Mais do mesmo, infelizmente (Coluna Sexta Marcha – GP do Brasil)

“… especialmente quando quem dá as cartas resolve engessar o espetáculo ainda mais. Longe vão os tempos em que os pilotos podiam alegar uma falha na comunicação ou até mesmo peitar as ordens dos boxes sem medo de uma represália. Pois Lewis Hamilton foi obrigado a engolir a história de que seus pneus apresentavam risco para repetir a estratégia adotada por Nico Rosberg, apenas para que o companheiro mantivesse a posição defendida desde a largada. Lógico que os pneus resistiriam sem o menor problema, como bem mostrou o ídolo local Sergio Pérez. Se quisesse, o tricampeão poderia perfeitamente seguir adiante sem voltar aos boxes.

E não adiantou muito o jogo de cena pelo rádio, a frase “vocês deveriam verificar bem os pneus de Nico, têm certeza de que há algum risco?” para deixar claro que a ordem estava sendo cumprida muito a contragosto. Tenho pra mim que o próprio inglês, que até poderia reivindicar um troco pelo que viveu em Mônaco, acabou deixando de lado qualquer vontade de atacar o companheiro nas voltas finais, na base do “quer saber, então deixa ele vencer mesmo, vai ser melhor para quase todos na equipe, não preciso do resultado”.

A continuar assim, além das medidas de diâmetro e curso dos cilindros; das posições perdidas a cada troca de componente da unidade de potência acima do permitido, o regulamento da categoria vai determinar também estratégias iguais para os dois pilotos de uma equipe – e depois não é de se estranhar que a Moto GP e a Nascar estejam tão em alta entre os fãs enquanto o circo patina. Se um deles tem uma pilotagem mais gentil, consegue poupar pneus e freios, azar o dele, pois vai ter que parar assim que o companheiro fizer o mesmo, tudo em nome da justiça e da igualdade. Lógico que a culpa aí não é só da Mercedes, ou é da hegemonia do time alemão. Fosse o caso de ter um rival no cangote e Hamilton (ou Rosberg) faria o que achasse melhor em nome do alto do pódio.”

Se você não leu, o trecho acima é parte da coluna sobre o GP do México, só para mostrar como o que ocorreu ontem, em Interlagos, confirma o risco citado e faz a Fórmula 1 caminhar por vias perigosas. Que a corrida foi sonolenta; que nem mesmo as características favoráveis ao espetáculo no traçado de Interlagos (as duas longas retas, com direito a ajuda do DRS) ajudaram a garantir 71 voltas menos previsíveis, eu nem precisaria dizer, acho que o amigo leitor já havia concluído.

Mas o pior de tudo é ver que a questão da estratégia, ao menos em se tratando das Mercedes, está esculpida na pedra. E nem dá para culpar apenas o time alemão, muito embora, em períodos recentes, a Red Bull tenha adotado postura diferente. Hoje um carro da F-1 é tão monitorado dos boxes; há tantos parâmetros em consideração, que o piloto é obrigado a engolir qualquer orientação que chegue no rádio, e ai dele se ousar desobedecer. Lewis Hamilton, como havia feito duas semanas atrás, voltou a criticar a postura do time; afirmou que, se pudesse escolher a estratégia superaria Nico Rosberg, e eu não posso discordar quando argumenta que fica engessado ao replicar o que o companheiro fez – fiz questão de colocar o gráfico da Pirelli mostrando como as duas Flechas de Prata fizeram absolutamente a mesma coisa, com quem estava na frente entrando primeiro nos boxes, como é praxe.

E o alemão, que vem fazendo nesta reta final de campeonato tudo o que não conseguiu durante o ano, desafinou ao defender a escolha de seus “superiores”. Ele sabe que, se for na base da improvisação e do talento, o piloto do carro 44 daria um banho ainda maior, e fala que seria injustiça se o mais astuto vencesse o mais rápido. Ora; ser mais rápido é algo muito relativo quando seu companheiro pouco pode fazer para, na pista, conquistar a posição. O mais engraçado é que, se for para superar um rival, pode-se apelar para o “undercut”, a decisão de antecipar uma parada e se aproveitar dos pneus novos para garantir a “ultrapassagem”. No mesmo time, jamais. E deve ser sonolento mesmo para engenheiros e dirigentes que, com base nos treinos, definem os intervalos de parada e, se nada de diferente ocorrer, apenas acompanham por tantas voltas que os planos se confirmem.

O grande problema para a categoria é que Lewis e Nico não valem Senna e Prost, por exemplo – naqueles tempos era até divertido ver as McLarens dando volta em todo mundo, tal como as Mercedes quase fizeram em São Paulo (só as Ferraris escaparam). Mais uma corrida dessas em Abu Dhabi e não tem pré-temporada animada que consiga garantir empolgação para 2016; audiências decentes na TV e arquibancadas lotadas nos autódromos. Sou do tempo em que Michael Schumacher digeriu muito mal ter sido superado por fora por Juan-Pablo Montoya no S do Senna; que não se entendeu a decisão da Red Bull de liberar a disputa Vettel/Webber quando um resultado definido dos boxes parecia a decisão correta – e foi graças à “loucura” que o alemão bateu Fernando Alonso de forma surpreendente em seguida. E mesmo gostando tanto da principal categoria do automobilismo internacional, sabendo que tem briga pelas demais posições e tantos outros fatores de interesse, sei lá se vou me animar a acompanhar 21 procissões, quanto mais definidas de véspera. E tenho dito…

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