Sem deixar saudades (Coluna Sexta Marcha – GP de Abu Dhabi)

É, meus amigos… Não sei quanto a vocês, mas a 66ª temporada do Mundial de Fórmula 1 chega ao fim com a certeza de que, no meu caso, não deixará saudades. Olha que não é de hoje que, neste espaço, venho falando do que infelizmente se tornou assunto e não deveria ser, e a última bandeirada do ano, em Abu Dhabi, apenas reforça uma impressão construída ao longo de 19 GPs.

Talvez até, se eu ficasse apenas no que se passou em Yas Marina, pudesse manter o título “Mais do mesmo, parte 3”. Afinal, com as posições praticamente definidas de véspera, como no México e em Interlagos, os assuntos voltaram a ser a incapacidade da Mercedes em administrar a rivalidade entre seus pilotos com algum jogo de cintura; a relação de amor e ódio entre Fernando Alonso e a McLaren; a forma lastimável pela qual a Lotus chegou até aqui, devendo mundos e fundos, e a polêmica envolvendo o futuro da Red Bull. Sim, Nico Rosberg venceu de novo e chegou à sexta pole consecutiva, mas eu pergunto: fez alguma diferença?

Porque se finalmente Toto Wolff aceitou que seus pilotos pudessem escolher estratégias diferentes, apenas jogou para a galera. Lewis Hamilton jurava ser capaz de levar o carro ao fim do GP sem um segundo pitstop, mas foi impedido de provar. E se a decisão de optar pelos pneus macios (e não os supersoft) no último stint da temporada foi tomada também dos boxes, pior ainda.

E é impressionante como, para praticamente tudo e todos este ano, a culpa sempre foi do outro. Poucos pitstops? Culpa da Pirelli, que ainda tinha de administrar as cobranças das equipes e ficou com fama de má ao ditar as pressões seguras para os pneus na reta final do ano. Equipes na pindaíba? Culpa das grandes, que bateram o pé por um regulamento em que o fornecimento de motores ao longo da temporada custa impressionantes US$ 30 milhões, e hoje não aceitam que um propulsor “alternativo” seja oferecido aos pequenos. Para completar a festa (e isso eu já havia comentado aqui), essa história de punir um piloto com a perda de 15, 30, 50 posições depois da troca de algum componente da unidade de potência além do permitido, só aumentou a confusão na cabeça do pobre torcedor, que vê uma coisa na pista, e outra na realidade.

Pensar que teve gente com muitos anos de janela defendendo a volta da F-1 aos “tempos mágicos das décadas de 1980 e 1990, quando vários times e pilotos brigavam pela ponta”. Deve ter tido crise de amnésia, esquecendo-se que, de 1987 a 1990, um time dominava sozinho e os outros limitavam o estrago (e eu nem comento a Williams do período 1992/1993). Mas ao menos eram rivalidades de verdade, não confrontos administrados dos boxes sem a menor diplomacia.

E o pior de tudo é que, com o andar da carruagem, é praticamente impossível esperar que, com alguns detalhes, será possível trazer de volta tudo o que anda em falta no circo. Não se vai enxugar a programação dos GPs, e, por outro lado, não se pode aproveitar o tempo de pista para que as equipes façam os testes que não podem fazer durante a temporada (imagine se cada uma pudesse usar, ao menos às sextas-feiras, um terceiro carro). Aliás, é até engraçado que as sessões extra-oficiais entre as corridas tenham sido banidas em nome de uma pretensa economia, quando se gasta os tubos nos computadores, túneis de vento e simuladores.

       Mercedes AMG Petronas/divulgação

O mais preocupante é notar que a ideia de modificar radicamente os carros para apimentar o espetáculo, com pneus maiores, motores mais potentes e mais trabalho para pilotos e equipes, ainda não saiu exatamente do estágio de ideia, o que é um bocado tarde para entrar em vigor em 2017. E enquanto não mais que uma escuderia trabalha para se juntar à brincadeira (lembremos que a seleção feita este ano pela FIA não foi adiante por falta de propostas sérias e fortes o suficiente), não falta gente ameaçando fechar os boxes e encerrar as atividades. Longe de mim desenhar um cenário catastrófico, mas, como também já havia dito antes, se continuar assim, a galinha dos ovos de ouro das pistas do mundo vai virar churrasco. Tomara que não seja tarde demais…

