Pacto com São Pedro – Coluna Sexta Marcha


Pacto com São Pedro

Sorte (ou a falta dela) era o assunto da coluna da semana passada, sobre o GP da Alemanha e a fase atribulada de Felipe Massa, e eu lembrava que os pilotos de corrida não gostam muito da palavra, muito embora carreguem e acreditem em todo o tipo de amuleto imaginável. Mas de Bernie Ecclestone não dá para dizer que não seja bafejado pela sorte. Quando tantas peças do tabuleiro do circo apontam para uma temporada complicada do ponto de vista da popularidade da F-1 – domínio das Mercedes, a polêmica sobre o barulho (ou a falta) dos motores, a adoção de tantos sistemas e dispositivos que acabam por confundir o fã – eis que não apenas o dono do brinquedo é recompensado com uma corrida sensacional onde se poderia esperar – Hockenheim –, mas principalmente onde menos se imaginava.

Sim, porque o problema de Hungaroring, que era exemplo de circuito quando foi inaugurado, na década de 1980, até ser superado pelos palacetes asiáticos nascidos da imaginação de Herman Tilke, é que a pista “encolheu” à medida que os carros foram se tornando mais previsíveis, equilibrados. Há um caminhão de aderência mecânica, os freios são cada vez mais potentes e a potência dos motores, mesmo com toda a sopa de letrinhas em ação (ERS, DRS), está longe de ser absurda. Como não se erra troca de marchas e a eletrônica ajuda a dosar os excessos de torque, é normal que não se tivesse duelos a la “Piquet x Senna” de 1986 e 1987, ou desempenhos como o de Nigel Mansell em 1989. E víssemos um trenzinho comportado ao longo das 70 voltas.

Mas, como eu disse no começo, Mr. E deve ter pacto com São Pedro, ou ter nascido virado para a lua. Começou com mais um contratempo enfrentado por Lewis Hamilton no sábado e passou pela chuva que caiu o suficiente para embolar as cartas (pode ter certeza de que, se tivesse continuado, a prova não seria tão movimentada). E terminou com Red Bull andando mais rápido que Mercedes; Ferrari no pódio (melhor seria dizer Fernando Alonso, já que o carro, no caso, não ajuda) e o mesmo Hamilton que largou quando toda a tropa já tinha passado saltando da 20ª para a terceira posição.

Foi como se todo o grid (ou a grande maioria) tivesse sido abastecida com o energético que deu asas a Daniel Ricciardo. E uma categoria há não muito questionada pela falta de agressividade dos pilotos, se transformasse radicalmente. A começar pela linda manobra que valeu a vitória ao sorridente australiano. Mesmo com pneus mais rápidos e conservados, atacar Hamilton por fora num ponto com a zebra úmida e em que qualquer milímetro a mais no curso do acelerador seria sinônimo de rodada é coisa de gente grande. Alonso, mais tarde, foi presa fácil.

E se fizéssemos como os jogos de futebol e atribuíssemos notas ao desempenho dos pilotos, a turma quase toda teria passado com sobras. Ricciardo mereceu 10, mas Alonso também, e Hamilton igualmente. Nico Rosberg falou muito e fez pouco desta vez – em nenhum momento se aproximou o suficiente do companheiro para justificar a troca de posições e reagiu tarde demais – mas ainda assim mereceria um 8, tal como Felipe Massa e Jenson Button, atrapalhado que foi pela lambança estratégica da McLaren. Sobre o brasileiro, só questiono a afirmação de que teria sido muito mais rápido com os pneus macios. Teria sim, mas provavelmente ficaria sem borracha no fim e, ao invés de ganhar posições, o que seria difícil, acabaria por perder algumas.

O mais engraçado de tudo é saber que, se o “kartódromo” magiar foi capaz de proporcionar tanta emoção, será difícil esperar o mesmo daqui a três semanas, onde ela normalmente é tanta. Spa-Francorchamps é pista de motor, e nem é preciso dizer quem fala sozinho neste quesito. A não ser que chova (e isso lá é quase certo). Com a sorte de Bernie Ecclestone, não custa muito.

         Red Bull Racing/divulgação

Por isso é que…

Me estranha ver que o ex-dono da Brabham e patrão de Nelson Piquet pretende pedir a ajuda de Flavio Briatore para discutir formas de tornar a categoria ainda mais atraente. O problema é que, ao longo da história, não houve um formato que trouxesse muito mais emoção. Há, por várias circunstâncias, corridas e temporadas interessantes, outras menos, não necessariamente por causa das regras. E não sei se as ideias do italiano, que é bom nisso, teriam acolhida entre os donos de equipe. Homem de marketing que é, ele sempre se mostrou contra todo o tipo de complicação tecnológica e, se pudesse, faria duas corridas por GP, de preferência invertendo parte do grid da segunda, como se faz na GP2 (da qual foi um dos criadores). Além de pregar por um maior envolvimento e aproximação com o público, como existe na Nascar, na Indy ou no DTM alemão. Vale a tentativa, mas dificilmente sairá uma fórmula mágica para garantir sempre corridas de tirar o fôlego…

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