Rumo ao Pikes Peak: Parte 3

Tudo bem, a aventura deste que vos escreve para subir o Pikes Peak não demorou tanto tempo assim, foi apenas um dia, mas, como outros assuntos esquentaram o noticiário, a continuação demorou algo mais que o esperado para pintar no blog. No último capítulo (parece história de novela), eu havia chegado à portaria do Pikes Peak National Park e fui alertado que só conseguiria chegar à 13ª milha das 20 da estrada, que termina nos 14.110 pés de altitude, ou 4.300m. Perguntei sobre o local em que começa a corrida e a ranger me disse para prestar atenção nas placas com a distância percorrida. Quando chegasse à sétima milha, depois do Crystal Reservoir, uma pequena represa à esquerda do caminho, estaria no ponto em que as máquinas liberam suas centenas de cavalos rumo às nuvens.

Os primeiros quilômetros são relativamente tranquilos – ou devem ser, já que a neve acumulada exige cuidado e atenção o tempo todo. E chama a atenção a quantidade de placas alertando para a presença de animais no caminho – alces, cervos e outros podem passear livremente pelo parque e têm preferência sobre outro tipo de quadrúpedes, os sobre rodas. Como a guarda tinha dito, realmente o panorama começa a se abrir quanto mais se sobe, e não há penhascos assustadores na primeira parte da subida, o relevo é menos acidentado. As curvas fechadas, aquele monte de cotovelos a que nos acostumamos a acompanhar nos vídeos, também ficam para o fim do caminho. Sem grandes sustos, logo chego ao reservatório.

Nele há uma lojinha que, curiosamente, não faz muitas referências ao PPIHC (a sigla da subida de montanha). Um ou outro adesivo apenas, mas logo fica claro que o parque é atração o ano todo, com ou sem carros subindo o morro. O termômetro do carro marca 10 graus negativos, e ainda assim me animo a sair e dar uma olhada no entorno, onde ficam os caminhões de apoio e o material das equipes. Graças ao valente celular, foi possível inclusive gravar o vídeo abaixo – e eu já peço desculpas porque não tem edição, vai do jeito que foi feito mesmo.

De volta ao volante e lógico que comecei a salivar. Sétima milha e quase não há referências da passagem de carros, motos e caminhões por ali – estamos numa área preservada e uma das preocupações é provocar o menor impacto possível. De cara, a primeira surpresa: embora já tivesse visto, não tinha me dado conta de que os primeiros metros do percurso são em descida, bastante rápidos, com curvas mais abertas e “áreas de escape” dos dois lados – não quer dizer que há para onde sair em caso de erro, mas que, neste trecho, uma eventual escapada terá consequências bem menos graves. A visão periférica é ampla e, juntando tudo, temos o trecho mais veloz da subida nas três primeiras milhas.

Claro que o inconsciente ficava soprando no meu ouvido: “acelera, anda, corta aquela curva ai, sobe pela trajetória mais rápida”, mas, não bastasse a neve, a estrada estava aberta nos dois sentidos e não seria bom ser flagrado por um ranger andando mais rápido do que o sugerido. Num ponto ou outro até foi possível fazer uma graça, mas longe do que faz quem está ali para vencer a briga com o cronômetro.

E eis que, por volta da milha 10,5, a coisa começa a ficar séria. Afinal, não dá pra esquecer que são 156 curvas em pouco mais de 20 quilômetros. Chegam os primeiros cotovelos, e o cenário muda completamente. A partir de então, é penhasco de um lado (com várias árvores bastante grandes) e montanha do outro. E o ganho de altitude começa a ficar intenso, a rampa se inclina. E entramos nos trechos onde os melhores realmente podem fazer a diferença: você anda 40, 50 metros e… cotovelo. Mais 40, 50 e… cotovelo. E não há como ter a menor ideia do que vem depois da curva. Passo a placa dos 10 mil pés (3.100m) e, a bordo de um carro com câmbio automático, fico imaginando como a delicada coordenação entre alavanca de câmbio e pedais se torna fundamental por estas bandas. Como os norte-americanos gostam de dizer, é preciso manter o “momentum”, o ritmo. O asfalto é muito bom e a única coisa triste é que Glen Cove, onde a minha aventura vai terminar, se aproxima.

De repente, um retão em subida com um posto de observação no meio do caminho, e a placa road closed mostra que chegou a hora de parar. Já li muita gente boa dizer que é a partir da curva à direita que consigo enxergar logo à frente que as coisas ficam realmente perigosas e desafiadoras. Estou a 3.780m de altitude, felizmente sem nenhum tipo de enjôo ou falta de ar, e o topo, a linha de chegada, está ali, pertinho. Mal sabia eu que a parte mais legal da aventura ainda iria começar, como eu conto no último post da série…

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