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Já tem carro 2016 na área…

Perder nunca é bom, em se tratando das categorias de ponta do automobilismo internacional. Perder para uma empresa do mesmo grupo, então, é algo engolido de forma amarga pelos lados de Ingolstadt – estou falando da Audi que, no Mundial de Endurance de 2014, já havia sido superada pela Toyota, embora tenha triunfado novamente nas 24h de Le Mans. Este ano, nem uma coisa nem outra, enquanto a Porsche deu as cartas, fazendo a festa com Mark Webber, Brandon Hartley e Timo Bernhard.

Pois no evento de encerramento de sua temporada esportiva, a turma dos quatro aneis, que, a bem da verdade, nem teve tanto a comemorar assim, resolveu antecipar a arma com que espera retomar a dominação no FIA WEC. Estamos diante de uma nova encarnação do R18, não mais empurrada pela energia acumulada em um volante de inércia (Flywheel), mas por baterias de lítio, tal e qual a concorrência, e agora na segunda maior classe de recuperação de energia, a de 6 megajoules. O que significa que o motor diesel terá menor parcela na potência total.

Se o chassi é o mesmo, com alguns ajustes, a aerodinâmica foi totalmente revista, e impressiona a dianteira com farois na vertical, além das laterais da asa traseira, totalmente redesenhadas. A turma comandada por Wolfgang Ullrich, que, espera-se, parou de pedir a seus pilotos que acertem os adversários (isso foi no DTM, pra quem não viu) resolveu trabalhar de forma metódica em busca dos detalhes. Nas redes sociais o novo desenho dividiu opiniões, mas carro bonito, nunca é demais lembrar, é o que ganha corridas… O detalhe é que, talvez por conta dos escândalos de emissão de poluentes da casa-mãe Volkswagen, os “irmãos-rivais” decidiram, em comum acordo, alinhar apenas duas máquinas cada na maratona da Sarthe. Se a Toyota fizer bem o dever de casa com seu inédito TS050, vem briga boa por aí…

         Audi Communications Motorsport

Agenda de boas corridas e poucas decisões…

Novembro já se vai e, com ele, os campeonatos internacionais que ainda não haviam encerrado as atividades na temporada. Olhando a lista abaixo até que não dá para reclamar do que o fim de semana reserva nas pistas do mundo, com três mundiais, GP2 e GP3. A questão é que, da relação, apenas GP3 e o Mundial de Rallycross (na foto, o provável bicampeão Petter Solberg) ainda não conhecem seus campeões e dependeram da última etapa para fazê-lo. Se a F-1 ano passado vivia a expectativa dos pontos duplos na visita a Abu Dhabi (reforço que fui e continuo contra), desta vez é apenas o terceiro de uma série de amistosos que pouco acrescentam ao panorama do circo este ano, já que nada há a ser decidido. Assim também com o Mundial de Turismo e a GP2, dominados pelos respectivos canibais, que respondem pelos nomes de José Maria López e Stoffel Vandoorne. Que fizeram a sua parte e não têm culpa de dominar com tamanha insolência. Com os campeonatos nos EUA já em férias, este espaço tende a encolher a cada semana que passa, mas, se tiver corrida, estará no blog…

Internacional

Mundial de Fórmula 1: 19ª etapa – GP de Abu Dhabi

Mundial de Turismo (FIA WTCC): 12ª etapa -Losail (Catar)

Mundial de Rallycross (FIA RX): 13ª etapa – Rosario (ARG)

GP2: 11ª etapa – Abu Dhabi

GP3: nona etapa – Abu Dhabi

Nacional

Endurance: 500 Milhas de Londrina

Brasileiro de Motovelocidade/Moto 1000GP: última etapa – Curitiba

Na telinha

Sábado (28)

6h20            GP3: etapa de Abu Dhabi               Sportv

7h55            Mundial de F-1: GP de Abu Dhabi (treino livre)               Sportv

11h              Mundial de F-1: GP de Abu Dhabi (treino oficial)               Sportv

12h35          GP2: etapa de Abu Dhabi                         Sportv

Domingo (29)

