Sobre Schumacher e a vida, parte II

Chega a ser assustadora a forma pela qual boa parte da imprensa (até menos a brasileira que a da Europa) acompanha o acidente grave de Michael Schumacher. É impressionante como em meio a informações relevantes e corretas têm sido publicadas bobagens de todos os gêneros – e eu nem falo aqui de um imbecil – é o mínimo que se pode dizer de alguém assim – que tentou invadir a ala onde o heptacampeão está internado, no CHU de Grenoble, certamente em busca de uma imagem, já que entrevista, diante da situação, certamente não conseguiria.

O esporte da moda agora é chamar o alemão de viciado em adrenalina, como se esquiar fosse algo tão radical assim. Pelo que me consta, o que não falta, onde há neve, são profissionais das mais diversas áreas em busca de diversão (e deve ser realmente divertido) com alguma técnica e toda a parafernália de proteção. Schumacher não é daqueles doidos que despencam a quase 200 km/h nas etapas da Copa do Mundo de Slalom Gigante, esses sim malucos de pedra. Tanto assim que, tudo indica, estava com um grupo de amigos, próximo de seu chalé em Méribel, destino de várias temporadas sem qualquer incidente.

E que diferença faz, sinceramente, se ele vinha a 60 km/h ou a 100 km/h, se parou para ajudar uma criança, um adulto, ou apenas descia normalmente? “Puxa, mas ele estava fora das pistas demarcadas, com certeza buscando emoção extra…” Sinceramente, não parece ser o caso. Estava a pouco mais de 10 metros dos locais adequados, é verdade, mas as pedras na região estão tão visíveis que não dá para falar em irresponsabilidade, e sim em fatalidade. E quando ele retornou às pistas, em 2010, poucos se levantaram para dizer que faria melhor se ficasse em casa vendo TV. Voltou, pode não ter sido brilhante, mas não se machucou. O mais impressionante é que ficamos todos achando maravilhoso quando um senhor ou senhora de seus 80, 90 anos, salta de paraquedas, escala montanhas, completa maratonas, e agora não falta gente criticando um homem de 45 anos (completados hoje), em plena forma física e dono de reflexos muito melhores do que a média dos mortais que resolveu se divertir de um modo que sabe e domina, quanto mais acompanhado do filho adolescente.

Nessas horas é que me vem uma frase batida, mas totalmente verdadeira: “Para morrer, basta estar vivo”. Bob Wollek perdeu a vida enquanto pedalava nas cercanias de Sebring e acabou atropelado; Juan Manuel Fangio, que arriscou a pele bem mais, de velhice, enquanto Stirling Moss, John Surtees e Jack Brabham passam alegremente dos 80 depois de viverem uma era em que sair vivo de alguns GPs era algo a ser comemorado. Quando é que vamos deixar de ser hipócritas e procurar outras coisas para comentar? Acompanhar com atenção a evolução de Schumacher, sim. Mas ficar tentando imaginar o que houve ou tentar encontrar culpa é ridículo. Assim como criticar Lewis Hamilton e Rubens Barrichello só porque publicaram em redes sociais fotos nas pistas de esqui – que eu saiba o movimento em Méribel e em outras estações segue forte, como é o caso em qualquer inverno alpino ou norte-americano. Fosse eu mal-educado e já teria mandado muita gente encontrar uma trouxa de roupa suja pra lavar, que faria bem melhor…

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