E RD conseguiu a façanha

Não é de hoje que eu chamo a atenção para a pilotagem desse nativo de Alès que, até chegar à F-3000, não fazia supor uma carreira fenomenal nas categorias de ponta do automobilismo, embora também nunca tivesse contado com dinheiro e patrocinadores o suficiente para poder andar como gostaria. Felizmente ele e quem acreditou nele proporcionaram uma mudança radical para o cenário da endurance e o resto virou praticamente lenda. Afinal, um sujeito que vence as 24h de Le Mans duas vezes, mas também as duas voltas do relógio em Nurburgring e as 12h de Sebring poderia perfeitamente bater no peito e dizer: “eu sou um tremendo piloto”. Se consegue completar um Rally Dakar e ainda por cima domina uma edição da Subida Internacional de Montanha de Pikes Peak (PPIHC) então, nem se fala.

Mas a façanha de Romain Dumas neste ano da graça de 2016 teve muito de monstruoso. Há uma semana ele vivia a gangorra de emoções que o levou a conquistar a mais famosa prova de endurance do planeta pela segunda vez, com a Porsche 919 Hybrid, quando já se via resignado com um positivo segundo lugar, e a quebra do Toyota #5 a três minutos do fim abriu o caminho (a sorte ajuda quem trabalha e merece). Era o caso de tirar uns bons dias de folga pra se recuperar da extenuante maratona, mas o calendário de RD previa outro monumento da velocidade, a edição de 100 anos de Pikes Peak, onde ele já havia feito bonito.

Protótipo Norma M20FC renovado e ainda mais desenvolvido, motor Honda turbo afiado e uma certeza de uma humildade impressionante. Os 8min13 de sua majestade Sebastien Loeb não seriam sequer aproximados (aí eu me lembro do guarda com quem conversei em Glen Cove, onde a coisa começa a ficar mais perigosa e desafiadora, dizendo que, se eu tivesse o protótipo 208 do nove vezes campeão mundial de rally, completaria os 20 quilômetros em 11 minutos, o que eu gostaria bastante se fosse verdade).

Treinos com alguns problemas mecânicos, qualificação encerrada com o melhor tempo e lá vem o bicampeonato, com fortíssimos 8min51s445, apesar de algumas falhas nos freios que o impediram de limar bons segundos. Mostra de que não é coisa fácil, tão logo encostou o carro nos 4.200m de altitude da reta de chegada e começou a nevar em plena primavera no Colorado. Mas a façanha de vencer duas das provas mais simbólicas do esporte em uma semana estava no bolso. “Não sei se consigo me dar conta do que isso significa, é algo impressionante, inacreditável. Foi bastante difícil, mas cheguei lá. Acredito que é muito maior do que o melhor dos meus sonhos”, admitiu. Agora, com certeza, virão alguns dias pra descansar. Mas o lugar de direito entre os grandes da velocidade, esse só foi ratificado. Então, chapêau, RD…

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E quem falou em entressafra na agenda?

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Se o fim de semana anterior foi de 24h de Le Mans e de Mundial de Fórmula 1 desbravando mais uma fronteira, era de se esperar que a semana seguinte fosse relativamente modesta em termos de agenda internacional. Longe de ser o caso, para a felicidade geral da nação sobre rodas. Tem coisa boa, e muita. Passado o impacto pelo dramático acidente com Luis Salom, a Moto GP volta a um de seus palcos sagrados, Assen, na Holanda, trocando o sábado que era o dia tradicional do TT para o domingo, o que não deve mudar a perspectiva de corridas incertas e sensacionais. E a Indy finalmente volta a Road America, o misto dos mistos nos Estados Unidos, a pista que melhor simboliza a exigência que um bom equipamento proporciona a piloto e máquina. E que, não por acaso, foi palco de vários sucessos brasileiros – teve Emerson Fittipaldi, Bruno Junqueira, Cristiano da Matta no alto do pódio, este último que também viveu no interior de Wisconsin o momento mais dramático da carreira.

