Pobre automobilismo brasileiro, parte 23.453

Quem acompanha o blog há algum tempo sabe, além do interesse deste que vos escreve pelo rali, com o firme propósito de voltar às competições da modalidade este ano, do trabalho feito para reerguer a modalidade no país, depois de anos de uma calmaria preocupante. Havia provas, havia calendário, mas o número de participantes oscilava conforme a região – infelizmente a turma do Sul não se animava a subir para o Sudeste, e vice-versa, sem contar que o retorno de imprensa era ridículo. As montadoras que restavam (Chrevolet e Peugeot) justaram as coisas e resolveram investir em outras paragens e tínhamos um Campeonato Brasileiro (CBR) feito por entusiastas para entusiastas, sem aproveitar o imenso potencial do esporte, o único sobre quatro rodas (tiremos o kart da lista) que não depende de autódromo ou de instalação específica para ser disputado.

Das cinzas e da falta de perspectiva surgiu a Associação dos Competidores de Rali e Amigos (ACRA), com o firme propósito de dar fim às diferenças políticas, arregaçar as mangas e profissionalizar a coisa. Contatado (e contratado) um promotor, conseguiu-se horário em TV aberta para mostrar um resumo de cada etapa (programas assistidos por mais de 5 milhões de pessoas); grids de quase ou mais de 40 carros por prova (em algumas havia 10 máquinas 4×4, as principais do espetáculo), e o trabalho conjunto de divulgação de imprensa rendeu um retorno de mídia raras vezes visto. E ainda havia a cessão de transporte dos carros (um dos grandes dramas de quem não tem carretas imensas ou motor-homes gigantescos) por preços subsidiados.

Pois em time que está ganhando não se mexe, certo? Infelizmente, no caso do Brasileiro de Rali, errado. O ano nem sequer tinha terminado e começou uma guerra de bastidores, em que cada um voltou a puxar a sardinha para o seu lado. Como a coisa era mal explicada, começou-se a pensar que havia boicote a este ou aquele rali, que os custos explodiriam, que não haveria patrocinadores – um problema eminentemente político. Por não haver, dos eventuais patrocinadores, interesse em manter o apoio ao Rally de Erechim, ele deixaria de valer pelo Brasileiro, embora continuasse como etapa do Sul-Americano e do Gaúcho, o que por si só já proporcionaria o grid de 80 carros ou mais. Cansado de tanta indefinição, o promotor jogou a toalha e não pretende renovar o contrato…

E qualquer esporte que pretende ser profissional deveria ter o calendário (ainda que provisório) e os regulamentos técnico e desportivo publicados já em 2013, para aumentar a credibilidade e permitir acordo com patrocinadores. Ou mesmo para garantir a permanência na TV, que tem um custo, embora se pague inúmeras vezes. Pois apenas semana passada surgiu um arremedo de calendário, com quatro etapas certas (duas em Santa Catarina e duas no Paraná), duas sem local definido e, por enquanto, Rio Grande do Sul, Minas e São Paulo de fora. A saudável troca de e-mails que funcionava ano passado voltou a ser substituída por reuniões obscuras de uma meia-dúzia que acaba decidindo e passando por cima do desejo da maioria. Com os regionais fortes – paulistas e gaúchos mantêm os seus, os paranaenses vão criar um e o de Minas, podem anotar, tem boa chance de retornar, quero ver como será possível juntar os 40 carros do ano passado. Tenho acompanhado várias duplas confirmando que, se for desse jeito, largam o campeonato e vão andar noutro lugar.

Triste, muito triste fazer como a vaca holandesa, que deu 80 litros de leite e depois estragou tudo ao dar o coice no balde. E ainda tem quem diga que a situação do automobilismo brasileiro é ótima. Onde?

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