Sobre tokens e psi (Coluna Sexta Marcha – GP da Itália)

Eis que o GP da Itália não foi um primor de emoção, ao menos em se tratando da luta pela ponta que, a essa altura, praticamente inexiste – e nem é o caso de dizer que o cada vez mais próximo tricampeonato de Lewis Hamilton não seja merecido. O que anda tirando a graça dos GPs não é nem tanto a dominação insolente das Mercedes, mas outros aspectos que são o tema da coluna sobre Monza, tal e qual publicada no Estado de Minas…

      Mercedes AMG Petronas/divulgação

Sobre tokens e psi’s

O leitor saberia dizer, no jargão da Fórmula 1, o que é um token? E conseguiria quantificar 0,3 psi’s? Se a resposta para as duas perguntas foi não, foi direto ao ponto que faz com que a categoria se afaste de sua essência justamente ao tentar garantir o espetáculo e a disputa justa. Longe de ser saudosista, mas houve tempos em que tudo era menos gigante e muito mais simples – e também então, como agora, havia GPs interessantes e outros de dar sono e vontade de desligar a TV.

E nem era o caso de atentar contra o próprio espírito, como se fez recentemente, com medidas no mínimo questionáveis. É entrar um safety car na pista (e aí a segurança vem em primeiro lugar, concordo) e os retardatários têm a chance de tirar a volta de atraso, tal como se faz nas categorias norte-americanas. Aliás, não sei como ainda não instituíram o conceito do Lucky dog, o sortudo piloto que foi o último ultrapassado pelo líder e, a cada neutralização, volta a entrar no pelotão que briga pela vitória. Coisa que pode funcionar na Nascar, não na categoria que é a máxima expressão da tecnologia automotiva.

Para voltar ao título da coluna, os tokens são os créditos de que dispõem os fabricantes de motores para evoluir suas unidades de potência ao longo da temporada. Os componentes dos propulsores são divididos em 66 créditos, dos quais cinco imutáveis depois do ano passado. Nessa temporada, era possível mexer em 32 deles (algumas peças tem peso um, outras peso dois ou três) – depois de uma batalha de bastidores, a FIA aceitou que as modificações ocorressem ao longo do campeonato.

Tudo isso para explicar que a Mercedes (por enquanto apenas o time de fábrica) esgotou, desde Monza, os tokens restantes (eram sete). No carro de Lewis Hamilton, porque Nico Rosberg, com problemas, teve de voltar para uma versão menos evoluída. E se a Ferrari contava com três tokens a mais em seu V6, pode ter sido o suficiente para andar próximo na qualificação, não na corrida.

Aí é que eu volto a perguntar: toda essa conversa faz diferença para você? Torna a categoria mais atraente? Para mim a resposta é um redondo não – parece que a FIA, Bernie Ecclestone e os times fizeram como o cachorro que tenta morder o próprio rabo. Criaram uma unidade de potência que é um primor em termos de economia de combustível, durabilidade e respeito ao meio ambiente, mas que é tão complexa que acaba desviando o foco da pista.

Assim também com a pressão dos pneus – sim, o psi a que me referi lá no alto é a sigla para libra força por polegada quadrada. Ocorre que não só pelos problemas de Spa-Francorchamps, mas também por eles, a Pirelli determinou, não recomendou, que os pneus dianteiros tivessem pressão máxima de 19.5 psi e os traseiros, de 21 (e você coloca seus 30 no carro de rua, só para comparar…).

Eis que a turma da fábrica italiana vai controlar os sapatos dos quatro primeiros carros no grid e descobre que justamente os carros do vencedor, Hamilton, e de seu companheiro Nico Rosberg estão, por assim dizer, com os pneus mais murchos do que o exigido. No caso do #44, eram 0.3 psi; no #, 1.1 psi. Só para ficar mais claro, com o aumento da temperatura devido ao uso, a pressão aumenta naturalmente (e pneus mais cheios rendem menos). Com a conversa de que tirou os cobertores térmicos antes do que deveria, a Mercedes escapou sem punição (e no caso do vitorioso até seria mais fácil justificar uma diminuição residual). Mas não deixa de ser curioso que exatamente o carro de Rosberg tenha abandonado duas voltas antes do fim, já que ele dificilmente escaparia sem punição. Teoria da conspiração? Talvez mais uma faceta de uma F-1 que se tornou tão policiada e vigiada que se arrisca a perder a graça…

No devido lugar

Não apenas pela corrida de domingo, mas pelo conjunto da temporada, Felipe Massa cala a boca de todos os que defendiam sua aposentadoria já quando da saída da Ferrari. Especialmente porque a comparação com um companheiro de equipe jovem e talentoso costuma ser a porta de saída do circo. Se Valtteri Bottas é realmente tudo isso – e eu não acho que seja tanto assim –, deve estar acusando o golpe. E o brasileiro, como deve ser, se diverte e tira o melhor do equipamento, consciente de que a chance de 2008 não se repetirá. Desse jeito, já aparece em quarto na classificação. E seria difícil querer mais.

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