Gosto de tequila falsificada (Coluna Sexta Marcha – GP do México)

       Mercedes AMG Petronas/divulgação

Quem sou eu para discordar de um chefe de equipe que deixa de lado o discurso de circunstância e diz, literalmente, a respeito do que foram as 71 voltas do GP do México: “A atmosfera na pista foi sensacional e acredito apenas que o público merecia uma corrida mais interessante?” Tudo bem que o autor da frase, Franz Tost, da Toro Rosso, é chegado a uma polêmica, mas foi direto ao ponto. Se Austin, uma semana antes, proporcionou um GP considerado clássico, graças, em boa parte, à chuva, nem mesmo o retão do Circuito Hermanos Rodríguez ou o desenho do traçado “às antigas” foram capazes de proporcionar alguma emoção. Não fosse Sebastian Vettel em dia de Maldonado, Katayama ou outro do gênero e realmente as Mercedes teriam dado volta na grande maioria dos adversários. Estava mais interessante observar as máscaras e fantasias dos animados torcedores do que o que se passava na pista.

Especialmente quando quem dá as cartas resolve engessar o espetáculo ainda mais. Longe vão os tempos em que os pilotos podiam alegar uma falha na comunicação ou até mesmo peitar as ordens dos boxes sem medo de uma represália. Pois Lewis Hamilton foi obrigado a engolir a história de que seus pneus apresentavam risco para repetir a estratégia adotada por Nico Rosberg, apenas para que o companheiro mantivesse a posição defendida desde a largada. Lógico que os pneus resistiriam sem o menor problema, como bem mostrou o ídolo local Sergio Pérez. Se quisesse, o tricampeão poderia perfeitamente seguir adiante sem voltar aos boxes.

E não adiantou muito o jogo de cena pelo rádio, a frase “vocês deveriam verificar bem os pneus de Nico, têm certeza de que há algum risco?” para deixar claro que a ordem estava sendo cumprida muito a contragosto. Tenho pra mim que o próprio inglês, que até poderia reivindicar um troco pelo que viveu em Mônaco, acabou deixando de lado qualquer vontade de atacar o companheiro nas voltas finais, na base do “quer saber, então deixa ele vencer mesmo, vai ser melhor para quase todos na equipe, não preciso do resultado”.

A continuar assim, além das medidas de diâmetro e curso dos cilindros; das posições perdidas a cada troca de componente da unidade de potência acima do permitido, o regulamento da categoria vai determinar também estratégias iguais para os dois pilotos de uma equipe – e depois não é de se estranhar que a Moto GP e a Nascar estejam tão em alta entre os fãs enquanto o circo patina. Se um deles tem uma pilotagem mais gentil, consegue poupar pneus e freios, azar o dele, pois vai ter que parar assim que o companheiro fizer o mesmo, tudo em nome da justiça e da igualdade. Lógico que a culpa aí não é só da Mercedes, ou é da hegemonia do time alemão. Fosse o caso de ter um rival no cangote e Hamilton (ou Rosberg) faria o que achasse melhor em nome do alto do pódio. Como a briga é em casa, e aproveitando que estávamos no México, fica mais para o telecatch, aquela luta livre combinada em que um finge que bate e o outro que apanha, e ficamos nisso mesmo.

É uma pena, porque a animação inicial dos donos da casa pode dar lugar a uma perigosa indiferença não ano que vem, quando ainda haverá Esteban Gutierrez novamente no grid, mas mais tarde, quando nem os representantes locais conseguirem algo que preste. Volto a dizer que a demora da Red Bull em garantir seu futuro apenas joga contra o time de Milton Keynes; e as promessas da turma da McLaren de que será tudo diferente ano que vem são mais críveis do que nota de 3. Se 2016 trouxer uma cópia do que vem sendo este ano, nem mesmo todo amor do fã pela Fórmula 1 vai justificar o interesse. Não é por nada não, mas o retorno do circo ao vizinho de continente teve gosto de tequila falsificada…

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