O resto pouco importa (Coluna Sexta Marcha – GP do Japão)

O resto pouco importa

Deveria ter sido o GP da ultrapassagem sensacional de Lewis Hamilton sobre Nico Rosberg, por fora, na Curva 1, a primeira de uma série de viragens (como se diz em Portugal) técnicas e absurdamente exigentes, que fazem de Suzuka um traçado único. Ou da falta de sorte de Fernando Alonso – aliás, depende do ponto de vista, pois a pane que o tirou da prova apenas corrobora eventuais cláusulas de performance usadas para se desfazer do contrato com a Ferrari. Até mesmo da surpreendente decisão de Sebastian Vettel de deixar a Red Bull (não que isso não pudesse acontecer, mas foi repentino e capaz de dar um drible na rede de especulações do circo, que não previu o movimento no xadrez do circo).

Deveria, mas não foi. Porque, como disseram o vencedor, o segundo e o terceiro colocados, tudo o mais se torna secundário diante da situação que vitimou Jules Bianchi. Uma sombria volta a episódios diferentes, que se entrelaçam numa sequência trágica. Sim, porque o acidente de ontem teve um quê de Rush, mas também trouxe de volta a dinâmica do choque que envolveu, em julho de 2012, a espanhola María de Villota, também no comando de uma Marussia.

Para quem não se lembra, ela fazia testes aerodinâmicos no aeródromo de Duxford quando subitamente o carro, desgovernado, golpeou a rampa hidráulica da carreta do time. Poderia ter sido muito pior, e a perda da visão de um olho foi a sequela mais clara, mas María acabaria morrendo ano passado em decorrência de complicações provocadas pela batida. Fatalidade, mais do que tudo.

E onde entra a disputa entre James Hunt e Niki Lauda na história? Neste mesmo Japão (em Fuji, não em Suzuka), se dava o último round do duelo e, em 1976, como agora, a chuva se tornou protagonista inesperada. Reza a lenda que houve um acordo entre os pilotos para que apenas largassem e entrassem nos boxes, diante da total impossibilidade de permanecer em segurança na pista. Mas, como a briga se transformou em sensação e pela primeira vez as TVs de todo o mundo quiseram mostrar ao vivo, o show não podia parar. O resto é mais do que sabido: Lauda (como os brasileiros Pace e Fittipaldi) cumpriram o prometido, mas os demais roeram a corda e a corrida seguiu adiante, coroando o inglês.

Desta vez havia um tufão a caminho e, em nome da transmissão em horário razoável para a Europa, atrasou-se há alguns anos o horário de largada, com a bandeirada, na melhor das hipóteses, chegando pouco antes do cair da noite. Em outras ocasiões esperou-se muito mais pela melhora das condições da pista, mas a sensação é de que ontem a largada foi dada à força, com as sete primeiras voltas em fila indiana para não deixar o público esperando.

Que o asfalto estava bem melhor e havia como acelerar mais tarde não resta dúvida, tanto assim que os pneus para chuva extrema logo deram lugar aos intermediários, e poucas foram as rodadas ou acidentes. Andar na chuva pode não ser agradável, mas faz parte do jogo, desde que haja um mínimo de segurança. Que começou a faltar tão logo a chuva retornou com intensidade – embora eu ache que ainda não era caso de apelar novamente para o safety car.

Daí em diante, no entanto, começaram a se suceder as tristes coincidências, que eu prefiro chamar de erros. Basta lembrar que, em Mônaco, as gruas conseguem retirar os carros acidentados mesmo ficando atrás dos guard-rails. E a Curva 7 não é propriamente lenta, ou tranquila. Ainda que as bandeiras amarelas estivessem sendo tremuladas de modo frenético, o piloto pode ser colhido de surpresa, como parece ter sido o caso, especialmente com a aderência comprometida. Imaginemos que a Sauber de Adrian Sutil estivesse lá, parada. Haveria o choque, mas muito provavelmente bem menos cruento do que foi.

Que este reencontro da F-1 com uma dinâmica que felizmente andava distante sirva ao menos como lição. E que Jules Bianchi, que entrou para a história com o nono lugar nas ruas de Montecarlo, os primeiros pontos de uma equipe nanica das últimas que entraram na categoria, saia dessa bem e se recupere do susto., #ForçaJules.

Ciao, De Cesaris

Como se fosse pouco para um domingo, um acidente de moto próximo a Roma levou um dos mais folclóricos nomes da história da categoria, que acabou se tornando sinônimo de acidentes – a foto em que sua Alfa Romeo voa sobre a Saint-Devote, em Mônaco, se tornou lenda – mas deixou números mais que razoáveis. Por muito tempo, Andrea de Cesaris, com suas 15 temporadas e 208 GPs, era o recordista de largadas e, com uma pole e quatro pódios, teve trajetória mais que decente. Além de ser sinônimo de um tempo em que os italianos tinham representantes sobrando na categoria. Descanse em paz, bom Andrea.

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