Mas o leitor habitual do blog sabe que eu sou alucinado com a subida de montanha de Pikes Peak, a ponto de ter feito questão de subir o morro até onde pude com os termômetros marcando cinco graus negativos. O vento não me permitiu chegar à parte mais descampada e perigosa do traçado de 20 quilômetros e 156 curvas, mas já deu para ter uma ideia bastante real da loucura que é acelerar morro acima com vários pontos em que a proteção é inexistente. E nesse domingo, quando se completam 100 anos da prova (não 100 edições), há quem possa definitivamente fazer história. Há menos de uma semana, Romain Dumas reagia, como se não acreditasse, ao fato de ter herdado na volta final sua segunda vitória nas 24h de Le Mans, ao lado de Marc Lieb e Neel Jani, com a Porsche 919 Hy. Descanso zero, e rumo ao Colorado, agora com um protótipo Norma FC20, em busca mais uma vez do triunfo, que também seria o segundo. E isso que estamos falando de um cara que já disputou o Paris-Dakar deste ano e, até o fim da temporada, deve fazer uma ou outra prova de rally de velocidade em seu país natal, sem descuidar do WEC, que é a prioridade. Simplesmente monstruoso, digno das feras da velha guarda. Sem desmerecer a concorrência, mas seria muito legal se conseguisse, premiando, acima de tudo, a paixão pela velocidade de um cara do bem, que trocou a imagem de nome mais ou menos nos monopostos para a de um papa-vitórias nos GTs, na Endurance (e nas subidas de montanha também…).

 

Internacional 

Mundial de Turismo (WTCC): sétima etapa – Vila Real (POR)

Mundial de Moto GP: oitava etapa – GP da Holanda (Assen)

Europeu de Fórmula 3: quinta etapa – Norisring (ALE)

DTM: quarta etapa – Norisring

Verizon Indycar Series: nona etapa – Road America

Fórmula 3.5 V8: quarta etapa – Paul Ricard (FRA)

Blancpain GT Endurance Series: terceira etapa – Paul Ricard (FRA)

Nascar Sprint Cup:  16ª etapa – Save Mart 350 (Sonoma)

Nascar Camping World Truck Series: nona etapa – Drive for Linemen 200 (Gateway)

Pikes Peak International Hillclimb

 

Nacional 

Brasileiro de Stock Car: quinta etapa – Tarumã

Brasileiro de Marcas: quarta etapa – Tarumã

Mercedes-Benz Grand Challenge:  terceira etapa – Tarumã

 

Na telinha 

Sábado (25) 

7h30   Moto GP (treinos oficiais GP da Holanda)                   Sportv 3

8h      DTM: etapa de Norisring                                                 Band Sports

15h   Stock Car (treino oficial etapa de Tarumã)                    Sportv 3

 

Domingo 

6h         Moto GP: GP da Holanda                                      Sportv 2

8h      DTM: etapa de Norisring                                          Band Sports

12h      Mercedes-Benz Grand Challenge                         Band Sports

14h       Stock Car: etapa de Tarumã                                  Sportv 2

14h       Verizon Indycar Series: GP de Road America     Band Sports

16h       Nascar Sprint: etapa de Sonoma                         Fox Sports 2

Minardi Day: onde os fracos têm vez

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Celebrai, vós que sois defensores dos fracos e oprimidos. Alegrai-vos todos aqueles que não olhavam apenas para as primeiras filas do grid de um GP de Fórmula 1, mas guardavam um terno sentimento de respeito e admiração por quem estava no extremo oposto, muitas vezes com o dinheiro contado e uma vontade imensa de fazer parte do circo, ainda que todos os fatores indicassem o contrário. Neste sábado, em Imola, a escuderia que melhor simbolizou essa luta injusta e, por 25 ininterruptos anos se manteve na elite servindo como trampolim para nomes como Fernando Alonso, Giancarlo Fisichella, Mark Webber e Jarno Trulli, será homenageada com um dia temático daqueles que dá vontade de acompanhar de perto.

Você já viu no título do post que eu me refiro à Minardi, eterna amarelo e ouro das últimas filas, ainda que tenha mudado de cores tantas vezes, quando enfim algum patrocinador de peso resolvia dar uma força. E que outra equipe levaria a um ex-piloto, talvez um de seus principais símbolos, a tomar para si a iniciativa de reunir praticamente todas as máquinas saídas dos galpões de Faenza? Os mais novos talvez não saibam que em 1990, no auge da rivalidade de pneus Goodyear x Pirelli, Pierluigi Martini alinhou na segunda posição do grid para o GP dos EUA, nas ruas de Phoenix, ao lado de Gerhard Berger e à frente de um certo Ayrton Senna, e outros certos Nelson Piquet, Nigel Mansell e Alain Prost. E, mais do que isso, marcado 18 pontos numa era em que se tratava de privilégio dos seis primeiros – depois ainda venceria as 24h de Le Mans com a BMW.

