Modesta homenagem ao craque do traço…

Confesso ao amigo leitor, em especial o de Minas, de onde saem estas linhas insistentes, que nunca tinha ouvido falar de Afonso Celso Duarte até hoje. Porque ninguém que teve o privilégio de conviver com ele o conhecia assim. Para mim, no início, ele era “apenas” o Afo, alguém de quem eu conhecia o traço mais marcante, literalmente, mas não imaginava quem seria, no máximo teria atendido alguns telefonemas. Por alguns anos, talvez, ele era para mim o sinônimo de humor em três quadrinhos, um jeito próprio de ilustrar o esporte do estado, do país e do mundo que dificilmente deixava de provocar boas risadas. Não se tratava de fazer charges fiéis, mas de manter linhas características que, com um circulo aqui, uma esticada ali, viravam sem sombra de dúvidas os personagens tão bem retratados. E o melhor de tudo é que muitas vezes o personagem era o torcedor, não precisava ter nome; não era um árbitro, mas todos; um treinador, mas todos. E mesmo os pilotos não escapavam…

Difícil precisar quando foi, mas a frase que passou a marcar sua entrada na redação não deixava dúvidas: “Cadê o vestiário da alegria?” Pronto, agora o Afo tinha feições, voz, conversa boa e longa sobre o pão cotidiano de uma equipe, sem contar a luz de suas ideias sérias e inspiradas para atacar as mazelas do nosso esporte, algo que de engraçado tem muito pouco. Um americano (torcedor do América, para quem não sabe) que sabia perfeitamente mergulhar no universo de atleticanos e cruzeirenses para externar, de uma forma leve, momentos de desespero ou de alegria. E quando não havia tempo de preparar a tirinha na correria de uma decisão de Copa do Mundo, por exemplo? Ele mandava as duas hipóteses, e nos deliciávamos com ambas. E pensar que foram três décadas de ideias renovadas, de criatividade interminável, de inspiração inabalável.

Mesmo quando a saúde já não ajudava e as visitas ao jornal rarearam, as tirinhas continuavam chegando, como se nada houvesse. Mas havia, e ele houve de nos deixar neste fim de semana. Ainda guardo (e olha que tem muito tempo isso) o bloquinho de anotações com que nos presenteou a todos – havia a versão celeste, a alvinegra e a americana. E não sem um bocado de emoção, outro presente ainda mais especial, que foi o de ver o nome citado numa de tantas tirinhas. Porque ele era assim: um craque no que fazia, que nunca deixou de reverenciar os pernas-de-pau (entre os quais eu me incluo) que trabalhavam ao seu lado. Fica a lembrança de setembro de 2012, quando ele se valeu do automobilismo para cutucar o time do coração, e citou este que vos escreve no cantinho (lógico que teve post de agradecimento…), com um asterisco e a frase “Rodrigo Gini é que entende disso”. Não tanto quanto você dominava a arte de falar tanto, e com tamanho humor e maestria, em tão pouco espaço, grande Afo. Que ao menos aí, onde você esteja, o vestiário seja de alegria. Aqui, é de saudade…

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