Um ídolo, dois caminhos (Coluna Sexta Marcha – GP do Japão)

        Mercedes AMG Petronas/divulgação

Não era a Suzuka de um tempo, a pista que fazia com que milhares de pessoas ao redor do mundo ficassem acordadas nas madrugadas em busca dos melhores capítulos nas decisões dos títulos mundiais de F-1 (nem sempre era a última etapa da temporada). Mas dois pilotos em especial fizeram lembrar de um terceiro; aliás, ídolo de ambos. Foi se espelhando nas façanhas de Ayrton Senna que Lewis Hamilton e Fernando Alonso foram adiante rumo ao sonho de serem também campeões.

O primeiro, você sabe, ao vencer pela 41ª vez igualou o paulista, muito embora as trajetórias não possam ser comparadas. Senna na Toleman jamais chegaria ao alto do pódio (ok, Mônaco foi um episódio isolado), por mais braço que viesse a demonstrar depois. Já o inglês começou no topo, fruto de uma carreira longamente planejada, a ponto de receber a bandeirada na frente já em 2007 e ser o melhor do mundo um ano depois. Com um terceiro título batendo à porta, dizer que é apenas uma questão de números soa exagerado.

Mas, há o outro lado, e ele chamou a atenção tanto ou mais do que o extremo oposto do pelotão. Alonso é um piloto muito acima da média, e eu não estou sozinho ao dizer que, no conjunto da obra, fez mais do que Vettel, Hamilton, Button ou Räikkönen. Só que consegue destruir com um temperamento característico tudo de bom que mostrou na pista.

Lembremos que ele se considerou prejudicado na McLaren ao notar que parte do time preferia ver o sucesso do garoto estreante que praticamente nasceu para o automobilismo em Woking. Voltou para a Renault e precisou de manobras escusas para vencer novamente. Viu na Ferrari a chance dourada de dar fim à seca e se tornar também ele um tricampeão, esquecendo-se de que a harmonia (seja com Schumacher e um número 2, seja com Massa e Räikkönen trabalhando juntos) foi o segredo dos sucessos do Cavallino nos anos anteriores. Qual uma prima donna, passou a atacar o comando técnico do time ano passado, dizendo que não havia evoluções suficientes para sonhar com o título. E a promessa furada de encerrar a carreira vestido de vermelho deu lugar à chance de… reescrever a história na McLaren. Até onde consta, não deixou muitos amigos ou saudade em Maranello.

Caso o asturiano não saiba, nada na F-1 se ganha no papel ou com base no passado. Sim, McLaren e Honda tiveram bela história juntas, com Senna e Prost nos volantes, mas podia não dar certo, como não tem dado. E dizer para uma audiência planetária, na pista da montadora, diante de seu presidente, que o motor é “digno de GP2”, fosse eu dono de equipe, era motivo de dispensa com justa causa. Se o objetivo fosse realmente melhorar o clima, bastava demonstrar toda a irritação nos bastidores, longe de microfones e câmeras. No caso, mais uma vez parece forçar a barra para sair chutando a porta. O problema é que a Red Bull anda cada vez mais desinteressada e a solução lógica, a Renault (se é que a novela da recompra da Lotus vai chegar ao fim) tem tudo para desenvolver um carro capaz apenas de superar a McLaren, não andar lá na frente.

Até nisso, na capacidade de conseguir o que queria nem sempre do modo mais bonito, o ídolo de Alonso era muito mais competente. E quando teve nas mãos um equipamento inferior (o motor Ford de 1993, diante de uma Williams imbatível), mostrou que era possível vencer sim, dando show ainda por cima. E o pior é que, da mesma maneira com que fez seu país se apaixonar pelo circo, pode despertar indiferença de igual tamanho. Pena que corra o risco cada dia maior de entrar para a história não pelos dois campeonatos vencidos, mas pela fama de chato, reclamão e incapaz de honrar seus compromissos lidando com o que tem nas mãos. 

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