6h50       GP3: etapa de Abu Dhabi               Sportv

7h35       GP2: etapa de Abu Dhabi                         Sportv

11h              Mundial de F-1: GP de Abu Dhabi       Globo

Sim, se pode…

Primeiro semestre de 2012. Sim, há quase quatro anos chegava a meu conhecimento a ideia de construir um autódromo internacional em Curvelo, distante 160 quilômetros de Belo Horizonte, o que seria mais uma de tantas tentativas, projetos, sonhos. Ainda que no início houvesse poucos elementos que garantissem o sucesso da empreitada, valia a pena acreditar, mesmo porque todo o tipo de ajuda, seja com uma simples divulgação neste espaço, seria importante para fazer a pequena bola de neve rolar ladeira abaixo, transformando-se numa avalanche.

Houve um primeiro terreno, um primeiro esboço de pista, tanto um quanto o outro mudaram, mas a ideia louca seguiu adiante, talvez de forma mais forte do que eu pudesse imaginar. Olha que por muito tempo eu acompanhei de longe, até ter a chance de conhecer tudo de perto, ao lado dos organizadores da F-Truck, que saíram entusiasmados da visita, muito embora o traçado ainda estivesse desenhado na terra. Voltei alguns meses depois e não só pude descobrir como ele ficou coberto por algumas camadas de asfalto, como ter a sensação de acelerar com meu carro de rali ao longo dos mais de quatro quilômetros de extensão e entender um pouco do que tanto se comentava sobre o desenho, que não precisou de nenhum Herman Tilke, é brasileiríssimo, assim como várias soluções encontradas para tornar o complexo mais eficiente e seguro.

Hoje o Circuito dos Cristais é tanto uma realidade que já aparece na primeira versão do calendário da Stock Car para 2016, como a penúltima prova da temporada. E a Truck também é presença quase certa, assim como a primeira edição do Mineiro de Motovelocidade – e na esteira dele os certames da Moto 1.000GP e do Superbike Series Brasil. E se houve narizes torcidos e expressões de ironia e descrédito quando se falou em trazer eventos internacionais, essa turma deve rever seus conceitos. Nessa semana, não apenas um, mas dois ex-pilotos craques da Moto GP estiveram em Curvelo e viram que trazer a competição máxima das duas rodas ao coração das Minas Gerais está longe de ser loucura. Se Alexandre Barros, que dispensa apresentações, tem ajudado como consultor e parceiro, o italiano Franco Uncini (sim, o campeão mundial das 500cc em 1982, pela Suzuki, este no meio da foto) é nada menos que o diretor de segurança da Dorna, a organizadora do certame que envolve Rossi, Márquez, Lorenzo, Pedrosa e tantos outros. Com eles, o espanhol Javier Alonso, diretor de eventos da Dorna.

Se Alex já tinha uma boa ideia do trabalho feito, Uncini e Alonso se mostraram bastante impressionados, mesmo olhando com a visão fria de quem tem de pensar em todos os aspectos – segurança, logística, estrutura, acessos. Como o trabalho tem sido pensado inclusive para atender as normas de homologação da FIM, mais rígidas inclusive que as da FIA, e os detalhes ainda podem ser ajustados conforme as recomendações (o que não é o caso numa pista pronta), fazer com que o complexo integre o calendário da Moto GP é menos complicado do que parece – lógico que, a esta altura, estamos falando, na melhor das hipóteses, em 2017. E, se as duas rodas podem, não haveria qualquer dificuldade em trazer o WTCC, ou a TCR International Series, ou o FIA RX Rallycross, só para ficar nas possibilidades concretas. Sem contar que poderíamos ter um ótimo palco de testes para os times das várias categorias, obrigados a lutar contra o frio e as intempéries do inverno europeu e procurar destinos alternativos em suas pré-temporadas. É, moçada, pode começar a se beliscar. O que foi apenas um pedaço de papel hoje é uma bola de neve impressionante, que ainda pode crescer muito, mesmo no calor da terra dos cristais que dão nome ao circuito…

Com o rabo entre as pernas…

Foi como não só eu previ, mas muita gente. Depois de azedar publicamente a relação com a Renault, culpada pela queda de rendimento na atual temporada (e os franceses tiveram parcela de responsabilidade, mas um relacionamento que valeu quatro títulos mundiais merecia maior diplomacia) e ver fechadas as portas de Mercedes, Ferrari e Honda, a Red Bull se viu obrigada a calçar as sandálias da humildade para permanecer no circo. Dietrich Mateschitz, Helmut Marko e Christian Horner se viram com o rabo entre as pernas e, conscientes de que deixar a F-1 agora seria muito mais caro que continuar, quase obrigados a manter uma parceria que foi dada como morta e enterrada não muito tempo faz.

