Os dois lados de uma corrida (Coluna Sexta Marcha – GP da China)

F1CHI

A escolha do lap chart, a sequência volta a volta do GP da China, para ilustrar a coluna, não se deu por acaso. Talvez ela seja a imagem mais emblemática do que aconteceu em Xangai e do que vem sendo a tendência na temporada do Mundial de Fórmula 1. No domingo de forma ainda mais clara e indiscutível do que na Austrália ou no Barein. É possível analisar o que foi a prova pela linha azul clara da primeira posição, que não se altera, ou pelas demais, que fazem da tela uma maluquice de linhas se cruzando até que se tenha finalmente o panorama da bandeirada. E, no fim das contas, tanto uma quanto outra forma de enxergar acabam levando ao mesmo caminho: o de que se há emoção, não é pelo equilíbrio do campeonato em si, mas por uma série de fatores.

Imagine comigo, amigo leitor, se Lewis Hamilton tivesse largado mais à frente (não digo nem na primeira fila); não tivesse sido tocado na largada e, na pior das hipóteses sossegasse no terceiro lugar? Sim, porque tanto Sebastian Vettel quanto Daniel Ricciardo acabaram tendo sua cota de problemas e um deles, se tudo tivesse saído conforme o figurino, poderia ter se mantido à frente do tricampeão, embora a quilômetros do vencedor, o da linha verde.

“Ah, mas no pelotão do apetite, na meiúca da classificação, teria sido esse passa e repassa de qualquer modo”, você poderia argumentar. Aí eu volto na coluna sobre o GP do Barein e junto o que foi dito por um certo Felipe Massa, que correu como zagueirão de várzea protegendo a posição de Hamilton. Ele lembrou que a farra das ultrapassagens só ocorre porque a diferença entre os compostos de pneus é absurda. E, num traçado com duas longas retas em que o DRS é acionado, não tem braço com pneu médio que segure um rival com pneu macio ou supermacio. Passa sim, e vai embora. Não se trata de disputa por posição, se trata de abrir caminho, até sem fazer muita força.

Por essas e outras é que eu pergunto: adianta para o espetáculo? É essa maravilha que quem promove a categoria está tentando vender? Está refletindo o equilíbrio de forças na categoria ou acaba premiando quem tem sorte para escapar dos bicos alheios e quem apostou nos pneus certos? E além disso, vai adiantar para aproximar os adversários das Mercedes, ou fazer de uma Williams ou Toro Rosso candidata a vitória?

Confesso que a primeira vontade é responder não para todas – apenas no caso da segunda pergunta é que valeria tanto uma coisa quanto a outra. Felizmente, já que falamos de F-1, não de gincana do bairro, o melhor ainda é quem tem ido ao alto do pódio, e está claro que, na esteira das Flechas de Prata estão Ferrari, Red Bull, Williams e Toro Rosso, por enquanto nessa ordem. Por outro lado, tem muita gente perdendo pontos e oportunidades sem merecer, por culpa de um motor caprichoso ou de um rival animado em excesso (não, Daniil Kvyat não exagerou na disputa da primeira curva, Vettel é que não quis se indispor com o companheiro e botou a culpa de um incidente de corrida no russo).

A continuar assim, apenas em Mônaco, onde não se passa, é que o braço poderá compensar um pneu mais rápido e novo do adversário e, na minha humilde e modesta opinião, não é assim que se dá graça ao circo. Eu estou descobrindo que corridas com 80, 100 ultrapassagens, podem ser tão insossas ou enganadoras quanto aquelas provas sonolentas que não deixam saudade. E já me dá quase vontade de falar que também a regra dos pneus deveria continuar parecida com a do ano passado, tal como a qualificação. Como passaram 3 de 21, ainda é o caso de dar tempo ao tempo, mesmo porque a tendência é que as apostas na estratégia passem a ser cada vez menores tão logo pilotos e times saibam exatamente o que podem esperar do equipamento. Mas eu estou pra dizer que o que é demais – até ultrapassagem – enjoa.

Efeito contrário

Essa não fui eu quem disse, mas li e achei perfeita – e olha que o comentário foi feito antes da prova chinesa. O comendador Enzo Ferrari costumava dizer que um piloto ficava meio segundo mais lento a cada filho. Pois Nico Rosberg resolveu provar o contrário e, embora falte muito pra transformar isso no título, vem mantendo o aproveitamento total há seis GPs. A continuar assim, logo a família volta a crescer, e, se vierem gêmeos, tanto melhor.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s