Pelotão do apetite (Coluna Sexta Marcha – GP do Barein)

*** A imprensa italiana, sempre ela (e o pior é que quem diz é talvez o mais brasileiro dos jornalistas especializados em automobilismo da terra da bota) já começa a pôr em dúvida as razões dos furos de pneus em série de Felipe Massa (e a coluna abaixo, publicada hoje, no Estado de Minas, levanta hipóteses), e tenta jogar o problema na conta do brasileiro. Questiona-se também o produto da Pirelli, já que Lewis Hamilton teve problema semelhante nos treinos, mas o piloto da Ferrari 4 fica no meio da linha de fogo por não ter conseguido concretizar a estratégia de permanecer mais tempo na pista com os pneus duros com que largou. E lembra que Kimi Raikkonen, com aposta semelhante, terminou no pódio. Enfim…

Pelotão do apetite

Mandei meu lado chato passear, e bem longe do “reino entre dois mares”, que é o que significa o Barein em bom português. Não a ponto de dizer que os protestos internos e a divisão entre xiitas (maioria) e sunitas (a minoria que detém o poder) é algo pouco importante que mereça ser varrido para baixo do tapete no intervalo de um fim de semana. Mas sim para esquecer as arquibancadas vazias, o fato de que falta calor humano (enquanto sobra nos termômetros) e que estamos no meio de um deserto em que o que há de sobra é “apenas” petróleo e o dinheiro que dele jorra. E que decididamente o esporte não vai pegar no estado insular de 750 quilômetros quadrados, a não ser que se importe também a torcida.

Nunca é demais lembrar que o espetáculo hoje é para a TV; que Bernie Ecclestone prefere ver bolsos cheios a tribunas repletas, e que felizmente ainda há muitas paradas ao longo do ano em que gente haverá, e saindo pelo ladrão, apesar de os ingressos não serem exatamente populares. Gente que deve ter ficado ainda mais tentada a investir as economias para ir a Barcelona, Spa, Monza, Montreal, Austin ou Interlagos depois do que se viu ontem em Sakhir.

Pode ser a areia trazida constantemente pelo vento, pode ser o comportamento dos pneus, pode ser a conformação da pista, mas há muito não havia tanto apetite numa categoria em que, não faz muito tempo, pilotos e equipes eram acusados de se contentar com pouco, de preferir administrar a atacar, tentar que fosse. Pois os últimos campeonatos mostraram que cada ponto pode ser tão precioso, e havia tanta gente precisando mostrar serviço que o GP foi daqueles de colocar numa moldura. Nem tanto pelo número de ultrapassagens, mas pela forma como elas se deram.

Lógico que o DRS ajudou muito, mas o mais bacana foi ver as disputas nas freadas, como se vendeu caro as posições e como os pilotos desfilaram todo o seu repertório de manobras: dribles, mover o carro para um lado para tentar pelo outro; alargar a trajetória ao máximo até deixar o rival sem opção, não se importar em pôr o carro na sujeira ou fora dos limites do asfalto em busca de um pontinho suado que fosse. E daí que Sebastian Vettel tenha sido clinicamente perfeito, e daí que não tenha sido o fim de semana da Ferrari (vai acontecer com todo mundo), e daí que quem prometia muito muitas vezes entregou pouco. Hamilton e Alonso podem não ter ficado satisfeitos mas, com o tempo, verão que o que salvaram ontem pode ter muito peso na economia do campeonato, lá na frente. Sobre Felipe Massa eu falo abaixo, e só é pena que no início da fase europeia, em Barcelona, dificilmente se verá espetáculo igual. A não ser que saia a areia e entre a chuva.

Fim de sequência

Não há cristão, muçulmano, hindu, budista ou ateu que seja capaz de fazer mais do que Massa fez com dois pneus traseiros furados. A essa altura, parece ser menos coincidência e mais escolha equivocada de regulagem da suspensão traseira (cambagem, que é o ângulo do pneu em relação ao asfalto), ainda que a Ferrari desminta. Diante do que fez Alonso, a perda até foi pequena. Pena foi chegar ao fim a sequência de 13 corridas consecutivas nos pontos.

Sempre a Lotus

Desde que Kimi Raikkonen pediu “delicadamente” à Lotus que o deixasse fazer o que sabe em Abu Dhabi, ano passado (aliás, o japonês que era seu engenheiro preferiu trabalhar com Romain Grosjean), a equipe não perde a chance de descontar no finlandês. Ainda na sexta-feira, quando ele se queixava do comportamento dos pneus (e tinha sido o mais rápido do dia), a resposta veio pelas redes sociais, com um hashtag (#) shutupanddrive. Ou, “cale a boca e dirija”. A descontração de parte a parte está dando resultado…

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