Um vencedor, muitos insatisfeitos (Coluna Sexta Marcha)

Aqui está a coluna sobre o turbulento GP da Malásia de domingo, capaz de confundir a cabeça do telespectador depois de mostrar um belo espetáculo na pista. Além do que escrevi ontem e está nas páginas do Estado de Minas, só posso acrescentar que nem Sebastian Vettel é perfeito, apesar de ter feito tudo certo até então. Não há justificativa ou desculpa que salve a pele do tricampeão diante de um cenário tão claro. E concordo com Mark Webber: ele não pediu a ninguém, foi a equipe quem ordenou que as posições fossem mantidas. E aí, lógico, diminuiu o ritmo, preocupou-se em poupar motor e câmbio. E tem todo o motivo para irritação. O clima na China promete estar pesado…

    “Fica decretado, a partir desta data, o fim da hipocrisia no Mundial de F-1. Ordens de equipe sempre houve, e haverá, e nenhuma escuderia tem autoridade moral para comentar comportamentos alheios”.

    Está aí uma boa sugestão de parágrafo para o regulamento esportivo do Mundial depois do que se viu nas 56 voltas do GP da Malásia. Que serviram, acima de tudo, para calar aqueles que bradavam contra os comportamentos recentes e menos recentes da Ferrari, como se a escuderia de Maranello fosse a única a fazer escolhas que, para azar dos brasileiros, sempre envolviam um representante verde e amarelo, na maioria das vezes, como vítima (em 2008 Kimi Raikkonen trabalhou como fiel escudeiro quando necessário e teria seu mérito num título de Felipe Massa que escapou por muito pouco).

    Pena que as conversas pelo rádio, as expressões pesadas e o clima carregado (menos até no céu do que no chão) tenham marcado o que, na pista, foi um espetáculo para Bernie Ecclestone nenhum botar defeito. Aliás, o manda-chuva do circo – o termo é proposital, já que se ele fosse capaz, daria um jeito de despejar muita água no asfalto e seu sonho era contar com a ajuda de nuvens carregadas a cada parada do calendário –, viu que nem é preciso tanto. Basta alguns caminhões-pipa antes da largada só para criar um pouco de dúvida. Do jeito que a corrida começou, havia não uma, mas várias trajetórias possíveis, e o que não era ponto de ultrapassagem (caso da característica Curva 1) acabou se transformando.

    Nesse aspecto, não há o que reclamar. Hulkenberg, Perez, Massa, Raikkonen, Grosjean, Rosberg, Hamilton e, é claro, Webber e Vettel trabalharam muito, ousaram e mostraram que é possível ficar a milímetros de distância sem passar do limite. Coisa que um Fernando Alonso travestido de principiante não conseguiu. A equipe pode tê-lo chamado depois do correto, mas o erro de avaliação que levou ao toque nos primeiros metros tem nome e sobrenome, e o abandono vai para a conta do espanhol. E vai pesar na luta pelos títulos tanto quanto as corridas incolores de seu companheiro de equipe na primeira metade do ano passado. Massa, é bom que se diga, foi cauteloso até demais nos primeiros metros e acabou condicionando qualquer chance de pódio, mas salvou um quinto lugar importante na economia do campeonato, sem contar que novamente foi o mais rápido com os carros vermelhos.

    Mas voltando ao começo da coluna, ficou claro como a liberdade de estratégia e de disputa entre os companheiros é limitada. Se o “Map 21” a que Webber fez alusão é realmente uma ordem para manter posições e evitar a briga direta (e é), então não é exagero dizer que a insistência de Sebastian Vettel lembra a de um certo Didier Pironi, no GP de San Marino’1982 – a ordem dos boxes da Ferrari era congelar as posições nas voltas finais e o francês surpreendeu Gilles Villeneuve, que não teve tempo para reagir. Consequência ou não, o canadense perderia a vida dias depois, nos treinos para o GP da Bélgica, quando queria deixar claro quem era o mais rápido no time.

    O australiano vendeu caro a posição, resistiu o quanto pôde, mas a diferença de pneus e estratégias na Red Bull acabou aniquilando suas chances. E no fundo tem razão ao se queixar, tal qual fez na Inglaterra em 2010, quando bateu o alemão sem a nova asa dianteira usada pelo parceiro e desafogou toda a mágoa numa ironia devastadora. “Nada mau para um número 2”. Ele sabe que, se as posições estivessem invertidas e Vettel fosse o superado, seria crucificado na sede de Milton Keynes. Como não foi o caso (e ninguém duvida da preferência no time do touro vermelho), ficou apenas com as caras feias. Já Ross Brawn não é novo neste tipo de artimanha. Se Rosberg soube economizar mais combustível ou se beneficiar das condições de corrida, merecia toda a chance de atacar o companheiro, não ouvir um “Hamilton está andando neste ritmo porque eu pedi, permaneça onde está”.

    O cachorro e o rabo

    As desventuras de Force India e McLaren nos pitstops mostram como a obsessão por centésimos de segundo pode ter um lado perverso. Gasta-se tempo e dinheiro tentando desenvolver sistemas que economizem tempo nas paradas para se ver cenas como a dos boxes de Sepang. As rodas hoje são presas por uma grande porca solidária à roda que serve para ser usada apenas uma vez. Quando ocorre alguma dilatação acima da média ou o procedimento é mal executado, dá no que deu. E fica como a história do cachorro que sempre gira em círculos tentando morder o próprio rabo.

    Ops, box errado

    “Eu fiz como Jenson (Button) quando foi para a McLaren e também errou. Passei tanto tempo lá que me acostumei e acabei me distraindo. Peço desculpas à Mercedes”

    Lewis Hamilton, protagonista do momento pastelão do GP

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