Durma-se com um barulho deles – Coluna Sexta Marcha

Já disse, neste mesmo espaço, que, diante da insolente dominação das Mercedes na temporada (como foi o caso com Red Bull, Ferrari, Williams e McLaren antes), a briga pela ponta deixa de ser o único parâmetro para julgar uma corrida. Bem verdade que, até agora, o Barein é imbatível, já que os duelos se estenderam entre os dois extremos do grid e Lewis Hamilton e Nico Rosberg deram uma aula de como brigar por uma posição (no caso, a primeira) sem pôr tudo a perder ou passar dos limites. Foi de prender a respiração, mas, tirando algumas esbarradas, tudo terminou bem.

Se você acompanhou o que se passou em Silverstone neste domingo sabe que disputa pela liderança não houve, inclusive por falta de oportunidade. Porque seria fantástico ver Lewis Hamilton, com a ajuda da estratégia (e olha que perdeu um tempão em seu pitstop) se recuperar diante do alemão, se impor na pista e corrigir um erro admitido desde o primeiro momento, o de não ter acreditado nas condições do asfalto e desistir da última tentativa de volta rápida na qualificação, o que foi a diferença entre a primeira e a terceira fila no grid.

Mas os deuses da velocidade por vezes escrevem certo por linhas tortas e, depois de a nuvem de azar da Mercedes se concentrar sobre o carro 44, resolveu também visitar o 6. E que lugar melhor para ocorrer do que na casa do automobilismo britânico, como eles orgulhosamente definem (com toda a razão), diante de uma multidão extasiada? Sim, temos um campeonato, e a tentação de tender a balança das previsões para um lado ou outro vai depender, por enquanto, do que houver a cada GP. Hamilton está mais piloto que Rosberg, ainda que o alemão tenha dado mostras de domínio inquestionáveis, como nas ruas de Mônaco. Mas chegamos ao ponto em que não dá para falar em injustiça caso o título vá para um ou outro. Não vai é para qualquer outro time do pitlane.

O que a W05 tem de aderência mecânica a mais do que os rivais é uma enormidade, que ficou clara no treino de sábado, quando foi mais rápida quando seus pilotos quiseram, e por boa margem. Lógico que a vantagem do motor – nem tanto na potência, mas na forma de entrega dos cavalos – ajuda, mas, fosse assim, McLaren e Force India seriam adversárias próximas, como a Williams se tornou. Mérito (ou culpa) dos projetos.

Sobre o que houve com Felipe Massa, talvez passe por algo sobrenatural, e é impressionante como logo surge o comentário “puxa, por que será que tudo de ruim que tem de acontecer ocorre com o brasileiro, e não com Valtteri Bottas?”. A melhor resposta (ou tentativa de explicação) está naquele que provocou o acidente que tirou o representante verde e amarelo da prova: Kimi Räikkönen. Vencia corridas na Lotus, se sentia à vontade com um carro que não era o máximo e, na Ferrari, atolou, não se acha. O lado anjinho do cronista se apressa em dizer. “Ele não teve culpa em Silverstone, como não teve na Austrália”. Mas o lado diabinho intervem, com razão. “Não tivesse largado tão atrás, e ainda por cima sofrido com a embreagem”, terminaria junto de Bottas.


Rádio maldito

Falava sobre as belas brigas ao longo das 52 voltas e nenhuma foi tão sensacional quanto a que opôs Sebastian Vettel e Fernando Alonso por um “reles” quinto lugar. Que o espanhol não entrega posição com facilidade é mais do que sabido; e talvez só durante uma parte de 2010 os dois tenham lutado em condições de “igualdade” como no GP inglês. O asturiano era mais rápido nas retas; o tetracampeão sobrava nas curvas, como lhe permite a Red Bull. A ultrapassagem, embora menos dramática, imediatamente trouxe de volta a lembrança do duelo no retão de Barcelona entre o comissário em Silverstone (traduzindo, Nigel Mansell) e Ayrton Senna, na corrida de 1991. Os dois, separados por centímetros, atacaram e defenderam lealmente, deixaram o circo em apneia até que a Williams levasse a melhor na freada.

O problema mesmo foi a choradeira mútua pelo rádio. O coitado do Mansell, assim como Charlie Whiting, ouviu muito dos dois lados, numa tentativa de intimidação e convencimento exagerada, como meninos de escola que querem dedurar o colega infrator. Agora que o barulho dos motores é menor e o som dos rádios mais audível, seria o caso de a FOM cortar também as conversas, para não estragar a ação na pista.

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