Um Viper, um bueiro e a Justiça…

Os norte-americanos estão sozinhos quando se trata de tentar resolver qualquer tipo de pendência na Justiça. Estou pra ver algum país em que tantas coisas se tornem motivo de ação judicial, desde o cidadão que alega que queimou a boca com a torta de maçã do fast food (é sério) até o dono de equipe do Tudor United Sportscar Championship que alega ter perdido um lugar no pódio numa das etapas do campeonato devido a… um bueiro que se soltou durante a prova e acabou atingindo o carro, o que provocou seu abandono.

Quem levantou a lebre foi a revista Racer, que não é senão a emanação da Autosport nos EUA. Ben Keating, piloto e dono do Team Viper Exchange, que compete com um Dodge Viper SRT GT3, na classe GTD da endurance do Tio Sam, cobra da IMSA, organizadora da competição, e dos administradores do circuito de Laguna Seca, algo em torno de US$ 400 mil (R$ 1,6 milhão, para arredondar) de indenização por ter tido o carro atingido por uma peça de metal que se soltou na segunda volta da quarta etapa da temporada, em maio – ao que tudo indica a passagem dos protótipos teria levantado o tal bueiro.

Eu até entendo a decepção com o ocorrido, mas, assim como a história da torta, vejo um exagero imenso. Antes de mais nada, não dá para dizer que na segunda volta de uma corrida de duas horas e 40 minutos de duração qualquer resultado estaria garantido. Não sei, por exemplo, se algum piloto ou equipe chegou a alertar a direção de prova do problema – se fosse o caso, teríamos uma bandeira amarela e tudo se resolveria. O belíssimo traçado próximo a Monterey sempre foi muito bem cuidado e vamos combinar que poderia acontecer em qualquer instante, em qualquer lugar. E se Keating tivesse sido jogado para fora da pista por um rival, tentaria processá-lo também? Por essa lógica, vai chover processos contra os organizadores do GP de Cingapura, que deixaram um maluco atravessar a o circuito como se nada fosse. Sinceramente não sei o que será mais absurdo: se o fato de buscar compensação financeira por um incidente de corrida (eu sei, bueiros não devem se soltar, como guard-rails se quebrar, e por aí vai…) ou a possibilidade de se abrir um precedente perigoso e qualquer fato semelhante ser passível de indenização…

O Safari das Américas

O fim de semana marcou a 37ª edição de um dos ralis mais lendários do calendário internacional, ainda que seja praticamente território de conquista dos donos da casa. Confesso que nem eu sabia que a ideia de criar, no vizinho Paraguai, o Transchaco, surgiu de um norte-americano radicado no país que se inspirou no Rally Safari, do Quênia. E concebeu, em 1971, uma dura maratona de setores cronometrados (não são provas especiais convencionais) pela região do Chaco, numa areia espessa e poeirenta, conhecida como talco.

Os paraguaios têm uma relação de amor com os ralis toda especial – os muito endinheirados traziam máquinas de ponta do WRC – reza a lenda que o representante da Toyota no país uma vez foi ao Quênia para acompanhar o Safari (original) e, tão logo terminou o desafio, perguntou quanto custaria trazer o Toyota Celica ST que havia sido comandado por Juha Kankkunen. A japonesada chutou um valor absurdo, o que não dissuadiu o sujeito, pronto para preencher o cheque e colocar o carro no contêiner. Hoje as atrações são os R5 e Super 2000, permitidos no regulamento dos campeonatos nacional e Codasur. O principal jornal do país (ABC Color) distribui o mapa da prova, tem transmissão por rádio e um assédio todo especial do público, que sabe que não se trata de um desafio qualquer.

