Targa Florio: “A Cursa” chega ao centenário

img-targa-florio-_1_Achou que as 500 Milhas de Indianápolis são o único evento automobilístico que chega este ano à centésima edição? Pois três semanas antes outra prova igualmente lendária completa seu primeiro século, ainda que totalmente diferente de como foi idealizada. Mas, em seu novo formato, não vão faltar atrações e homenagens a um verdadeiro monumento da velocidade, que tenta, ao máximo, guardar os laços com a história.

Corria 1906 quando o conde Vincenzo Florio, que por conta da boa situação financeira era dos poucos que podiam se aventurar sobre quatro rodas, decidiu criar uma competição que percorresse boa parte da ilha da Sicília. Eram 148 extenuantes quilômetros (0 chamado circuito grande) em estradas de montanha, a grande maioria de terra. Alessandro Cagno precisou de mais de nove horas para se tornar o primeiro vencedor. Por três anos (de 1912 a 1914), a ordem foi completar uma inteira volta no perímetro siciliano; depois foi adotado o traçado médio, de 108km e, nele, todos os grandes pilotos italianos do período entre as guerras brilharam – Tazio Nuvolari, Achille Varzi e Luigi Villoresi, para citar os mais conhecidos. Já nesse período começou a ser usado o “Piccolo delle Madonie”, que seria o principal palco da prova, com “apenas” 72 quilômetros de extensão.

Lógico que durante o segundo conflito mundial os motores não roncaram, mas, quando a prova voltou, em 1948, não parou mais. A partir de 1955, passou a fazer parte do calendário do Mundial de Endurance, atraindo os principais times e pilotos, que formavam duplas lendárias, muitas vezes com grandes especialistas no traçado, outros vindos do rally, com maior capacidade de improvisação numa pista tão longa, que tinha Campofelice di Rocella como ponto central. Se debruçar na lista de vencedores do período é encontrar nomes que dispensam qualquer apresentação – Stirling Moss, Peter Collins, Graham Hill, Jo Bonnier, Hans Herrmann, Ricardo Rodríguez, Olivier Gendebien, Vic Elford, Jo Siffert, Lorenzo Bandini, Gerard Larrousse, Gijs van Lennep, Arturo Merzario e o mais sensacional deles, o ‘professor voador’ Nino Vacarella, que corria nas estradas de casa. O mesmo Vacarella que, depois de dominar as 24h de Le Mans de 1964, deixou as comemorações de lado e voltou rápido para Palermo, já que não podia deixar os alunos sozinhos no dia seguinte.

Por bons anos, o recorde do traçado foi de um certo Helmut Marko, o mesmo que pediu que a prova deixasse o calendário do Mundial devido aos perigos no meio do caminho – e efetivamente não era simples acelerar sem referências, em meio a campos, casas, muros, postes e outras armadilhas, sem saber se encontraria um rival com carro quebrado no meio da trajetória de uma curva cega. Coisa para quem tem muito talento e alguns parafusos a menos. Pois em 1973 ela deixou de valer para o calendário internacional, mas seguiu até 1977, quando uma onda de acidentes graves quase determinou seu fim. Felizmente, já no ano seguinte, ela ganhou sua nova interpretação, passando a ser um rally válido pelo Campeonato Italiano e por um bom tempo também pelo Europeu. As especiais cortam boa parte dos trechos do Piccolo della Madonie; a largada promocional continua sendo na Piazza Politeama e uma multidão ainda se aglomera para ver a passagem das máquinas. Nada mais justo que o carro a largar com o número 1 na sexta-feira seja o Peugeot 208 T16 de Paolo Andreucci, seis vezes vencedor e decacampeão nacional – e serão quase 200 somando a prova nacional e a local, com percurso mais curto.

Não há mais a lendária rivalidade que opôs Ferrari, Maserati, Alfa Romeo, Porsche, Mercedes, Alpine, Abarth e Lancia nos tempos áureos, mas a Targa resiste (e de onde você acha que a Porsche tirou o codinome de suas 911 semi-conversíveis?). Tem inclusive museu, em Collesano e os bons de memória vão lembrar que a Red Bull levou Daniel Ricciardo e seu agora patrão Marko para andar nas estradas sicilianas com uma Alfa T33. Aliás, o Doktor será um dos homenageados e participantes de uma parada de modelos de época ao lado de Merzario, Vacarella (aos 83 anos), Jacky Ickx, Nanni Galli, Sandro Munari, Van Lennep e outros que ajudaram a escrever as páginas de um mito. Vida longa para “A Cursa” (A corrida, em bom dialeto siciliano)…

 

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