A culpa é da empada – Coluna Sexta Marcha

Antes de mais nada, a imagem abaixo será transformada em adesivos e camisetas postos a venda na etapa de Sonoma da Indy, que definirá o campeão mais uma vez em clima de tristeza e consternação (foi assim também com Dan Wheldon), e o valor arrecadado será repassado ao fundo criado por Justin Wilson para ajudar crianças carentes. Diante da tragédia de Pocono, todo o resto fica em segundo plano e o automobilismo exibe mais uma vez seu lado triste, sua face lamentável, ao tirar a vida de um cara fora de série (dentro e fora da pista), quanto mais numa circunstância que não pode ser outra coisa a não ser estúpida – ele acabou sendo a vítima indefesa de um problema alheio.

Mas o fim de semana foi de corrida no circo e, se é o caso, especialmente depois das intermináveis férias, é tempo de coluna. Que deixa de lado o vencedor e seu domínio incontestável para falar de um comportamento inesperado de Sebastian Vettel, e de como os pilotos costumam lidar com decepções do gênero.

A culpa é da empada Pilotos de Fórmula 1 estão distantes de ser criaturas perfeitas. Lógico que não digo isso em relação ao talento, que é coisa de outro mundo chame-se você Senna, Schumacher, Lauda, Yamamoto ou Stevens (aí é uma questão de mais ou menos, mas acelerar uma máquina com mais cavalos do que quilos é coisa para pouquíssimos). Basta correr os olhos na relação dos nomes mais marcantes ao longo das quase sete décadas do Mundial e mesmo os gênios terão seus feitos acompanhados de alguma conjunção adversativa – fulano foi n vezes campeão, mas não tinha qualquer carisma; beltrano cansou de vencer GPs; no entanto, cansou de apelar para expedientes questionáveis. Exceções até há, normalmente acompanhadas de algum título de nobreza oferecido por sua majestade, a rainha – Moss e Stewart são os sobrenomes que me vêm à cabeça primeiro, aos quais eu acrescentaria Fangio e Fittipaldi, gente capaz de manter a coerência dentro e fora da pista, admirados e respeitados pelos pares, incapazes de criar polêmicas ou inimizades, conscientes das próprias virtudes e fraquezas. Pois eu confesso que me assustei com a reação de Sebastian Vettel ao furo de pneu (foto) que o fez perder o pódio no eneacentésimo (sim, o de número 900) GP da Ferrari. Até entendo a frustração depois de uma corrida de muito suor e superação, mas o tom das críticas ao fabricante de pneus foi indigno de tudo o que o piloto de Heppenheim, cidadezinha próxima a Frankfurt, fez e disse ao longo de sua carreira no circo. O tetracampeão é dos caras mais humildes, centrados e acessíveis da atual geração, capaz de atrasar em alguns segundos um compromisso com a equipe para atender um pequeno fã à espera de autógrafo, muito embora o ex-companheiro Mark Webber o tenha acusado de falta de ética e a última temporada na Red Bull tenha mostrado que o bom desempenho de um parceiro possa render reações de menino mimado. Porque sim, pneus não são feitos para estourar a mais de 300 quilômetros por hora em pleno Raidillon, como asas e suspensões da Force India não foram feitos para arrebentar ao menor toque e deixar seus comandantes em apuros (ocorreu na Hungria, lembra?), mas acontece. Que eu me lembre, nem Nelson Piquet, muito menos Nigel Mansell saíram aos tapas com a turma da Goodyear ao verem a coroa de 1986 escapar quando a borracha se mostrou incapaz de resistir às solicitações da pista de rua de Adelaide. E quando um dos caras que melhor sabem administrar o desgaste é seu companheiro de equipe e prefere fazer dois pitstops, boa parte da choradeira perde a justificativa. Normalmente pneus médios resistem 29 voltas mesmo às exigências do carrossel de Spa-Francorchamps (e as simulações dos treinos livres mostraram isso), mas não é ciência exata. E realmente se tivesse ocorrido 300 metros antes poderia ter tido um fim trágico, mas não só pela delaminação de um pneu – uma suspensão quebrada, um suporte de asa que se solta, uma pane no DRS seriam igualmente destrutivos. Sem contar que a grande mudança dos compostos deste ano em relação aos anteriores foi o reforço da carcaça, já que as unidades de potência ficaram mais fortes e jogam mais energia nas rodas traseiras. Tomara que, com a cabeça mais fria, o pai da pequena Emily reveja sua opinião e entenda que faz parte do jogo – neste aspecto, motivos para raiva muito maior teria Valtteri Bottas, que viu a corrida prejudicada por uma trapalhada da Williams. Se tem uma coisa feia envolvendo esses homens incríveis e suas máquinas maravilhosas é adotar a tática do sujeito que enche a lata, acorda mal no dia seguinte e diz que a culpa foi da azeitona da empadinha. Vettel tem crédito de sobra, mas é melhor não abusar… Infame Como falar dos títulos da Mercedes e de Lewis Hamilton não é questão de se, mas de quando, melhor pegar carona nas piadinhas envolvendo a lamentável situação da McLaren. Com 105 posições perdidas de punição pela troca de componentes acima do permitido, já há quem diga que, no GP da Itália, Fernando Alonso e Jenson Button vão largar de Roma, distante bons 480 quilômetros de Monza…

            AMG Mercedes/divulgação

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