Pois foi um piloto com experiência de sobra pelas especiais do WRC, Alejandro Galanti, quem chegou à vitória (sua terceira), com nada menos que sete horas de provas cronometradas. Ele levou o já venerável Corolla S2000 (não é esse da foto abaixo, um sedã 4×2) à primeira posição com 43 segundos de vantagem para Gustavo Saba, com um novíssimo Skoda Fabia R5. Do terceiro em diante, as diferenças foram abissais, como é comum na prova, que viu apenas 10 dos 44 carros que largaram cumprirem toda a distância (796 km) nos três dias de disputa. Uma atração à parte são as gaiolas externas de aço montadas e desmontadas rapidamente pelas equipes, também no melhor estilo do Safari, que a ordem é se defender do melhor modo das armadilhas do caminho. Numa época de eventos pasteurizados e modificados para atender às exigências da TV, que bom que ainda há um desafio com D maiúsculo aqui pertinho… Ano que vem tem mais…

Um ídolo, dois caminhos (Coluna Sexta Marcha – GP do Japão)

        Mercedes AMG Petronas/divulgação

Não era a Suzuka de um tempo, a pista que fazia com que milhares de pessoas ao redor do mundo ficassem acordadas nas madrugadas em busca dos melhores capítulos nas decisões dos títulos mundiais de F-1 (nem sempre era a última etapa da temporada). Mas dois pilotos em especial fizeram lembrar de um terceiro; aliás, ídolo de ambos. Foi se espelhando nas façanhas de Ayrton Senna que Lewis Hamilton e Fernando Alonso foram adiante rumo ao sonho de serem também campeões.

O primeiro, você sabe, ao vencer pela 41ª vez igualou o paulista, muito embora as trajetórias não possam ser comparadas. Senna na Toleman jamais chegaria ao alto do pódio (ok, Mônaco foi um episódio isolado), por mais braço que viesse a demonstrar depois. Já o inglês começou no topo, fruto de uma carreira longamente planejada, a ponto de receber a bandeirada na frente já em 2007 e ser o melhor do mundo um ano depois. Com um terceiro título batendo à porta, dizer que é apenas uma questão de números soa exagerado.

Mas, há o outro lado, e ele chamou a atenção tanto ou mais do que o extremo oposto do pelotão. Alonso é um piloto muito acima da média, e eu não estou sozinho ao dizer que, no conjunto da obra, fez mais do que Vettel, Hamilton, Button ou Räikkönen. Só que consegue destruir com um temperamento característico tudo de bom que mostrou na pista.

Lembremos que ele se considerou prejudicado na McLaren ao notar que parte do time preferia ver o sucesso do garoto estreante que praticamente nasceu para o automobilismo em Woking. Voltou para a Renault e precisou de manobras escusas para vencer novamente. Viu na Ferrari a chance dourada de dar fim à seca e se tornar também ele um tricampeão, esquecendo-se de que a harmonia (seja com Schumacher e um número 2, seja com Massa e Räikkönen trabalhando juntos) foi o segredo dos sucessos do Cavallino nos anos anteriores. Qual uma prima donna, passou a atacar o comando técnico do time ano passado, dizendo que não havia evoluções suficientes para sonhar com o título. E a promessa furada de encerrar a carreira vestido de vermelho deu lugar à chance de… reescrever a história na McLaren. Até onde consta, não deixou muitos amigos ou saudade em Maranello.

Caso o asturiano não saiba, nada na F-1 se ganha no papel ou com base no passado. Sim, McLaren e Honda tiveram bela história juntas, com Senna e Prost nos volantes, mas podia não dar certo, como não tem dado. E dizer para uma audiência planetária, na pista da montadora, diante de seu presidente, que o motor é “digno de GP2”, fosse eu dono de equipe, era motivo de dispensa com justa causa. Se o objetivo fosse realmente melhorar o clima, bastava demonstrar toda a irritação nos bastidores, longe de microfones e câmeras. No caso, mais uma vez parece forçar a barra para sair chutando a porta. O problema é que a Red Bull anda cada vez mais desinteressada e a solução lógica, a Renault (se é que a novela da recompra da Lotus vai chegar ao fim) tem tudo para desenvolver um carro capaz apenas de superar a McLaren, não andar lá na frente.

Até nisso, na capacidade de conseguir o que queria nem sempre do modo mais bonito, o ídolo de Alonso era muito mais competente. E quando teve nas mãos um equipamento inferior (o motor Ford de 1993, diante de uma Williams imbatível), mostrou que era possível vencer sim, dando show ainda por cima. E o pior é que, da mesma maneira com que fez seu país se apaixonar pelo circo, pode despertar indiferença de igual tamanho. Pena que corra o risco cada dia maior de entrar para a história não pelos dois campeonatos vencidos, mas pela fama de chato, reclamão e incapaz de honrar seus compromissos lidando com o que tem nas mãos. 