Pois ele convenceu “il padrone” Giancarlo Minardi, hoje consultor do Automóvel Clube da Itália (ACI Sport) para a formação de pilotos, e não foi tão difícil tirar de garagens e coleções os F-3, F-2 e F-1 made in Faenza. Vale também para o período em que o dono passou a ser Paul Stoddart e, principalmente, para os herdeiros intelectuais do espólio minardiano, a Toro Rosso que, como a coroar uma trajetória, finalmente chegou ao alto do pódio, ainda por cima em Monza, comandada por um Sebastian Vettel que ainda viria a ser o que é. Um time que seria o último na categoria de um nome sensacional como o do saudoso Michele Alboreto, ele que, adivinhem, teve sua chance na F-2 graças à Minardi, e voltou muito tempo depois para fechar tão belo ciclo.

Bem verdade que houve pilotos – e muitos – que tiveram a chance de acelerar com os carros italianos graças às bolsas cheias de dólares, mas a Minardi e seu fundador nunca esconderam o fato, ou deixaram de acreditar em pilotos de potencial, mesmo que emprestados por outros times. E a promessa é de que a grande maioria deles estará lá – além de Martini, Fisichella, Trulli, Alessandro Nannini, Gianni Morbidelli, Pedro Lamy, Tarso Marques, Adrián Campos e vários outros. Assim como centenas de apaixonados de todas as partes da Europa com as bandeiras amarelas e pretas, para ver o desfile de glória das máquinas de quem ignorou as circunstâncias e acreditou que, sim, era possível. Eu, se lá estivesse, não só marcaria presença, como ainda iria uniformizado, que a camisa do time é guardada e usada com muito orgulho. Grazie, Minardi…

1989 Minardi-Ford Consworth M189 piloti Sala e Martini - Archivio Minardi Team

Então foi isso? (Coluna Sexta Marcha – GP da Europa)

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Sim, o visual é muito bonito, o fato de acelerar entre construções históricas bem mais charmoso do que em Cingapura, por exemplo, e a sequência de pé embaixo de 2.200 metros fez com que se registrasse velocidades quase absurdas para um traçado de rua. Mas será que eu fui o único a achar que faltou um algo mais na mais nova fronteira desbravada pelo circo? Não falo nem pela supremacia de Nico Rosberg e pelo fim de semana insosso de Lewis Hamilton, às voltas com um carro caprichoso e com a falta da ajuda que poderia vir via rádio, e agora não pode mais.
As ruas de Baku proporcionaram um belo cenário, não há dúvidas, mas não uma corrida daquelas que ficam na lembrança. Imediatamente me veio à cabeça outro traçado provisório, o de Valência, tão belo quanto, com o mar como testemunha e uma ponte construída especialmente para a passagem dos carros. Foi palco de vitória brasileira, de acidente (s) espantoso (s), mas deixou o calendário sem que ninguém bradasse pela sua permanência ou chorasse sua ausência.
A sensação que o Azerbaijão provoca é a mesma. Algo do tipo, “bom, então já corremos lá, agora vamos voltar às pistas de verdade, um GP da Europa na longínqua república russa está mais do que satisfatório.” Lógico que não será o caso – Bernie Ecclestone não abriria mão da galinha dos ovos de ouro enquanto os milhões de dólares correrem em direção ao circo. Mas acabou que o treino oficial foi tão ou mais emocionante do que a corrida em si.
Uma ou outra ultrapassagem fora do esquema “abriu o DRS no retão, é emparelhar e ir embora” até que houve, assim como as encostadas nos muros tradicionais. E felizmente no domingo não houve zebra solta furando pneu, embora a cena do saco plástico na dianteira da Ferrari de Sebastian Vettel, em qualquer outra pista do mundo (alguma$ menos do que outras) e seria motivo para multa, reprimenda, ameaça de não voltar.
E ver Sergio Perez no pódio deixou há um bom tempo de ser extraordinário (que bom que o mexicano teve apoio para mostrar, depois da frustrada passagem pela McLaren, o quanto havia amadurecido). Hoje eu não me espantaria se ele fosse escolhido para formar dupla com Vettel, mesmo porque o patrocínio das empresas de Carlos Slim já está lá. Com Ricciardo fiel ao touro vermelho até 2018 (e Verstappen mais ainda); um Hulkenberg triturado pelo próprio mexicano e um Bottas que vai pelo mesmo caminho, difícil achar opção melhor caso o simpático e eloquente Kimi Räikkönen decida – ou seja obrigado a – encerrar a carreira. Pelo andar da carruagem, a grande maioria dos times vai mesmo é se concentrar nas mudanças para 2017, já que ameaçar a supremacia prateada só uma vez ou outra. Tomara que a pista de verdade da Áustria traga uma corridinha melhor…
Le Mans
De cortar o coração (mesmo da concorrência) o que ocorreu na reta final das 24h de Le Mans, válidas pelo Mundial de Endurance. A turma da Toyota já se preparava para escalar as grades, balançar as bandeiras e ver seus carros recebendo a bandeirada em formação quando, na penúltima volta, Kazuki Nakajima encostou um TS050 fatalmente ferido. Quem sabe o fascínio que o evento provoca nos nipônicos e a obsessão por vencê-lo (algo que só a Mazda fez e de uma forma surpreendente) imagina como estarão agora os componentes da Gazoo Racing, a emanação esportiva da maior montadora do mundo. A promessa é de retornar ano que vem, mas a sensação que fica é que dificilmente as condições vão se reunir de modo tão favorável quanto nessa edição. Como “carreras son carreras” e a Porsche nada tinha a ver com isso, levou.

