Ode a um tetra, mas não só a ele…

Pilotos não precisam ser simpáticos, humildes, disponíveis, sorridentes, muito menos encarar o que fazem como a concretização do sonho de criança, de quando, em muitos casos, não tinham o devido suporte, ou eram apenas alguns numa multidão, sempre com mais candidatos do que vagas a cada novo degrau da escada rumo ao topo. Podem até ser vistos como pouco carismáticos, sem personalidade, isso quando não se perdem no discurso vazio e incapaz de discutir polêmicas, ou fazem de tudo para esconder as emoções.

Imagine então alguém que, além de ser tudo isso, se especializou em estragar a festa e os sonhos dos outros simplesmente vivendo os seus. Que continua, e não apenas por marketing, a achar que chegou mais longe do que poderia um dia imaginar e, por isso, curte cada pole, cada volta mais rápida, e cada vitória. E se a medida do talento de um piloto e um time pode ser dada pelo nível dos adversários, aí é que a conversa fica séria. Bater Alonso, Räikkönen, Hamilton e Button, só para ficar nos campeões, é coisa de gente absurdamente grande.

Que poderia perder a paciência a cada nova insinuação de que seu carro tem algo fora das regras, um controle de tração, por exemplo. Mas que responde com um bom humor inabalável. “Sim, nós temos um dispositivo secreto, e ele vai ficar melhor a cada GP”. Tudo indica que a genialidade de Adrian Newey e a competência da Renault fizeram o V8 francês trabalhar com a metade dos cilindros nas curvas de média e baixa velocidade, para reduzir o torque e o patinamento das rodas, mas até aí, é algo que não foi contestado por qualquer adversário.

Por essas e por outras é que tem mesmo que tirar o chapéu – e olha que já são quatro diferentes – para Sebastian Vettel. “Não sabe o que é correr num time pequeno”? E a Toro Rosso 2008? “Não sabe largar do fundo e recuperar posições?” E Interlagos 2012, quando saiu do fundo do grid com a Red Bull danificada na lateral esquerda? Tem o melhor carro? Volto a questionar: que campeão mundial nos últimos anos carregou a máquina nas costas? Pode até ficar chato um só vencedor; o campeonato decidido três corridas antes do fim, mas o moleque de Heppenheim não tem a menor culpa. E se hoje ele é mimado, recebe atenção especial da equipe, nada mais justo, pois paga com juros e correção tudo o que foi apostado desde os tempos do kart, quando o filho do carpinteiro suava para tentar ir mais longe, e encontrou no touro vermelho quem acreditasse em seu potencial.

E olha que começa a ficar complicado pensar em mudanças no panorama mesmo ano que vem, quando os V6 turbo passam a equipar as máquinas do circo. Se há alguém com tecnologia em motores sobrealimentados é a marca francesa, e Newey já cansou de dizer que prefere os momentos em que as regras trazem novos desafios. Vai mudar praticamente tudo em 2014 mas, se a confiabilidade mecânica do carro 1 prosseguir, vai ser difícil impedir o penta, os recordes quebrados, a perda de brilho de um certo Michael Schumacher junto aos compatriotas. Vettel continuará sorrindo, festejando, com o olhar de criança – se o leitor não chegou a acompanhar em 2011, meu filho, Guilherme, ganhou autógrafo com dedicatória especial de alguém que teve a paciência de me pedir: “soletra o nome dele por favor”. O que, a esta altura, virou troféu, lenda. Dizem que jornalista não deve torcer, e eu concordo. Mas o mínimo que eu posso dizer é que o tetracampeonato é mais do que justo e merecido e está nas devidas mãos. Bom para o esporte, que ganha uma oxigenada com um campeão de carne e osso, ruim apenas para quem sonha superá-lo… Vettel über alles…

Outros dois

Mesmo com tamanha conquista do piloto da Red Bull, não dá para ignorar duas outras façanhas do fim de semana, que quase poderiam passar despercebidas. Robert Kubica, no ano (integral) de seu retorno às competições depois do grave acidente em 2011, sagrou-se campeão mundial na categoria WRC2 (carros 4×4 turbo 2.000cc derivados de produção, os antigos Grupo N), com um Citroën DS3. Olha que o polonês nunca havia, até o começo da temporada, feito um treino sequer numa estrada de terra, e foi tão bom nelas quanto se mostrou no asfalto. Passou algumas vezes do limite, é verdade, mas virou nome cobiçado no WRC, capaz de fazer muito mais que um certo Kimi Räikkönen, que também andou um bocado.

E em Paul Ricard, Fabien Barthez sagrou-se campeão francês de GT. Sim, o carequinha goleiro da seleção que sapecou os 3 a 0 no Brasil na final da Copa de 1998 se transformou em bem mais que um simples gentleman driver. Andou rápido com a Ferrari 458 GT3 da equipe Sofrev ASP ao lado de Morgan Moulin-Traffort e leva mais um troféu para casa. É sempre legal quando uma personalidade de outra área resolve se aventurar no automobilismo e faz bonito. Diferentemente daquela decisão desgraçadamente triste (para nós), desta vez tem mais é que bater palmas e destacar a façanha…

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