Agenda de bastante lá e quase nada aqui…

Este é daqueles finais de semana curiosos, em que a ação da velocidade está praticamente concentrada a milhares de quilômetros daqui, com três mundiais, o DTM e as categorias da Renault (no ano que vem a 3.5 perde o apoio da montadora, que arrasta as negociações para a volta à F-1, mas já tem tudo definido) em momentos decisivos, assim como o Europeu de F-3, que tem no mineiro Sérgio Sette Câmara – aqui a foto do Masters de Zandvoort, em que ele foi brilhante terceiro – uma das agradáveis revelações de uma temporada competitiva. A Nascar, já na fase de playoffs de seu Chase, encara o enjoado traçado de Loudon, em New Hampshire, com a luta desesperada dos finalistas para permanecer na briga. Bastante coisa boa, praticamente tudo de longe…

Internacional

Mundial de Fórmula 1: 14ª etapa – GP do Japão (Suzuka)

Mundial de Moto GP: 14ª etapa  – GP de Aragón (Motorland-ESP)

Mundial de Turismo (FIA WTCC): 10ª etapa – Xangai (CHI)

DTM: oitava etapa – Nurburgring

Europeu de F-3: 10ª etapa – Nurburgring

Nascar Sprint Cup: 28ª etapa – Sylvania 300 (New Hampshire)

Nascar Xfinity Series: 27ª etapa – Visit Myrtle Beach 300 (Kentucky)

Nascar Camping World Truck Series: 17ª etapa – Unoh 125 (New Hampshire)

Renault 3.5 World Series: oitava etapa – Le Mans

Europeu de F-Renault: sexta etapa – Le Mans

Nacional

Moto 1.000 GP/Brasileiro de Motovelocidade: sexta etapa – Goiânia

Na telinha

Sábado (26)

2h55          F-1: GP do Japão (treino oficial)                  Sportv/Globo (*)

(*) apenas o Q3

7h30          Moto GP: GP de Aragón (treinos oficiais)   Sportv

21h         Nascar Xfinity Series: etapa de Kentucky    Fox Sports 2

Domingo (27)

2h    F-1: GP do Japão                       Globo

6h          Moto GP: GP de Aragón (Moto3/Moto2/Moto GP)   Sportv

15h    Nascar Sprint Cup: etapa de New Hampshire    Fox Sports 2

O novo carro de um velho conhecido…

Difícil alguém que acompanhe os ralis pelo mundo e nunca tenha ouvido falar de Gianluigi Galli (Gigi Galli), um dos mais espetaculares pilotos da modalidade nos últimos tempos, não por acaso muitas vezes comparado, como generosidade da forma de conduzir e pelo espírito combatente, ao saudoso Colin McRae. Dos compatriotas, Galli recebeu o apelido, justificadíssimo, de Acrobata de Livigno, tal a capacidade de desafiar as leis da física sobre quatro rodas. Apesar de tanto talento, nem sempre o equipamento esteve à altura e, não fosse muito esforço em busca de patrocinadores e equipes, ele não teria completado 66 ralis no WRC, dois deles no pódio, quando os principais rivais se chamavam Loeb, Burns, Sainz, McRae, Gronholm, Solberg, Gardemeister e Hirvonen, apenas para citar os principais. O ano de 2008, com um Focus WRC do time satélite M-Sport Stobart prometia ser o mais positivo, até que um forte acidente na Alemanha encerrou a temporada antes da hora e fechou as portas do Mundial para o italiano.

Galli não quis se enveredar pelos ralis cross-country, muito menos se contentar em acelerar em provas nacionais e continentais. Seguiu como instrutor de pilotagem, participava de um evento aqui, outro ali, mas nunca escondeu de ninguém que gostaria de voltar a competir de forma séria. No ano passado teve a chance de disputar a etapa de casa do Mundial de Rallycross com um Fiesta do Team Olsbergs e, por muito pouco, não avançou à final.