Agenda de um dia inteiro de velocidade

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Chegou o tão esperado momento delas. Por elas, entenda as 24h de Le Mans, grandes e incríveis o suficiente para deixar em segundo plano o que mais está na agenda da velocidade no fim de semana – e isso vale mesmo para a chegada do circo ao longínquo Azerbaijão, última fronteira a se render aos argumentos ($) de Bernie Ecclestone. E nem adianta dizer que a briga este ano será menos emocionante com a decisão de Audi e Porsche de alinhar apenas dois carros; que o atual vencedor Nico Hulkenberg não teve escolha e foi impedido de defender a coroa ou que uma eventual nova vitória da Porsche não teria tanto significado quanto a de 2016, que marcou o fim de um longo jejum. Há motivos de sobra para se manter grudado diante da TV, do smartphone ou do computador ao longo das duas voltas do relógio – a Toyota que parece ter escondido o jogo e se concentrado no acerto para a corrida (com um modelo de manuseio bem mais fácil nos boxes do que o antecessor TS040); uma briga de faca na LMP2 que pode valer a vitória a um entre pelo menos 10 candidatos; o retorno da Ford para, mais uma vez, enfrentar a Ferrari como há cinco décadas; os “seis brasileiros e meio” – Lucas di Grassi (Audi/LMP1), Nelsinho Piquet (Rebellion-AER/LMP1); Bruno Senna (Ligier-Nissan/LMP2); Pipo Derani (Ligier-Nissan/LMP2); Oswaldo Negri (Ligier-Honda/LMP2) e Fernando Rees (Aston Martin Vantage/GTE Pro); aos quais se junta o norte-americano de origens verde e amarelas Gustavo Menezes. E ainda há a história de superação humana de Frederic Sausset, que eu apresentei no post anterior.

E sem querer entrar no mérito de se a prova deve (ou deveria) ser transmitida na íntegra em sinal aberto na internet – e a Fox Sports, que detém os direitos do WEC, vai passar bons pedaços da corrida – será possível acompanhar ainda boa parte da ação nas câmeras dos carros dos principais times (clique http://www.audi-motorsport.com ou http://www.porsche.com/international/motorsportandevents/motorsport/worksracing/raceseries/fiawec/ para pegar carona privilegiada com os 1.000cv de duas das equipes candidatas à vitória geral). Enquanto não dá para estar lá e curtir ao vivo, algo que eu reafirmo que vou fazer um dia da minha vida, é o mais próximo da emoção que dá pra chegar…

 Internacional

Mundial de Fórmula 1: oitava etapa – GP da Europa (Baku-AZE)

Mundial de Endurance (FIA WEC): terceira etapa – 24h de Le Mans

GP2: terceira etapa – Baku (AZE)

TCR International Series: sexta etapa – Oschersleben (ALE)

V8 Supercars: sétima etapa – Darwin

Sul-Americano de Fórmula 4: quarta etapa – Mercedes (URU)

Global Rallycross Championships (GRC): quarta e quinta etapas – Daytona

 

