Confesso que dormi – Coluna Sexta Marcha (GP da Austrália)

Em data nova (agora às terças-feiras), a coluna Sexta Marcha retornou às páginas do Estado de Minas e não poderia deixar de bater ponto aqui no blog, para quem não conseguiu ler no papel ou na versão digital do jornal. O título diz muito sobre o que se viu ao longo das 58 voltas em Melbourne e, a bem da verdade, a movimentação na pista acabou sendo o menos importante de um fim de semana que, se espera, tenha sido atípico…

         AMG Mercedes/divulgação

             

                             Confesso que dormi Quando um de seus 22 empregos (quem brinca não sou eu, mas os italianos) era o de presidente da Ferrari, Luca di Montezemolo sugeriu que a Fórmula 1 deveria se sentar à mesa com as grandes corporações tecnológicas, como Google e Microsoft, e buscar formas de se situar na era das mídias sociais e da comunicação global. Uma indireta ao temor de Bernie Ecclestone, que nunca gostou de dividir a galinha dos ovos de ouro com ninguém. Nada de imagens grátis, de facilitar o acesso ao circo, especialmente se não houver dinheiro envolvido. Se é a máxima expressão da tecnologia e do automobilismo, não poderia ser um espetáculo para qualquer um, ao menos na pista e em termos de merchandising.

Só que a globalização encurtou espaços e distâncias e democratizou o acesso à informação. Hoje, com uma conexão razoável à internet, é possível acompanhar na tela do computador corridas das mais variadas categorias pelo mundo de forma legal, e gratuita. E quem realmente gosta da velocidade, o fã que tem gasolina nas veias, não se contenta com a F-1 pela F-1. Sabe que o Mundial de Endurance, com Audi, Toyota, Porsche e Nissan se digladiando com esquadrões de primeiro nível, pode ser muito mais emocionante. E o mesmo ocorre com as artes e outras formas de entretenimento. A concorrência ficou pesada, os números menos favoráveis e algumas mudanças se fizeram exigir.

O leitor há de lembrar que o site oficial da categoria é coisa recentíssima; que os gráficos repletos de informações não existiam nos tempos em que ficávamos embasbacados com os japoneses e tudo o que reservavam para o seu GP, em Suzuka – era alta definição antes do HD. Para a grande maioria, era o básico, e quem quisesse mais que pagasse a assinatura de um canal a cabo (Tio Bernie chegou a ter sua própria estrutura de geração de imagens, absurdamente gigantesca). Mas eis que os números de audiência começaram a cair; sinais preocupantes apareceram; os patrocinadores praticamente sumiram – hoje a grande maioria dos times não tem um “title sponsor” e todos preferem falar em “parceiros”. Ao mesmo tempo, a metade técnica da categoria (leia-se Jean Todt e a Federação Internacional de Automobilismo) começou a fazer pesquisas, a se interessar pelo espectador, a fazer eventos paralelos, seminários e discussões que envolvessem os amantes pelo esporte. Surgiram normas para conter a paranóia dos times em esconder seus segredos, a qualidade das transmissões (falo das imagens e seus penduricalhos) melhorou muito e temos até mesmo a F-1 no Twitter. Finalmente o circo resolveu descer de seu pedestal.

Mas… num momento de briga acirrada para manter prestígio e público, a F-1 deu um tiro de canhão no pé no GP da Austrália. Não falo da Manor, que fez até muito ao conseguir levar seus carros para Melbourne (em 2010 a Hispania também não saiu dos boxes). O problema, aliás o primeiro deles, foi transformar em novela global uma disputa contratual como já houve várias nas últimas décadas, e levar a categoria mais uma vez aos tribunais. Ainda que as letrinhas pequenas dessem a Giedo van der Garde o direito de se considerar titular da Sauber, era algo que deveria ter ficado restrito aos advogados, e resolvido ainda na Europa, não num fim de semana de início de temporada.

Depois houve a cascata de problemas que era esperada para ano passado, quando os motores turbo eram novidade, não agora. Tire da brincadeira Valtteri Bottas, com um problema nas costas; a McLaren de Kevin Magnussen enfumaçada e a Red Bull de Daniil Kvyat, e apenas 15 carros alinharam. Olha que, segundo consta, os contratos do Tio Bernie com os circuitos garantem que ao menos 16 carros participarão de cada etapa. E ainda por cima havia a reestreia da Honda com seu motor que roncava tal e qual cortador de grama, o que tornou o cenário ainda mais desanimador. Ainda não é para acender a luz vermelha (não as da pista), mas é preocupante.

E teve corrida, sim, dominada como se esperava e desenhava pelas Mercedes, sem que houvesse muita ação para destacar. Ainda bem que Felipe Nasr se encarregou de garantir alguma emoção e orgulho para as cores verde-amarelas, ele que tem, sim, talento de sobra e muitos motivos para justificar a condição de titular além dos milhões de dólares de seus patrocinadores (lembremos que ganhou a última edição decente do ora defunto Inglês de F-3 e fez trabalho digníssimo como reserva na Williams). Seu xará Massa ao menos começou de forma mais animadora do que nos anos anteriores, e segue candidatíssimo a pódios, especialmente quando a estratégia dos boxes ajudar. E eu, que bravamente acompanhei toda a preparação, revoada de aviões de caça e entrevistas pré-GP, confesso que dormi nas voltas finais. Felizmente acordei a tempo de testemunhar a divertida conversa entre o vencedor Lewis Hamilton e o exterminador do futuro Arnold Schwarzenegger no pódio. Felizmente há duas semanas até a Malásia quando, espera-se, o cenário será algo mais positivo…

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