Enfim, a pista do Mineirão…

*** Peço desculpas pela demora na publicação online da matéria que recupera a história das corridas em torno do Mineirão, mas o importante é que quem não pôde vê-la no jornal tenha uma ideia do que foram estes três anos e cinco corridas que fizeram história e deixam saudades, mesmo para quem não viveu o período. Em seguida vai a reprodução da página, com imagens da época…

Estádio novo,

circuito

inesquecível

O Gigante da Pampulha, que hoje reabre as portas totalmente reformulado para receber a Copa das Confederações do ano que vem e a Copa do Mundo de 2014, já foi sinônimo de outro barulho que o das torcidas comemorando títulos ou gols históricos. Nos tempos românticos do esporte, quando a preocupação com a segurança em provas automobilísticas era bem menor, as largas avenidas em torno do Mineirão se transformaram em autódromo e foram palco de cinco provas entre 1969 e 1972 que reuniram a nata das pistas da época e ajudaram a formar campeões.

Basta dizer que houve grids com quatro pilotos que já estavam ou passariam pela F-1: Emerson Fittipaldi, seu irmão Wilsinho, Luiz Pereira Bueno e Alex Dias Ribeiro. E no melhor espírito da modalidade na época, protótipos como os lendários Porsche 908, Lola T210 e esportivos como as Alfas GTA e BMW mediam forças de forma democrática com Opalas, Simcas, Fuscas, DKWs, Gordinis e realizações artesanais como o Fitti-Porsche, de Emerson e Wilsinho; o Patinho Feio, da oficina brasiliense Camber, AC, Avallone, Lorena ou o saudoso Puma. Época em que homens e máquinas eram igualmente idolatrados e acompanhados por uma multidão que se espalhava pelas encostas gramadas ou próximo aos meios-fios, indiferente ao risco. Nada de áreas de escape ou barreiras de pneus.

O traçado contava com 2.570m de extensão e aproveitava trechos da Avenida Catalão, da Avenida C e da Avenida Cel. Oscar Paschoal, com uma chicane em frente à entrada do hall principal do estádio. Se alguém pode falar com propriedade e grandes lembranças da pista é Toninho da Matta, campeão de três das cinco corridas com o Opala 21, que se tornou lendário, preparado com a ajuda de Chico Landi, primeiro brasileiro a disputar um GP na F-1.

“ A gente era feliz e não sabia. Imagina só, corrida de carro em Belo Horizonte no fim dos anos 1960? Era um tal de andar perto de poste, árvore, meio-fio, com o povão separado só por uma corda. Foi ali que eu aprendi, desde os tempos do kart. E era uma improvisação total. Cheguei a correr de mocassim, tinha gente que andava de calça jeans. E não havia regulamento: quem podia mais chorava menos. Com 20 anos não pensávamos no risco, apenas em acelerar. Nem dinheiro se ganhava. Mas claro que me orgulhou muito vencer pilotos tão experientes. O Emerson já era o Emerson quando eu comecei”, lembra.

O homem havia pisado na lua pouco mais de um mês antes quando 30 carros alinharam para as 100 Milhas da Independência, diante de um público estimado em 100 mil pessoas. Toninho recebeu a bandeirada com duas voltas de vantagem para Martius Jarjour, com Ronaldo Augusto Ferreira completando o pódio.

Os motores voltariam a roncar em janeiro do ano seguinte, num fim de semana que marcaria a única fatalidade envolvendo o circuito, mesmo assim fora da programação dos 500km de Belo Horizonte. Um dos mais talentosos pilotos de sua geração, Marcelo Campos quis testar seu Puma no traçado, então aberto ao tráfego, na véspera do evento. Acabou se chocando com uma caminhonete e não resistiu aos ferimentos. A prova foi mantida em sua homenagem e o circuito ganhou seu nome – Toninho e o primo Ivaldo foram os vencedores, deixando para trás Wilsinho (Fitti-Porsche) e Emerson Fittipaldi (Corcel), com problemas mecânicos, e Luiz Pereira Bueno (Bino Mark II).

Toninho revela detalhes daquela prova que ilustram bem o romantismo daqueles tempos. “Fomos melhorando o Opala aos poucos, ‘seu’ Chico preparou o carro e depois o Emerson e o Wilsinho me ajudaram a deixá-lo ainda mais rápido. Arrancamos as portas originais, tiramos todo o peso, mandamos fazer coletores de aço inox sob medida, montamos um eixo traseiro de picape e pneus Firestone de F-Indy. Trouxe o carro de BH a São Paulo dirigindo, com o Ricardo Divila (que seria projetista da Copersucar e da Ligier). Na corrida, o Ivaldo entrou nos boxes dizendo que os freios estavam com problema. ‘Seu’ Chico não pestanejou, me colocou no carro e isolou o circuito do freio traseiro. Guiei por mais de uma hora só com os freios dianteiros e ainda conseguimos vencer.”

A última

Clóvis Ferreira, o “Clovinho Banana”, dominou a segunda edição das 100 Milhas da Independência, em setembro de 1971. Os 200km Brasileiros, em agosto de 1972, entrariam para a história não apenas pela vitória de Tite Catapani, com uma Lola, mas especialmente por marcar o fim de uma era. Com a inauguração de circuitos permanentes como os de Brasília, Tarumã, Curitiba, Jacarepaguá e Goiânia, o apogeu de Interlagos e o crescimento das metrópoles, as provas de rua perderam espaço e passaram a povoar o imaginário dos fãs da velocidade, em meio a raras filmagens em Super-8 ou fotos em preto e branco.

Numa era em que as modernas arenas são capazes de receber circuitos em seu interior – a Arena de Munique recebe uma etapa festiva do DTM, o Alemão de Turismo; Wembley e o Stade de France sediaram a Corrida dos Campeões, fica a torcida para que o novo Mineirão resgate, de alguma forma, os laços com as quatro rodas.

Linha do tempo

1967         

Começam

as provas

de kart

Agosto de 1969

30 carros participam

das “100 Milhas da Independência”.

Vitória de Toninho da Matta

Janeiro de 1970

Diante de 150 mil pessoas, Toninho e

o primo Ivaldo vencem

os “500km de Belo Horizonte”

Setembro de 1970

É a vez da prova “1h de BH”. Toninho

recebe a bandeirada novamente na frente, com o Opala 21

Setembro de 1971

Segunda edição das 100 Milhas, com

vitória de Clóvis Ferreira, com um AC

Agosto de 1972

Os 200km Brasileiros, vencidos por Tite Catapani, são a última prova de rua do país no período. Os circuitos provisórios só voltariam a ser usados na década de 1980

Década de 1980

Provas de kart no estacionamento do estádio são suspensas, por solicitação da Faculdade de Veterinária da UFMG (o barulho estaria atrapalhando experiências com cobaias)

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s