Nacional

Gaúcho/Copa Brasil de Endurance: Santa Cruz do Sul

Na telinha

Sábado (18)

4h55             GP2: etapa de Baku                     Sportv 2

6h55            Fórmula 1: GP da Europa (treino livre)      Sportv

9h30            Fórmula 1: GP da Europa (treino oficial)        Sportv 2/Globo (* apenas o Q3)

9h30            FIA WEC: 24h de Le Mans        Fox Sports 2

Domingo (19)

6h55             GP2: etapa de Baku                     Sportv

8h                 FIA WEC: 24h de Le Mans        Fox Sports 2

9h50            Fórmula 1: GP da Europa           Globo

 

Le Mans: história de máquinas e homens…

Um monumento. Muito mais do que um simples desafio ao cronômetro, uma história de máquinas, superação, capacidade de dominar os elementos e desviar das armadilhas do caminho. Le Mans já foi tema de filme, motivou sonhos de torcedores e pilotos dos quatro cantos do mundo, fez a reputação de fábricas e equipes, transformou-se em obsessão de alguns e glória de outros. E o fim de semana que se aproxima marca a 84ª edição das 24 Horas, cada vez mais fortes e prestigiosas, capazes de fazer muita gente se concentrar, sem piscar os olhos, ao longo de duas voltas do relógio.

E ainda que estejamos novamente falando de uma etapa do Mundial de Endurance (FIA WEC), é uma prova a parte, que vale uma temporada, vende carros, rende bons frutos. E nela, desde 200x, está prevista a participação de um projeto que tenha algo de inovador, diferente, aponte novos caminhos. A chamada Garage 56 (por garage, entenda-se box), que mantém o nome muito embora este ano a pista da Sarthe tenha ganho cinco quatro novos boxes, ampliando para 60 o número de máquinas admitidas.

Mas o projeto deste ano nada tem a ver com as máquinas, com combustíveis alternativos ou tecnologias promissoras. Trata-se do sonho de um homem para quem não existe a noção do impossível. Fréderic Sausset perdeu os dois braços e as duas pernas vítima de uma infecção bacteriana generalizada e poderia se dar por satisfeito por continuar vivo, mas não abriu mão do sonho. Viu que, com várias adaptações, poderia comandar um carro de corrida e começou a acelerar em um protótipo CN no campeonato VDV, baseado na França. Le Mans era o sonho e, em nome dele, deu início à equipe SRT 41. De Jacques Nicolet, proprietário da Ligier/OnRoak, obteve o empréstimo de um protótipo Morgan LMP2, que recebeu motorização Nissan, mas ganhou apoio da Audi. Várias empresas se sensibilizaram com a ideia e Sausset conseguiu concretizá-la, tendo a seu lado dois pilotos sem qualquer tipo de deficiência – os experientes Christophe Tinseau e Frederic Bouvet. Lógico que a tarefa de entrar e sair do carro é mais complicada do que habitualmente, mas um bocado de criatividade e inspiração deu origem a um sistema de cordas em que o piloto é “pescado” do cockpit e levado à cadeira de rodas. E seus comandos são substituídos pelos destinados aos outros pilotos da dupla.

O resultado, como seria de se esperar, acaba sendo o menos importante, considerando a grandeza da façanha já alcançada. E o carro 84 nem sequer ficou em último entre os P2. Agora, a ordem é encarar a maratona com a mesma determinação, de forma séria e esperando que a aceitação dos demais concorrentes se mantenha. Aliás, quando Sausset estiver no comando, luzes azuis extras se acenderão no protótipo para alertar os rivais mais rápidos, que assim poderão adotar cautela extra e evitar riscos desnecessários – diga-se de passagem, considerando todas as limitações, o francês de 46 anos registrou tempos mais do que respeitáveis. É o caso de dizer que este é o primeiro vencedor das 24h’2016 antes mesmo de ser abaixada a bandeira tricolor para dar a largada ao pelotão. Que Sausset (que comanda uma fundação em que tenta lutar pela integração dos que lidam com limitações de toda ordem) e seu time se divirtam muito e tenham bastante história para contar…

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A F-1 verde e a vergonha vermelha (Coluna Sexta Marcha – GP do Canadá)

Antes de qualquer consideração, é de uma falta de senso total marcar, separadas por apenas uma semana, etapas do Mundial de F-1 no Canadá e no Azerbaijão, principalmente considerando que pilotos e equipes deixariam Montreal rumo a Baku no sentido Leste. A estreia do circo na terra do petróleo já havia frustrado quem imaginava que Nico Hulkenberg pudesse lutar pela segunda vitória nas 24h de Le Mans (e quem sonhava com uma participação de Fernando Alonso, sabe-se lá como). Tudo bem que calendários batem – e Mônaco/Indianápolis é o melhor exemplo disso – mas há certas ocasiões que deveriam ser preservadas para o bem do esporte, mesmo porque um evento acaba ofuscando o outro (e sendo ofuscado por ele também).