                           Infiniti Red Bull Racing/divulgação

O mais interessante na história é que a turma do touro vermelho, bastante competente quando o assunto é o marketing, encontrou uma boa escapatória para aliviar a polêmica. Primeiro, confirmaram a inscrição no Mundial de 2016, sem especificar a unidade de potência que usariam. Depois, revelaram ter “surrupiado” da McLaren o patrocínio da TAG Heuer. Agora, começaram a inundar as caixas de e-mails com releases em que confirmam a prorrogação dos acordos com vários parceiros técnicos, como a Sabelt (cintos de segurança) e a OZ (rodas), e assim deve ser com uma imensa lista de fornecedores e colaboradores, até que chegue a fatídica hora de revelar o que todos já sabem. Muito provavelmente não com letras garrafais, mas junto à confirmação de que Daniel Ricciardo e Daniil Kvyat seguem pilotando os carros de Milton Keynes. Mais do que nunca vale o ditado muito famoso nos interiores desse Brasil: “quem fala demais dá bom dia a cavalo”…

Muita coisa boa para uma agenda só…

Montar calendários não é tarefa das mais simples quando se trata de automobilismo e motociclismo, especialmente com o surgimento de novas categorias a cada ano; o crescimento de outras e as exigências de cada uma (logística, horários). Mas ainda tem gente que consegue se superar e marcar, para um mesmo dia, as 24h de Le Mans e um GP de F-1 (isso é uma longa conversa, que já deu o que falar e promete polêmica até o ano que vem, quando Nico Hulkenberg não poderá defender o título na clássica francesa…). E se alguns finais de semana acabam sendo pobres em espetáculo, este, pelo contrário, terá emoção que chega. O que dizer de um período que marcará a decisão no Mundial de Endurance; nas três divisões da Nascar e na primeira edição da TCR International Series?

       Comissão do GP de Macau/divulgação

Pois, se não bastasse, estamos em fim de semana do GP de Macau (na Fórmula 3, o mineiro Sérgio Sette Câmara, aqui na foto, é o representante verde e amarelo, com perspectivas de um ótimo resultado em sua estreia num circuito de rua encardido, que ao longo dos anos se especializou em separar os homens dos meninos). E o ex-protetorado português ainda serve de palco para uma Copa do Mundo de GT, outra novidade. E, um pouco antes do que deveria, a Race of Champions (ROC) está de volta e, depois de rodar os estádios do mundo, no seu habitat, que é Wembley, em Londres – Felipe Massa e Nelsinho Piquet se juntam a Sebastian Vettel, Daniel Ricciardo, Jenson Button, Petter Solberg e outras feras que só não são mais… por conta do calendário. Abram alas para belas corridas, e para campeões dos mais variados…

Internacional

Mundial de Endurance (WEC): oitava etapa – 6h do Barein

Fórmula 3: GP de Macau

GT World Cup (Macau)

TCR International Series: última etapa (Macau)

Race of the Champions (ROC): estádio de Wembley

GP2: 10ª etapa – Sakhir (Barein)

GP3: oitava etapa – Sakhir (Barein)

Nascar Sprint Cup: 36ª etapa – Ford Ecoboost 400 (Homestead)

Nascar Xfinity Series: 36ª etapa – Ford Ecoboost 300 (Homestead)

Nascar Camping World Truck Series: 23ª etapa – Ford Ecoboost 200 (Homestead)

Sul-Americano de Rally (Codasur): última etapa – Rally del Atlantico (URU)

Nacional

Porsche Carrera Cup/Challenge: última etapa (Porsche 300) – Interlagos

Na telinha

Sexta (20)

23h30   Nascar Camping World: etapa de Homestead       Fox Sports2

Sábado (21)

