Ferrari na alma, mas não no coração…

Não sei se sou o único apaixonado por automobilismo a gostar especialmente de um carro de corrida, mas confesso, sem medo, que tenho um fraco pela Ferrari 333 SP, o último protótipo a sair não do Reparto Corse de Maranello, mas das oficinas da Michelotto, que se tornou uma espécie de extensão da escuderia do Cavallino Rampante para as categorias de GT/endurance. Estávamos na primeira metade da década de 1990 e, já sem o comendador, a equipe ainda não contava com Jean Todt e tentava se reencontrar depois de um jejum a cada ano mais incômodo. Investir em outra coisa que não fosse a F-1, nem pensar, apesar de toda a tradição esportiva nas provas de longa duração.

Mas eis que o saudoso Giampiero Moretti, o Momo (ele mesmo, da marca que se tornou sinônimo de motorsport), tanto insistiu, cobrou, pediu, que Piero Lardi Ferrari autorizou a construção de uma máquina simples, e ao mesmo tempo fantástica. Movida por um V12 que tinha por base o motor da F-1 (o da mal-sucedida F92A, de John Barnard), com capacidade aumentada para 4.000cc. Não havia um Mundial, como o WEC, mas entre as sopas de letrinhas nos EUA e Europa, havia espaço e mercado para várias – tivemos FIA Sportscars, ISRS, que virou SWRC; IMSA, Grand-Am, que já havia sido USRRC; ALMS, sem contar outras corridas específicas em que era possível alinhar. E, lógico, as 24h de Le Mans e Daytona e as 12h de Sebring. Na França, nunca foi possível vencer contra os times de fábrica ou com protótipos mais desenvolvidos mas, nas clássicas norte-americanas, a Ferrari venceu tudo e mais um pouco.

Só que, sem o suporte oficial de Maranello, a mecânica foi envelhecendo, enquanto surgiam rivais fortes, como as Lolas T98, as versões mais novas dos Riley & Scott, os Dome, as BMW V12 ex-oficiais, os Courage e Reynard, com propulsores mais fortes e confiáveis. Parecia um sacrilégio, até que o time suíço Horag, responsável pela Ferrari de Freddy Lienhard e Didier Theys “chutou o balde” e fez o que certamente levou o comendador a tremer no túmulo. Fora o V12 Ferrari, dentro o V10 Judd, confiável e algo mais moderno. E a mudança deu resultado, com a vitória na Road America 500 de 2001, além de pódios e algumas participações esporádicas na Europa. Ao mesmo tempo, o engenheiro e piloto (dizem as más línguas que mais o primeiro que o segundo) Giovanni Lavaggi fez o mesmo com a 333 do time GLV Brums, que andava no FIA Sportscar/ISRS/SRWC; sofreu com as quebras e problemas de adaptação, mas a máquina andou de forma razoável, enquanto era criado o protótipo que levaria o nome do ex-piloto da Pacific na F-1. E foi desta forma, com alma Ferrari e coração Judd, que a 333 acelerou oficialmente pela última vez, nos 500km de Monza de 2003. Desde então, ficou apenas o sonho de ver o cavalinho novamente desafiando Audi, Porsche, Nissan e Toyota – a bem da verdade, lá no céu, Enzo Ferrai deve ter tido orgulho mesmo do híbrido que, em parte, era fruto da engenhosidade de seus homens.

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