A vontade de voltar pesou e, com o incentivo dos vários fãs e a ajuda de Giovanni Bernacchini, navegador campeão do mundo do WRC2, com Nasser al-Attiyah e filho do não menos lendário Arnaldo Bernacchini, o acrobata de Livigno resolveu fazer melhor: criou uma equipe e desenvolveu um modelo que não existia nas competições, o Kia Rio, cujas dimensões e linhas são ideais para o RX. Eis que, pouco antes da volta do campeonato à pista de Franciacorta, próxima a Brescia, foi revelada a bela máquina, que chega para colocar o nariz entre as de Solberg, Hansen, Kristofferson, Ekstrom e outras feras. Dificilmente vai ficar só numa etapa e, se não vier apoio para o Mundial, pelo título europeu com certeza haverá briga em 2016. O que é muito bom para quem gosta da velocidade em doses cavalares e de pilotos com carisma…

De um circo para o outro

Há três anos contei para o leitor do blog que o filho de um dos criadores e hoje dono da maior compania de circo do planeta resolveu encarar as pistas de kart rumo ao sucesso no automobilismo, ainda por cima com sangue brasileiro nas veias. Encontrei Kami Lalibertè e o pai, Guy, no paddock do circuito espanhol de Zuera, onde o pequeno disputava a Copa do Mundo de Kart (categoria KF Júnior), contra, entre outros, os brasileiros Sérgio Sette Câmara e Giuliano Raucci. Guy, se você não sabe, é a cabeça pensante do Cirque du Soleil, uma máquina de entretenimento e sonhos nascida no Canadá, que, na sua trupe, reúne milhares de pessoas pelos quatro cantos do mundo.

Kami, pra que você entenda, também nasceu no Canadá, mas de mãe brasileira, mineira aliás. Ele se apaixonou pela velocidade ao ser convidado para acelerar pelo amigo Lance Stroll, outro canadense que desponta no cenário internacional com um tremendo suporte familiar – o pai, Lawrence, tem empresas que fabricam equipamentos militares e é o acionista principal da grife Tommy Hilfiger.

Pois, se Lawrence comprou a equipe Prema pela qual o herdeiro disputa o Europeu de Fórmula 3 (e já teria sondado a Sauber, a Manor e a Toro Rosso querendo fazer o mesmo na F-1), chega de lá a notícia de que Guy Laliberté fez o mesmo com outra escuderia, a holandesa Van Amersfoort, campeã ano passado com Max Verstappen. Kami está disputando de forma mais do que digna o Francês de F-4 (tem Giuliano Alesi, filho de Jean, como um dos adversários) e o passo na próxima temporada é natural, irreversível. Frits van Amersfoort continuará no comando, mas a grana terá origem do outro lado do Atlântico. É o caso de dizer, sem trocadilho infame, que os Laliberté, de um circo, vão é se aproximar de outro…

O metrô, o maluco e os pelados (GP de Cingapura)

           Scuderia Ferrari/divulgação

Você talvez se lembre de um GP de Cingapura – não o de 2008, em que Flavio Briatore e Pat Symonds, hoje na Williams arquitetaram a vitória de Fernando Alonso no melhor estilo Dick Vigarista – em que Mark Webber abandonou com a Red Bull inerte e a equipe encontrou no metrô da cidade a causa do problema. Sim, possíveis interferências teriam provocado a pane nos sistemas eletrônicos do RB4.

Pois parece que o sistema de transporte da cidade-estado asiática resolveu novamente aprontar das suas, tamanha a quantidade de gente que ficou pelo caminho domingo com as máquinas desobedientes. Se bem que a Mercedes garante que o abandono de Lewis Hamilton se deveu a uma abraçadeira das mangueiras do turbo, a famosa “peça de R$ 25”. E no caso de Nico Hulkenberg não dá para falar em pane no cérebro por conta da disputa de curva com Felipe Massa (outro que foi vítima dos caprichos do equipamento), já que, numa pista em que se passa tão pouco, qualquer oportunidade, ainda que arriscada, teria mesmo que ser agarrada com unhas e dentes.

Já no caso do sujeito que confundiu as ruas de Marina Bay… com as ruas de Marina Bay (fora de fim de semana de GP), mais uma vez correu-se um risco nada bom para a imagem do circo, ainda marcada pela perda de Jules Bianchi, cujo acidente completa exato um ano, e por incidentes como o do outro maluco que atravessou a pista de Xangai em nome do sonho de pilotar uma Ferrari. Toto Wolff foi até bem-humorado ao comentar que o sujeito vinha de alguma festa movido a várias cervejas, mas já seria inaceitável no trânsito normal, o que dirá acima dos 240km/h, tal como se chegava naquele ponto da pista.