5h40    GP2: etapa do Barein                       Sportv

17h45 Nascar Xfinity Series: etapa de Homestead             Fox Sports2

Domingo (22)

18h      Nascar Sprint: etapa de Homestead                       Fox Sports2

* As provas do GP de Macau podem ser acompanhadas pelo link http://www.macau.grandprix.gov.mo/gp/62/live/index.php?lang=pt

Lole tem razão…

Se há um piloto que entrou para a história da F-1 valendo muito menos do que mostrou nas pistas do mundo, é o argentino Carlos Reutemann. “El Lole” carregava a nada fácil expectativa de repetir os feitos do compatriota Juan Manuel Fangio mas, por motivos dos mais variados – que incluem, inclusive, a decisão de fazer o certo na hora errada e o errado na hora certa, do que Nelson Piquet se beneficiou bastante em 1981 – não é sempre citado e lembrado como merecia. Bem verdade que a imagem algo taciturna, introvertida, nunca ajudou, numa época em que Piquet, Lauda, Regazzoni e tantos outros apareciam muito mais, mas 12 vitórias, um vice-campeonato e dois terceiros lugares falam muito pelo nativo de Santa Fé.

Tão logo deixou os circuitos (exceção feita a algumas provas do Mundial de Rally), ele passou a ser presença rara nas pistas, até mesmo porque deu início a uma bem-sucedida carreira política que o levou ao cargo de governador de sua província e a vários mandatos de senador pelo Partido Justicialista (Peronista) e, não raro, é apontado como um nome capaz de comandar nossa vizinha, responsabilidade que ele prefere não assumir.

Pois a revista Corsa resolveu ouvir o hoje senador sobre as negociações para levar “La Máxima” (o apelido carinhoso dado à F-1) novamente à Argentina, e mais uma vez, Reutemann deu um banho de coerência e seriedade. Disse que logicamente gostaria de ver a categoria de novo no Autódromo Oscar Galvéz, mas deixou claro que não a qualquer custo. Lole lembrou que qualquer projeto que se preza teria de contar com financiamento privado, e que o governo não deveria se comprometer a garantir os milhões de dólares exigidos para assinatura de contrato com Bernie Ecclestone. Lembrou bem que o problema não é o montante para uma edição, mas que o ex-patrão dos tempos da Brabham gosta de fechar acordos válidos, por pelo menos, cinco anos, com pesadas multas em caso de descumprimento. Sem contar que o circuito bonaerense (sim, de Buenos Aires) precisa de uma repaginada total, que não ficaria barata. E não quis se apresentar para engrossar as conversas (“já há várias pessoas capazes empenhadas nisso, não sei como eu poderia colaborar”).

E longe de adotar um discurso populista ou de jogar para o eleitorado, lembrou que há prioridades para as autoridades, e que não é possível comparar a Argentina (como tantos outros países, inclusive o nosso), com realidades como as de Abu Dhabi, Barein ou Azerbaijão. “Eles podem se dar ao luxo de investir US$ 600 milhões para a ter a Fórmula 1 porque têm o suficiente para as demais áreas como saúde, educação e transporte. Não é o nosso caso”. Sem contar que, com os Mundiais de Turismo (WTCC), Moto GP, Rally e Rallycross no calendário, os hermanos já têm coisa boa o suficiente para não precisar de “La Máxima”. Digno de aplausos e à altura dos grandes momentos de Lole nas pistas…

Quem quer um pedaço de equipe?

Nem sempre o destino de uma equipe de automobilismo é cristalino e linear, por motivos dos mais variados. Aliás, o mais comum é que os times, nas suas mais variadas encarnações, um dia acabem fechando as portas – foi assim, por exemplo, mesmo com a poderosa Newman-Haas, nos EUA, e quem consegue sobreviver ao longo de décadas é exceção, não a regra. E aí vem a dúvida: o que fazer com toneladas de equipamento, necessário para as mais variadas atividades? Do chassi de corrida à sombrinha do patrocinador; a indumentária de mecânicos e do restante do pessoal, além de caixas, ferramentas, peças de reposição, rádios, computadores e tantas coisas mais?

