Sons e silêncios – Coluna Sexta Marcha (GP da Malásia)

Só para contextualizar, a coluna foi escrita pouco depois da corrida, ainda no calor dos fatos, e antes que a polêmica interna na Williams ganhasse repercussão, com críticas, justificativas e opiniões de quem não viu motivo para tanto. Foi assim que saiu no Estado de Minas de hoje e ainda parece o que eu poderia dizer de melhor sobre o incidente…

“Felipe, Valtteri is faster than you. Don’t hold him up”. Basta trocar um dos personagens da frase e a lembrança vem aterradora. GP da Alemanha de 2010 e, para muitos (eu entre eles), o que foi o último fim de semana de brilho de Felipe Massa pela Ferrari. Não era simplesmente uma comunicação via rádio, uma das várias informações repassadas ao longo de uma corrida, e teve certamente efeito psicológico infinitamente pior do que o peso de uma mola no capacete e todo o delicado período dali em diante – para quem acredita que o início da curva descendente se deu quase um ano antes, no grave acidente em Hungaroring.

E basta pensar que o autor da frase ontem cumpria o papel de sujeito oculto – estava lá, na mureta dos boxes em Sepang com uniforme da Williams – para que se tornasse tentador pensar mais uma vez em teorias da conspiração. Seria Rob Smedley um arauto do mal disfarçado de engenheiro competente e acessível? E que diferença há se o som desta vez trouxe um sotaque irlandês e as palavras foram pronunciadas não por Smedley, mas por Andrew Murdoch, o novo… Smedley do brasileiro?

Confesso que, na luta para continuar acordado me peguei pensando no Cléber Machado e a já folclórica narração de outro GP nada agradável de recordar. “Hoje não, hoje não… Hoje sim…”. E, mania de jornalista, já começava a me indignar por conta, a imaginar um texto malcriado dizendo que, no fundo, todas as escuderias são Ferraris e, quando não há um alemão ou espanhol para atazanar, tem um finlandês no meio do caminho. Jogo de equipe no segundo GP da temporada? Não, hoje (ou ontem) não.

Seria o caso de analisar com calma a mensagem enviada ao nativo de Nastola do outro lado da linha: “você está mais rápido do que Felipe, vá ultrapassá-lo”. Uma exortação, não um tapete vermelho estendido. Traduzindo em bom português: “se você se aproximar o suficiente e se colocar em condição de ultrapassagem, Felipe está orientado para não fazer bobagem (como se ainda precisasse de orientação a esta altura)”. Porque, como diria Galvão Bueno, “chegar é uma coisa, amigo, passar é outra…”. E nós, eu e você, sabemos quem, da dupla, estaria mais inclinado a pôr tudo a perder com uma manobra camicase. Não, não Kamui Kobayashi, mas o compatriota de Kimi Räikkönen, que entrou para a história como primeiro piloto da F-1 a perder pontos na carteira, por conta do que fez na véspera. Não é o caso de criar rivalidades, de achar que o clima pelos lados do time de Grove azedou, que houve desobediência, nada disso. Terminaram os dois sãos e salvos, em sétimo e oitavo, como seria de qualquer modo. E que bom que o Felipe Massa modelo 2014 é forte o suficiente para entender o que fazer sem ter que lamentar depois.

Vamos ter briga…

Falar das 56 voltas de domínio total de Lewis Hamilton, da primeira dobradinha da Mercedes em seis décadas só não é chover no molhado porque, primeiro, as nuvens se comportaram e, segundo, a concorrência deu passos de gigante. Se o time de Brackley apareceu com uma nova carroceria, mais afilada e com espaço extra para refrigeração em torno do escape, os rivais não ficaram atrás. A McLaren já alterou o desenho do bico e a Red Bull, ainda que sem mudanças visíveis, encontrou o caminho, a ponto de Sebastian Vettel não se contentar com um terceiro lugar. Ainda não houve um treino oficial sem chuva mas, em condições de corrida, o domínio das Flechas de Prata não foi tão insolente assim. Nas circunstâncias ideais, não há porque excluir ainda McLaren e Williams das candidatas à vitória (é só lembrar quem foi o mais rápido no Barein, palco do GP de domingo).

Ah, o barulho…

Cada vez mais acho que a discussão em torno do barulho dos novos motores é estéril e equivocada. Se o urro dos V8 aspirados fosse tamanha música para os ouvidos, os vidros das salas de imprensa não seriam reforçados com isoladores, muito menos os torcedores receberiam protetores na chegada ao autódromo. Lógico, ninguém quer silêncio absoluto, mas as novidades têm lá seus atrativos. Agora é possível entender sem dificuldade a conversa entre pilotos e seus boxes; ou se deliciar com ruídos antes escondidos, como o do motor elétrico sendo carregado numa freada mais forte, ou as boas e velhas cantadas de pneus. Aposto que você nem notou que a vinheta de abertura do site oficial da categoria trocou o V8 aspirado pelo V6 turbo, notou?

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