Cartão vermelho para os cartões amarelos – Coluna Sexta Marcha (GP da Hungria)

*** Se sobrou emoção e incerteza em Hungaroring, com a improvável mas merecida vitória de Lewis Hamilton, as 427 punições antes e durante da corrida (exageros e brincadeiras à parte) passaram um bocado do limite. E a coluna, tal qual foi publicada na edição impressa do Estado de Minas, questiona justamente esse excesso de zelo, que traz consigo o risco de estragar o espetáculo. Calhou de o comissário convidado em Budapeste ter conversado com este que vos escreve justamente sobre o tema – isso foi em 2012, mas continua atual e revelador, como mostram as linhas abaixo…

Cartão vermelho para os cartões amarelos

Começo com um número do GP da Hungria, domingo. Quinze. Se o leitor acha que me refiro ao total de ultrapassagens, abandonos ou mudanças na liderança ao longo das 70 voltas, se engana. Esse foi o montante de punições aplicadas durante o fim de semana, e olha que ninguém perdeu posição no grid por ter trocado um dos componentes da unidade de potência além do permitido pelas regras. E se o ideal seria louvar uma corrida que acabou sendo muito mais movimentada do que o esperado para o carrossel do Hungaroring, não dá para ignorar o tiro no pé que a Fórmula 1 se dá ao insistir num regulamento tão rígido. 

Sim, porque não é permitido passar com as quatro rodas fora dos limites da pista; arriscar uma manobra se o seu desfecho não for isento de toques ou mesmo defender a posição com qualquer coisa além de uma mudança de posição (nem uma e meia). Passe do limite e lá estão Charlie Whiting, os comissários titulares e o piloto convidado implacáveis, diante de dezenas de monitores de TV que mostram vários ângulos de todos os pontos da pista. E que boa coincidência o fato de ter sido o italiano Emmanuele Pirro, tricampeão das 24h de Le Mans e dono de um currículo interessante no circo, por Benetton e BMS Dallara, o comissário convidado em Budapeste. Porque há três anos, na etapa brasileira do Mundial de Endurance, em Interlagos, foi justamente com ele que conversei sobre o tema. Quis saber se determinadas decisões não poderiam torná-lo antipático entre os pares, ou se não seriam exageradas diante dos fatos. Lembro-me perfeitamente das palavras do simpático romano, piloto com P maiúsculo. “Não tomo decisões sozinho, somos em quatro, pelo menos, e sempre levamos em conta o que está escrito no regulamento, não se é popular ou polêmico. Há espaço para o bom senso, mas ele não pode se sobrepor a algo que pilotos e equipes sabem que é proibido, passível de punição”. Muito bem, mas então é de se questionar se o calhamaço de artigos que compõem as regras esportivas não está gastando linhas em excesso com algo que estraga o espetáculo. Valesse na F-Indy dos tempos de ouro e a antológica ultrapassagem de Alex Zanardi sobre Bryan Herta no sacarrolhas de Laguna Seca teria sido punida com três paradas nos boxes e uns 30 segundos adicionados ao tempo total, no mínimo. E essa história de punir uma infração de dois ou mais modos? Alguém usa o quinto motor, perde 10 posições no grid mas, como na prática só perderá três ou quatro, tem que pagar cinco segundos em seu primeiro pitstop. Fácil, né? E depois Bernie Ecclestone e os times reclamam que a categoria vem perdendo audiência, espaço. Está certo que não deve ser um vale tudo, que é preciso conter excessos, seja de agressividade, seja de gastos. Mas é bom começar a pensar num sistema alternativo, já que, quando o espetáculo não for tão bom quanto o de domingo, é só dessa farra de cartões amarelos que se falará.

Genio e sregolatezza É como os italianos se referem a alguém que tem um talento bem acima da média, mas acompanhado de uma imensa irresponsabilidade. E serve bem para definir Lewis Carl Hamilton e explicar por que ele ainda não pode ser içado ao mesmo nível de Ayrton Senna, Alain Prost, Michael Schumacher ou mesmo de Fernando Alonso e Sebastian Vettel. A reação à largada abaixo da crítica foi de alguém com uma força psicológica ínfima, não de um bicampeão mundial. E o arrojo na tentativa de recuperar posições indigno de quem sabe que é superior aos demais (principalmente ao companheiro de equipe Nico Rosberg). Olha que Vettel e Rosberg podem não ter condições de vencer o Mundial. Mas Hamilton pode perfeitamente perdê-lo.

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