Brincadeira de criança (Coluna Sexta Marcha – GP da Espanha)

max

Então testemunhamos mais uma vez a história sendo feita diante de nossos olhos e um moleque que até ano passado não podia dirigir o próprio carro até a pista se tornar o mais jovem vencedor de um GP do Mundial de Fórmula 1 em 66 anos, e muito provalmente para sempre (se as regras baixadas pela FIA depois da chegada de Max Verstappen ao circo não mudarem, só mesmo um maior de idade que já estreie no alto do pódio pra conseguir façanha ainda mais impressionante). Claro que achei o máximo a tranquilidade de veterano com os pneus na última lona diante de um Kimi Räikkönen que reencontrou o prazer de pilotar, a festa no pódio, o hino holandês executado pela primeira vez. E só posso dizer que Helmut Marko tem uma estrela do tamanho do mundo – se em vez da vitória fosse o garoto o protagonista de uma lambança nos primeiros metros e estaríamos todos pedindo a volta do coitado Daniil Kvyat. Não foi o que aconteceu, como você bem sabe.

O que não quer dizer que não haja um lado negativo (ou menos positivo) em tudo isso. Antes de qualquer coisa, qualquer comparação com uma das lendas do esporte, seja ela quem for, é totalmente descabida. Pular do kart para a F-1 no espaço de três anos era algo impensável não porque simplesmente não se fazia, mas porque realmente, na prática, um moleque, por mais talentoso que fosse, não conseguiria. Ayrton Senna passou pela F-Ford; Michael Schumacher pela F-König, Sebastian Vettel pela F-BMW, Alain Prost pela F-Renault, Nelson Piquet pela Super Vê e por aí vai. Lembre que há 15, 20 anos, simuladores capazes de reproduzir, ao menor detalhe, cada característica de um traçado, era algo digno de filme de ficção científica, no máximo havia um videogame ou outro. E por mais que os testes de pista fossem liberados, sempre custaram caro – o único caso que me vem à cabeça de piloto que teve tudo para se adaptar como quis foi Jacques Villeneuve. Hoje é impensável que um piloto do circo chegue a uma pista (mesmo as que conhece por ter andado 10, 15 vezes) sem boas horas naquelas geringonças com jeitão de nave espacial.

Outro ponto que me intriga é a história que ouvi, desde os tempos do kart, de que papai Jos nunca pegou leve com o filho – e nas duas vezes em que pude acompanhá-lo de perto, vi no mínimo muitas caras sérias e nada da tranquilidade que por vezes um adolescente deve ter. Não estou dizendo que Max foi obrigado a escolher seu caminho – com pai e mãe pilotos dificilmente ele optaria pelo futebol, mas muita gente respeitável no meio dos carrinhos jurava que as derrapadas do garoto eram tratadas aos gritos e com alguns tapas. Fico com o benefício da dúvida, mas acho complicado jogar tamanha pressão sobre ombros tão jovens – e não é só no automobilismo, mas praticamente em todas as modalidades. Não sei até que ponto os sorrisos eram de alegria, por ter conquistado tal feito, ou de alívio, por não ter frustrado a expectativa da família – tomara mesmo que a primeira hipótese tenha prevalecido. E se o mais novo piloto da família Verstappen será realmente uma lenda, um colecionador de vitórias e títulos, é cedo pra saber, mas alternância e caras novas sempre são boas coisas para o circo. Não há dúvida de que ele está mais pra Vettel do que pra Maldonado, considerando os dois últimos a causar expressões de espanto e surpresa. E para encerrar a parte de quem comemorou, faltou alguém avisar no fone do doutor Carlos Eduardo dos Santos Galvão Bueno que a jovem senhora ao lado de Christian Horner nos pés do pódio não era, nem nunca foi, Sophie Kumpen, a mãe de Max, mas Geri Halwell, a eterna Spice Girl, casada com o diretor da Red Bull…

Nada a comemorar, antes pelo contrário

Para que a história fosse feita em Montmeló, era necessário que algo extraordinário acontecesse, e efetivamente ocorreu. É impressionante como Lewis Hamilton tem largado mal desde que a FIA vetou as regulagens ditadas pelos engenheiros no caminho dos boxes para o grid, e agora que não há mais duas embreagens, apenas uma. E o desespero em recuperar o terreno perdido ainda nos primeiros metros era justificado, já que, do contrário, lá iria Nico Rosberg rumo a uma tranquila oitava vitória consecutiva (você duvida?). A tal justificativa da Mercedes de que o alemão esqueceu de voltar a mistura ar/combustível para as condições de corrida é que pode ser uma tremenda de uma desculpa, ainda que emcampada e aceita pela FIA. Ainda que o alemão tenha freado muito antes da hora para surpreender o tricampeão mundial – e se foi isso, trata-se de malandragem perfeitamente aceitável – vale a lógica do acidente de trânsito (quem bateu pela traseira é que leva a culpa). Não foi o primeiro incidente, dificilmente será o último, mas a situação desfavorável agora é a do carro 44, que vai vendo o tetra cada vez mais distante. Rivalidade de verdade é assim, e vale a mesma lógica usada lá no alto para a decisão de Helmut Marko: se a turma da estrela resolvesse impor ordens de equipe, estaríamos todos aqui clamando por duelos, espetáculo, liberdade de estratégia…

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