A classe operária vai ao paraíso – Coluna Sexta Marcha (GP de Mônaco)

A classe operária vai ao paraíso Esqueça o ciclismo, o atletismo ou qualquer outro esporte de equipe em que só há um vencedor. No automobilismo, guardadas as devidas exceções (registradas em contrato ou não, ou ainda lembradas de forma nada agradável pelo rádio), a rivalidade é coisa séria, especialmente quando deixou de ser possível trocar de carro ao longo de um GP – sim, na Fórmula 1 isso já foi possível, e houve quem, cavalheirescamente, abrisse mão de vitórias ou das próprias ambições para favorecer um Juan Manuel Fangio, por exemplo. No Século 21, ganhar em dupla ou trio só nas provas de endurance.

E nada mais normal do que a celeuma criada em torno do duelo Nico Rosberg x Lewis Hamilton, transformado exageradamente em guerra fratricida neste fim de semana do circo em Mônaco. Coisa de quem não presenciou, ou não se lembra, de batalhas como Jones x Reutemann, Villeneuve x Pironi, Prost x Lauda, Prost x Senna e Piquet x Mansell, apenas para citar as mais marcantes. Coisa capaz de transformar a história mostrada em Rush, que retratou a temporada 1976, em cinema água com açúcar, tais as artimanhas empregadas ou o grau da batalha psicológica.

Sim, estávamos desascostumados a este grau de fricção interna, ao fato de que dois pilotos sob um mesmo teto podem ter o mesmo talento e oportunidades, principalmente quando o produto a se vender não são bebidas energéticas, mas automóveis. E não apenas automóveis, mas uma tradição nas pistas interrompida depois do grave acidente nas 24h de Le Mans de 1955 (em que mais de 80 espectadores morreram quando a Mercedes de Pierre Levegh, em chamas, invadiu as arquibancadas) e retomada mais de meio século depois. A bem da verdade, a marca estrelada é tradicional e forte o bastante para não conseguir se impor, e qualquer coisa diferente de um título não deixa de ser fracasso.

Daí a criar toda a celeuma em torno da eventual esperteza de Rosberg vai um longo caminho. Não estamos nem perto do que fez Michael Schumacher na Rascasse em 2006, para ser exemplarmente punido. E até pode ser que, num milionésimo de segundo, ele tenha se deixado levar pela tentação de errar o ponto de freada onde podia. Mas esperteza é parte do arsenal dos grandes campeões, e que levante a mão aquele que nunca se valeu de um expediente eticamente questionável. Como diria o narrador, “é disputa, meu amigo…”. Aliás, se eu fosse comissário de prova, pedia investigação para esclarecer se algo realmente entrou no olho esquerdo de Hamilton ou se foi a desculpa pensada para justificar o que a pista deixou claro: que não haveria como passar o colega. Reclamar do pitstop em sequência beirou o absurdo –  ou o talentoso britânico se esqueceu que perderia todo o tempo de uma volta a mais atrás do safety car e iria para o meio da fila na relargada?

Dito isso, a grande notícia de mais um GP monegasco (sim, é esse o gentílico) foi o nono lugar da Marussia de Jules Bianchi. Que, para que o leitor tenha uma ideia, se vira por ano com metade do que a Mercedes gastou apenas para desenvolver seu V6. E promete engordar o orçamento de um time já dado por muitos como à beira da extinção em, no mínimo, US$ 20 milhões. E isso depois de três punições: a da troca da caixa de câmbio, a da parada em posição errada no grid e mais uma por ter cumprido a anterior em regime de neutralização. Coisas que só podem acontecer mesmo nas estreitas ruas do principado. E ainda tem gente que não entende o por quê de a F-1 continuar andando de moto na banheira, como exemplificou um dia Nelson Piquet.

O soldado Ryan Do outro lado do Atlântico, com tradição e carisma semelhantes aos de Mônaco, o domingo de 500 Milhas de Indianápolis coroou a paciência e a precisão cirúrgica de Ryan-Hunter Reay e da equipe Andretti. Mais do que merecida a vitória do norte-americano, e destaque para seu compatriota Kurt Busch, ex-campeão da Nascar, que recebeu a bandeirada em sexto no seu primeiro contato com um carro da Indy.   Haja espera

82 Corridas foram necessárias até que um dos times “low cost” que estrearam no GP da Austrália de 2010 finalmente conseguisse pontuar. Nesse caminho, a Hispania fechou as portas no fim de 2012, quem era Lotus virou Caterham e quem nasceu como Virgin se tornou Marussia, a responsável pela façanha, que muitos já nem consideravam possível.

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