Pois se faltava algo para apimentar a corrida, foi o domínio incontestável da Ferrari, no melhor estilo Mercedes. Sebastian Vettel foi, viu e venceu, assim como um rival igualmente louro (mas artificial) num carro prateado tem feito. Desde muito tempo a equipe de Maranello havia marcado um x no GP de Cingapura como aquele que poderia ter as melhores chances, mas não imaginava que a capacidade de tirar o máximo dos pneus mais macios da Pirelli seria tamanha, e que os principais rivais andariam tanto na direção contrária.

Lógico que o melhor seria ver uma briga que não houve, e dificilmente haverá nas paradas restantes do calendário (o México, que volta, quem sabe? Interlagos?). Mas o que mais me preocupou mesmo foi algo cantado em verso e prosa lá no começo do ano, quando o renovado comando ferrarista, talvez escolado pelos fracassos recentes, afirmou que se contentaria com duas vitórias no ano. E que, se viesse uma terceira, seria o caso de sair pelado pelas ruas da pacata Maranello. Pelo bem do esporte, taí uma promessa que não precisa ser cumprida.

Adeus?

Ao que tudo indica, o desempenho pífio (mais um) no fim de semana foi a pá de cal na expectativa de Jenson Button em permanecer na McLaren, e na F-1. Se ano passado ele fez de tudo para ficar, agora que poderia cumprir o segundo ano de contrato parece ter enchido a paciência e é mais um que pretende ser feliz em outras bandas (ou categorias). No estágio atual não, mas se a parceria com a Honda tivesse rendido o esperado, ele ainda seria um nome de peso no pelotão da ponta. Conhecendo o histórico de equipe e fabricante de motores, só dá para considerar errado o timing da reunião, já que correr atrás sem poder testar e com um ano de defasagem para a concorrência foi demais para a dupla.

Será que agora vai?

No fim do ano passado, a situação vivida pelo norte-americano Alexander Rossi e sua aventura para finalmente estrear na F-1 foi assunto de um post do blog, que mostrou como o nativo de Auburn se tornou um dos que mais estiveram próximos do feito sem conseguir. Só para recapitular, ele era piloto de testes da Caterham e preferiu se mudar para a então Marussia. Quando o titular Max Chilton teve problemas (financeiros) no GP da Bélgica, Rossi estava destinado a finalmente estrear; fez o primeiro treino livre, mas Chilton conseguiu os dólares a tempo. Depois houve o episódio envolvendo Jules Bianchi, e Rossi seria o substituto natural. Seria, pois o time britânico, em crise, abandonou as últimas corridas. Enquanto isso, a Caterham, com sua vaquinha, conseguia alinhar em Abu Dhabi…

Rossi se resignou a mais uma temporada na GP2, acompanhando à distância a aventura de sua compatriota Haas F-1, sem grande chance (ao que tudo indica) de competir pelo time estreante em 2016. Sabia-se que o espanhol Roberto Merhi vinha correndo em troca de patrocínios pequenos (bem abaixo das fortunas normalmente exigidas mesmo nas escuderias nanicas), e ele até resistiu muito diante da cobiça alheia. Pois hoje a Manor confirmou oficialmente que Rossi ocupará o posto de Merhi em Cingapura, México, Japão, no seu país natal e no Brasil – em Sochi e Abu Dhabi se concentrará na categoria inferior, em que deve ficar com o vice-campeonato. Ano passado comentei que o norte-americano não é a oitava maravilha das pistas, mas não fica a dever a Merhi e não deve fazer feio na grande chance. De todo modo, é sempre bom bater na madeira e dar mais uma benzida. Ô estreia complicada…

Chance de pôr ordem na bagunça

Um dos grandes avanços na atual gestão da FIA foi a criação de uma comissão de pilotos que envolve homens e mulheres com muitos quilômetros de pista nas costas para deliberar sobre medidas de segurança, regras dos campeonatos e sugerir formas de tornar o esporte mais democrático e meritocrático – por acaso o presidente do organismo é um “tal” de Emerson Fittipaldi, bem como o vice, um certo Tom Kristensen, só tem nove vitórias nas 24h de Le Mans no currículo – e ainda temos Nigel Mansell, Carlos Sainz (o pai), Emmanuele Pirro, Marcus Gronholm, Susie Wolff, Yvan Muller e o multicampeão de kart Danilo Rossi entre os integrantes.

