Rush, a resenha…

Para que o leitor entenda, este é o texto da crítica publicada no caderno Divirta-se, do Estado de Minas – tive o privilégio de assistir a pré-estreia de Rush, no limite da emoção. E fiz questão de manter inclusive o conceito publicado na edição impressa, embora me arrependa de ter sido, digamos, “econômico”. Todo mundo que vê e comenta volta maravilhado com o sucesso da obra e um dos sites mais respeitados sobre a sétima arte aumentou sua nota para 8,4 (em 10). Também me convenci de que vale uma quarta estrela…

O automobilismo sempre foi fonte de boas histórias para as telas mas, depois de clássicos como Grand Prix, de John Frankenheimer; Le Mans, de Lee Katzin (com Steve McQueen) e Winning, que iniciou uma história de amor entre Paul Newman e as pistas, os dois pareciam ter rompido relações. Bobagens como Dias de Trovão ou Driven só fizeram o apaixonado pela velocidade torcer o nariz para qualquer projeto que ameaçasse dar as caras nos cinemas. O documentario Senna, de Asif Kapadia, foi um primeiro passo na direção oposta.

Pois Ron Howard não escolheu o caminho mais simples – diferentemente dos antecessores ilustres, optou por contar uma história verídica e mergulhar no passado. Num dos duelos mais marcantes da história da F-1, certamente não o maior, mas o mais dramático. E o mínimo que se pode dizer é que o espectador, seja fã de carteirinha das máquinas ou não, não vai se decepcionar ao longo das duas horas e três minutos de filme.

Porque Howard entendeu o essencial: a disputa pelo título mundial de 1976 é uma história de homens, mais que de máquinas. Cenas de pista há, e muitas, e a reconstituição da época beira a perfeição – alguns patrocinadores em versão 2013 e a insistência no uso de pistas inglesas para reproduzir Paul Ricard ou Interlagos (aliás, a prova brasileira érevivida em flashes com direito ao “Ê baiana”, de Clara Nunes, numa caracterização nada exagerada) – são os únicos senãos. Efeitos especiais também há, mas usados com moderação, numa preocupação clara em não distorcer o espírito da época. E o uso das cenas reais ajuda a aumentar a veracidade da trama.

O diretor mostra que soube beber da fonte: a “la Frankenheimer”, opta por cortes rápidos, imagens distorcidas e tremidas, nada da assepsia das transmissões atuais dos GPs. As informações de cada corrida, os resultados, a classificação aparecem em caracteres imensos, com um quê de psicodelia, a trilha sonora se vale de algumas preciosidades da época – Jimmy Cliff com seu “Many rivers to cross” ambienta a cena de um dos porres monumentais de James Hunt, ao saber que havia perdido o volante na Hesketh no fim de 1975. A câmera passeia pelos escapamentos, invade os motores, se fecha nos pedais ou no painel, compõe o todo a partir dos detalhes. E o subir e descer das válvulas do V8 Cosworth é uma referência nada discreta às travessuras sexuais do inglês.

Que, aliás, é interpretado de forma mais que correta por Chris Hemsworth. O Thor de Os Vingadores não teve a chance de conviver com o Hunt “de verdade” (morreu em 1993), mas encarnou à perfeição o estilo playboy do piloto cuja maior preocupação era se divertir, dentro ou fora das pistas, num carrossel de bebida, drogas, mulheres e adrenalina. Daniel Brühl, por sua vez, conseguiu vencer seu grande desafio: interpretar uma lenda das pistas, mais viva do que nunca, sem exagerar nas tintas. Os meses de convivência e observação deram ao espanhol, de Bastardos Inglórios, um gestual e um sotaque perfeitos, aprovados pelo interpretado. E pouco importa que o desfecho da disputa seja mais do que conhecido. Rush mostra que o grande barato é a dicotomia entre inconsequência e rigor; irresponsabilidade e disciplina. E como caminhos tão diferentes levam os protagonistas a duelar até o fim.

Rush – no limite da emoção

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