Algo que vai totamente de encontro (não ao encontro, que é totalmente diferente) com a percepção, diga-se de passagem, atrasada, de Bernie Ecclestone sobre sua galinha dos ovos de ouro e a relação com os fãs. Mr. E tinha uma forma de ver as coisas que parecia a frase do velho lobo Zagallo, quando assumiu numa de tantas vezes a Seleção Brasileira. “Nós não nos preocupamos com os adversários, eles é que têm que se preocupar com o Brasil”. Nada mais antiquado e fora de contexto. Assim também o ex-vendedor de carros usados em Londres acreditava que o público seguiria a F-1 de que modo fosse – correndo em destinações longínquas, horários nem sempre favoráveis; tendo que pagar pelo sinal de TV para poder acompanhar os GPs e sem uma fonte de informações e interação à altura em plena era das redes sociais.

Talvez a queda de audiência tenha feito o ex-dono da Brabham acordar; primeiro veio um site oficial, este ano a categoria entrou no Twitter e resolveu criar iniciativas como a escolha do piloto do dia. Agora, confirmando o que já não era segredo para ninguém, veio o acordo com a Heineken, que conseguiu uma dobradinha com a Liga dos Campeões da UEFA que é exemplo em qualquer conversa sobre marketing esportivo. Peça a qualquer criança para listar um patrocinador da competição de clubes e ele certamente indicará a cervejaria holandesa, mesmo que ainda esteja longe de consumir o produto. Ecclestone e os seus finalmente tiveram a humildade de admitir que precisavam de um estímulo assim para não perder terreno numa concorrência cada vez mais acirrada, e olha que eu não falo apenas de categorias de automobilismo, mas de toda e qualquer forma de entretenimento. O primeiro resultado foi ver que o entorno do Circuito Gilles Villeneuve ficou ainda mais verde – com a Rolex também como apoiadora, não demorará muito e teremos o asfalto pintado na mesma cor.

Dito isso, e considerando que de nada adianta ter esforços assim fora da pista se o espetáculo dentro dela não chamar a atenção, é impressionante como a Ferrari vem se especializando em dar tiros no pé quando tem no horizonte a possibilidade de vitória. A largada ontem parecia replay da de Melbourne, e o desfecho também quase acabou sendo. E quando a McLaren de Jenson Button trouxe a deixa para antecipar o pitstop, o gol estava escancarado, era só empurrar para a rede… com pneu macio, que resistiria ao esforço (ainda que no limite) e dispensaria uma segunda parada. Se havia um risco a correr, era melhor que fosse esse – se a borracha acabasse antes do fim, ao menos algo teria sido tentado. Eis que as cabeças pensantes de Maranello fizeram a coisa errada na hora certa, e entregaram mais uma visita ao alto do pódio de bandeja.

Melhor para um Lewis Hamilton que não só exaltou a memória de Muhammad Ali, como levou ao pé da letra a célebre frase do puglista, saltando como uma borboleta e ferroando como uma abelha – que o diga o espetado Nico Rosberg, numa manobra dura, mas leal. E tal qual 2014, depois de começar o ano comendo o pão que o diabo amassou, lá vai o nativo de Stevenage pronto para tomar a ponta e dificilmente se desgrudar dela. Com a Ferrari trepidante e a indecisão na briga pela condição de terceira força (que poderia, eventualmente, como em Barcelona, se aproveitar das circunstâncias), a disputa é um duelo prateado mesmo, ainda que muita água vá passar por baixo da ponte – não a de Valência, que é apenas lembrança. Podia ter sido emocionante à altura dos GPs canadenses recentes, tomara que Baku e seu Tilkódromo, quer dizer, autódromo de rua compensem…

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Agenda de mundiais e marmotas…

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Sim, o simpático roedor aprontou de novo. E não foi no Circuito Gilles Villeneuve, onde já desfilou sua agilidade em meio às máquinas do circo – e olha que já teve gente achando toca deles por lá por esses dias – mas em Michigan, onde a Nascar desembarcou para mais um fim de semana de corridas. Uma marmota bastante ágil divertiu a quase todos (exceção aos fiscais de pista que tiveram a missão de capturá-la do asfalto e levá-la para lugar mais seguro) e atrasou a programação da Xfinity Series. Donde concluo que marmotas realmente gostam de automobilismo, no que estão muito certas, especialmente se se comportarem e deixarem o traçado livre para os pilotos.