Pois eles se reuniram hoje em Paris para discutir assuntos vários e, entre eles, surgiu a proposta de se criar uma espécie de curso para quem sai do kart e quer pular para os monopostos (especialmente quando o salto é grande, rumo à F-3, por exemplo). As provas do Europeu deste ano mostraram como a molecada tem talento de sobra mas, por vezes, parece esquecer que não está mais nos carrinhos sem suspensão e asas. Houve acidentes feios e os comissários andam tendo muito trabalho para enquadrar os mais arrojados.

Ainda estamos falando de uma ideia mas, mesmo com tanta gente disposta a seguir carreira mundo afora, não seria algo tão difícil. Mesmo porque a ideia é envolver não só as feras citadas, como outras (Alexander Wurz, Ari Vatanen e Pedro de La Rosa estão entre os envolvidos em programas de formação e segurança da FIA) para um trabalho online. E poderia haver algum tipo de supervisão local, talvez testes coletivos teóricos e práticos para deixar bem claro o conhecimento das bandeiras, sinalizações, limites de pista, condições de ultrapassagem e manobras permitidas ou não. Já tem gente nas redes sociais dizendo que seria só mais uma forma de angariar dinheiro da pilotada, mas eu vejo de outra forma. Primeiro porque fazer milhares de quilômetros de testes não necessariamente significa estar preparado do ponto de vista mental e atitudinal. Segundo, porque é melhor não pagar para ver quem sabe o que fazer e em que hora, e quem não…

Filho de projetista, piloto é…

Era uma vez um projetista que, menino ainda, teve na Copersucar a primeira chance de mostrar serviço e, desde então, se especializou em conceber máquinas que entraram para a história da Fórmula 1, da March CG881 às linhagens de carros da Williams e da McLaren que proporcionaram tantos títulos às duas escuderias. Um conterrâneo de William Shakespeare que, uma vez parte de uma aventura chamada Red Bull, fez um grupo praticamente sem tradição no circo (ok, era Stewart e Jaguar antes mas, ainda assim…) se tornar uma potência que só mesmo a fragilidade do motor Renault fez cortar as asas.

Lógico que o leitor já sacou que me refiro a Adrian Newey, de tal forma apaixonado e obcecado pela velocidade que resolveu se divertir não apenas diante da tela do computador (aliás, dizem que ele não gosta, prefere a boa e velha prancheta), como também mostrou que é um piloto bastante razoável, a ponto de disputar as 24h de Le Mans, eventos históricos na sua Inglaterra natal e outras provas de longa duração inclusive a bordo de uma Maserati MC12, um dos GT1 mais extremos já produzidos. Aliás, é só chamar para participar de uma prova do troféu da fábrica italiana destinado aos GranTurismo MC que ele marca presença.

O que o leitor talvez não saiba é que a continuidade do sobrenome nas pistas não deve se dar na mureta dos boxes, mas acelerando no asfalto mesmo. Harrison, filho de Adrian, resolveu levar adiante o sonho de uma carreira e, depois de uma trajetória no mínimo regular no kart, encarou este ano o Inglês de F-4, ainda não disputado conforme o regulamento internacional da categoria, mas equilibrado e formativo assim mesmo.

Pois estamos a uma rodada do fim do campeonato e, se o título foi garantido por outro piloto de sobrenome conhecido (Will Palmer, filho de Jonathan e irmão mais novo de Jolyon), o jovem (17 anos) Harri Newey faz bonito e está muito próximo de confirmar o vice-campeonato. Neste fim de semana, em Donington Park, venceu uma corrida, sua primeira na temporada, e confirmou que entende do riscado. Talvez seja prematuro pensar num salto para o Europeu de F-3, mas, quem sabe um ano no Alemão ou no Italiano de F-4 (do primeiro ele já tem participado) ou a mudança para a F-Renault sejam bons passos para um moleque que, se for 40% na pista do que o pai é fora dela, vai chegar longe…

BRDC F4/divulgação