e acabou monopolizando dois terços do pódio ontem. Raikkonen pode ser monossilábico, sem sal, mas, uma vez dentro do carro, ainda é um piloto diferenciado. E o francês mostrou como uma segunda chance, se vinda na hora certa, pode dar asas.

A perda de aderência com o fim do difusor explodido obrigou as equipes a tirar carga aerodinâmica também da dianteira, o que explica o comportamento mais nervoso dos carros. A Pirelli, como prometido, embaralhou as cartas ao aproximar o desempenho dos compostos de pneus, e as condições únicas da pista se encarregaram do resto. Assim, até dá para elogiar os circuitos “by Hermann Tilke”: as curvas de raio amplo depois das fortes freadas não perdoam. Basta frear um centímetro mais tarde e a reaceleração é comprometida, e quem estava atrás passa de passagem. Algumas defesas de posição, aliás, foram além do limite da correção e da ética das pistas.

Felipe Massa finalmente fez o que se esperava dele diante das circunstâncias, mas continua sofrendo com os pneus mais do que Alonso. A McLaren ajudou Hamilton a sair da briga e foi a vez de a Force India dar seu grito de independência. Como foi, nem há o que reclamar da vitória cristalina (e nem por isso fácil) de Sebastian Vettel. O alemão é o primeiro a saber que Abbey (o nome escolhido para sua RB8), numa referência direta ao estúdio dos Beatles, terá uma estrada bem mais complicada que a antecessora Kinky Kylie. A F-1 sai do Barein. Mas que o que ocorre no emirado não saia das mentes e corações de todos, uma vez que a cortina do circo caiu.

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