Uma boa resposta está no link que eu reproduzo abaixo. O link para o leilão, presencial e virtual, de todo o tipo de artigo da HVM Racing, que também foi Herdez Competition; Minardi USA e CTE Racing (do mágico Cedric the Entertainer, que também foi sócio), na ChampCar e na IRL. A equipe criada pelo britânico Keith Wiggins, o mesmo que já havia inventado a Pacific no Mundial de F-1 (de existência meteórica e resultados modestíssimos), com a estrutura do time Bettenhausen, responsável por revelar nos EUA pilotos como Patrick Carpentier e Hélio Castroneves, quando este ainda tinha o sobrenome separado, tal e qual foi batizado.

Pois nesta quinta-feira (19) três lotes, com mais de 400 itens, vão ser apregoados em Indianapolis, mas o bom é que é possível apresentar lances de qualquer parte do mundo. Há, na lista, dois Lola e um Dallara (falta apenas o motor); além de chassis em carbono; quatro carretas usadas para transportar o equipamento pelos EUA afora e uma quinquilharia que dá gosto. Se alguém pretende montar um time para que categoria for na terra do Tio Sam vai encontrar muita coisa boa e barata. Por outro lado, quem gosta da velocidade vai achar camisas, posters, livros, pedaços acidentados de carros; partes de aerofólios, defletores, rodas, capacetes de mecânicos, cards e tantas coisas mais que é melhor ir direto ao site. Vai ter gente por aí enchendo as estantes de muitos artigos bacanas, vale dar uma olhada. E serve ainda para o leitor ter uma ideia da quantidade de coisas necessárias para ter uma escuderia competitiva, e como está longe de ser uma logística simples e barata…

O link para o leilão é este: http://www.keyauctioneers.com/auction-detail/?id=273510

Mais do mesmo, infelizmente (Coluna Sexta Marcha – GP do Brasil)

“… especialmente quando quem dá as cartas resolve engessar o espetáculo ainda mais. Longe vão os tempos em que os pilotos podiam alegar uma falha na comunicação ou até mesmo peitar as ordens dos boxes sem medo de uma represália. Pois Lewis Hamilton foi obrigado a engolir a história de que seus pneus apresentavam risco para repetir a estratégia adotada por Nico Rosberg, apenas para que o companheiro mantivesse a posição defendida desde a largada. Lógico que os pneus resistiriam sem o menor problema, como bem mostrou o ídolo local Sergio Pérez. Se quisesse, o tricampeão poderia perfeitamente seguir adiante sem voltar aos boxes.

E não adiantou muito o jogo de cena pelo rádio, a frase “vocês deveriam verificar bem os pneus de Nico, têm certeza de que há algum risco?” para deixar claro que a ordem estava sendo cumprida muito a contragosto. Tenho pra mim que o próprio inglês, que até poderia reivindicar um troco pelo que viveu em Mônaco, acabou deixando de lado qualquer vontade de atacar o companheiro nas voltas finais, na base do “quer saber, então deixa ele vencer mesmo, vai ser melhor para quase todos na equipe, não preciso do resultado”.

A continuar assim, além das medidas de diâmetro e curso dos cilindros; das posições perdidas a cada troca de componente da unidade de potência acima do permitido, o regulamento da categoria vai determinar também estratégias iguais para os dois pilotos de uma equipe – e depois não é de se estranhar que a Moto GP e a Nascar estejam tão em alta entre os fãs enquanto o circo patina. Se um deles tem uma pilotagem mais gentil, consegue poupar pneus e freios, azar o dele, pois vai ter que parar assim que o companheiro fizer o mesmo, tudo em nome da justiça e da igualdade. Lógico que a culpa aí não é só da Mercedes, ou é da hegemonia do time alemão. Fosse o caso de ter um rival no cangote e Hamilton (ou Rosberg) faria o que achasse melhor em nome do alto do pódio.”

Se você não leu, o trecho acima é parte da coluna sobre o GP do México, só para mostrar como o que ocorreu ontem, em Interlagos, confirma o risco citado e faz a Fórmula 1 caminhar por vias perigosas. Que a corrida foi sonolenta; que nem mesmo as características favoráveis ao espetáculo no traçado de Interlagos (as duas longas retas, com direito a ajuda do DRS) ajudaram a garantir 71 voltas menos previsíveis, eu nem precisaria dizer, acho que o amigo leitor já havia concluído.

