Hora de turbinar o amuleto – Coluna Sexta Marcha

Hora de turbinar o amuleto

Sorte. Taí uma palavra que não costuma fazer parte do vocabulário dos pilotos, algo que se aprende desde os tempos do kart. A famosa peça de R$ 5 quebrou a duas curvas da bandeirada? Coisa de corrida. Um acidente por conta de uma manobra mais arrojada ou da tentativa de desafiar as leis da física? Sempre tem um culpado, de acordo com o ponto de vista. E se os comissários discutem, observam, deliberam e decidem não apontar um responsável, entra para a galeria dos incidentes de corrida. Nunca é resultado de alguma conjunção astral desfavorável, ou de uma nuvem carregada sobre determinado capacete.

Mas aí você começa a temporada animado, depois de brilhar na preparação e… leva com uma Caterham sem freios a meia-nau. Tem a chance de terminar entre os primeiros na China, mas sua equipe o deixa um minuto no box, à espera de que uma roda caprichosa finalmente seja presa. Faz um corridão no Canadá e, talvez movido pela ansiedade, tenta uma ultrapassagem justamente quando o rival começa a ter problemas. Acaba traído pela estratégia na Inglaterra, sofre com a embreagem na largada e, quando começa a recuperação, é abalroado pela Ferrari em perdição de Kimi Räikkönen. Pouco? Como a cereja do bolo, a real chance de um pódio vira, literalmente, de cabeça para baixo nos primeiros metros em Hockenheim.

Como definir então a maré de Felipe Massa? Mesmo porque, falar de sorte quando se viveu uma experiência como a do grave acidente na Hungria’2009; se teve a chance de voltar às pistas e continuar fazendo o que mais gosta talvez faça sentido ao notar que a cena assustadora de ontem não teve qualquer consequência desagradável. Que há algo mais entre o céu e o asfalto do que pode supor nossa vã filosofia parece claro, mas eu não consigo definir o quê. Olha que eu vi, revi e vi de novo os fatídicos primeiros metros e não consigo encontrar nada que incrimine Kevin Magnussen. A principal culpada na história parece ser a configuração atual da pista. Nos tempos do traçado de 6.800m que mergulhava pela Floresta Negra, a reta era mais curta e a curva 1 tinha raio maior. Não resolve, nem traz a corrida perdida de volta, mas explica.

E sempre é bom lembrar que os pilotos, embora fujam da palavra sorte, costumam se apegar a todo o tipo de amuleto. A luva (ou até a cueca) da primeira vitória se tornam parte integrante do vestuário – até onde me consta, lavados regularmente. E medalhinhas, moedas, santinhos se tornam inseparáveis companheiros. Também há superstições, embora uma das mais famosas tenha caído em desuso. Dizia-se que estrear um capacete era sinônimo de acidente. A julgar pela quantidade de desenhos diferentes e versões especiais, com certeza não mais. Estou para dizer que é culpa dos atuais macacões que, para economizar alguns gramas, perderam os bolsos. Sabe-se lá se algum amuleto não ficou sem lugar. Se for o caso, que se cole no cockpit, ou no banco, que é exclusivo do piloto, por ser moldado com as suas formas. Uma virada justamente a partir de Hungaroring, das lembranças assustadoras, não seria um mau negócio…

Bottas, enquanto isso…

E não é boa coisa ficar estacionado na pontuação justamente quando o companheiro chega ao terceiro pódio consecutivo e confirma tudo de bom que dele se falava já nos tempos da GP3. A Williams ainda não está em situação que justifique favorecimento a Valtteri Bottas, assim como Massa não pode ficar obcecado com o companheiro, ou a situação pode ficar ainda pior. É o caso de pensar que, nas atuais condições, ser mais rápido que Alonso, Vettel, Ricciardo, Button e Räikkönen é mais que apenas uma perspectiva. E das melhores.

A TV derrapa

Dito isso, a corrida foi bastante emocionante – e olha que embora pareça, nem sempre a nova configuração do traçado de Hockenheim proporcionou disputas assim. Talvez o menor grip aerodinâmico e o delicado equilíbrio das máquinas atuais tenham ajudado, o fato é que as disputas no pelotão intermediário foram furiosas e não faltaram fragmentos de fibra de carbono voando pelo caminho. Pena que a TV que detém os direitos de transmissão rume em sentido contrário e comece a dar os primeiros passos para imitar o que ocorre na Itália, por exemplo (todas as provas ao vivo só num canal por assinatura; a RAI pode exibir nove delas em tempo real e as demais só em VT). Limitar o treino oficial aos 12 minutos do Q3 é, como diria o filósofo, de lascar o cano.

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