Mas o pior de tudo é ver que a questão da estratégia, ao menos em se tratando das Mercedes, está esculpida na pedra. E nem dá para culpar apenas o time alemão, muito embora, em períodos recentes, a Red Bull tenha adotado postura diferente. Hoje um carro da F-1 é tão monitorado dos boxes; há tantos parâmetros em consideração, que o piloto é obrigado a engolir qualquer orientação que chegue no rádio, e ai dele se ousar desobedecer. Lewis Hamilton, como havia feito duas semanas atrás, voltou a criticar a postura do time; afirmou que, se pudesse escolher a estratégia superaria Nico Rosberg, e eu não posso discordar quando argumenta que fica engessado ao replicar o que o companheiro fez – fiz questão de colocar o gráfico da Pirelli mostrando como as duas Flechas de Prata fizeram absolutamente a mesma coisa, com quem estava na frente entrando primeiro nos boxes, como é praxe.

E o alemão, que vem fazendo nesta reta final de campeonato tudo o que não conseguiu durante o ano, desafinou ao defender a escolha de seus “superiores”. Ele sabe que, se for na base da improvisação e do talento, o piloto do carro 44 daria um banho ainda maior, e fala que seria injustiça se o mais astuto vencesse o mais rápido. Ora; ser mais rápido é algo muito relativo quando seu companheiro pouco pode fazer para, na pista, conquistar a posição. O mais engraçado é que, se for para superar um rival, pode-se apelar para o “undercut”, a decisão de antecipar uma parada e se aproveitar dos pneus novos para garantir a “ultrapassagem”. No mesmo time, jamais. E deve ser sonolento mesmo para engenheiros e dirigentes que, com base nos treinos, definem os intervalos de parada e, se nada de diferente ocorrer, apenas acompanham por tantas voltas que os planos se confirmem.

O grande problema para a categoria é que Lewis e Nico não valem Senna e Prost, por exemplo – naqueles tempos era até divertido ver as McLarens dando volta em todo mundo, tal como as Mercedes quase fizeram em São Paulo (só as Ferraris escaparam). Mais uma corrida dessas em Abu Dhabi e não tem pré-temporada animada que consiga garantir empolgação para 2016; audiências decentes na TV e arquibancadas lotadas nos autódromos. Sou do tempo em que Michael Schumacher digeriu muito mal ter sido superado por fora por Juan-Pablo Montoya no S do Senna; que não se entendeu a decisão da Red Bull de liberar a disputa Vettel/Webber quando um resultado definido dos boxes parecia a decisão correta – e foi graças à “loucura” que o alemão bateu Fernando Alonso de forma surpreendente em seguida. E mesmo gostando tanto da principal categoria do automobilismo internacional, sabendo que tem briga pelas demais posições e tantos outros fatores de interesse, sei lá se vou me animar a acompanhar 21 procissões, quanto mais definidas de véspera. E tenho dito…

Não à barbárie…

Não há como ficar em silêncio diante de uma demonstração tamanha de ignorância e falta de amor ao próximo como a que acabamos de testemunhar em Paris. Fosse onde fosse, atentar contra a vida de cidadãos anônimos, que nada têm a ver com as lutas de seus governos, seria condenável, digno de repulsa, o modo mais condenável e inadequado de defender que causa for. Especialmente numa manifestação planejada e orquestrada – um homem se explodiu diante do Stade de France, onde jogavam os donos da casa e a Alemanha, para despistar as autoridades sobre os reais alvos do grupo, seja ele qual for. E começaram a atirar a esmo de uma forma lamentavelmente ainda vista em regiões fundamentalistas, mas que não deveria existir em qualquer regime ou país do mundo. Fico pensando em como será vulnerável o Brasil ao sediar pela primeira vez em 2016 a mais importante competição esportiva do planeta, e o que terá que ser feito para que cenas como esta não se repitam. Fica uma anônima e humilde expressão de solidariedade às famílias das vítimas, aos que sofreram ao presenciar cenas trágicas e ao povo francês que, com uma mobilização impressionante, deu a primeira resposta ao ódio e à intolerância. Não somos apenas todos Charlie, ou todos Paris. Até que provem o contrário, somos todos irmãos, e quem perde muito com episódios como os de ontem é toda a civilização. Triste, muito triste…