Brincadeiras a parte, a perspectiva de chuva e temperaturas mais baixas que o habitual pode trazer mais graça a um já costumeiramente movimentado GP canadense, se bem que novamente os pneus ultrasoft percorreram distância digna de caminhão, e a grande maioria aposta em uma só parada. De todo modo, não é pista das mais fáceis, como se viu pelo grande número de rodadas nos treinos livres. E embora premie muito a força do motor (potência e torque), seria bom ver alguém pondo o bico diante das Mercedes, que seja para esquentar um bocado a corrida. Calor que não falta na ilha da Sardenha, onde outro mundial, o de Rally, faz nova parada. O de Turismo (WTCC) acelera próximo a Moscou, enquanto a turma do Rallycross (incluindo sua majestade Sebastien Loeb) vai à sugestiva cidade norueguesa de Hell, que de infernal não tem nada, medir forças. No ar, entre a turma da gasolina nas veias, já se sente a ansiedade pela aproximação cada vez mais rápida das 24h de Le Mans, que chegam semana que vem, infelizmente ao mesmo tempo do GP da Europa, na inóspita Baku, no Azerbaijão.

Por aqui, nada de corridas, muito menos de marmotas. Coisas do nosso calendário, que as vezes peca pelo excesso, noutras pela falta. Mas tem muita coisa boa para acompanhar, especialmente na TV a cabo, já que F-1 em rede aberta nesse fim de semana nem pensar. Escolhas… com as quais o blog não concorda…

Internacional
Mundial de Fórmula 1: sétima etapa – GP do Canadá (Montreal)
Mundial de Rally (WRC): sexta etapa – Rally Italia Sardegna
Mundial de Turismo (WTCC): sexta etapa – Moscou (RUS)
Mundial de Rallycross (FIA RX): quinta etapa – Hell (NOR)
Verizon Indycar Series: oitava etapa – Texas 600 (Fort Worth)
Nascar Sprint Cup: 15ª etapa – Firekeepers Casino 400 (Michigan)
Nascar Xfinity Series: 14ª etapa – Menards 250 (Michigan)
Nascar Camping World Truck: sétima etapa – Rattlesnake 400 (Texas)

Na telinha
Sexta
22h15    Nascar Camping World Truck: Rattlesnake 400                                Fox Sports 2

Sábado
11h        Fórmula 1: GP do Canadá (treino livre)                        Sportv 2
13h30   Fórmula 1: GP do Canadá (treino oficial)      Sportv 3
14h30   Nascar Xfinity: Menards 250                         Fox Sports 2
21h50   Verizon Indycar: Texas 600               Band

Domingo
14h       Nascar Sprint: Firekeepers Casino 400   Fox Sports 2
14h30  Fórmula 1: GP do Canadá                           Sportv 2

Quando correr é um santo remédio (ou o caso de Rachele e Ulysse)

Ulysse Delsaux e Rachele Somaschini. Talvez você nunca tenha ouvido falar dos dois, mas eles têm motivos de sobra para estar no blog, e pelas razões mais nobres. E mais em comum do que a paixão pelo automobilismo e o fato de serem pilotos em categorias de turismo. Os dois encontraram nas pistas uma forma de lidar com problemas bastante sérios de saúde e transformaram a adrenalina de acelerar num instrumento de melhoria das condições de vida, de alerta para suas condições e, no caso da italiana, de levantar apoio financeiro para ajudar nas pesquisas. E com certeza servem de exemplo ao mostrar que as limitações existem muito mais na teoria do que na prática, qualquer que seja o sonho.

Comecemos pela moça, por uma questão de educação. Rachele tem 22 anos e foi diagnosticada com fibrose cística, doença degenerativa que atinge diversos órgãos, a começar pelo pulmão, tornando a cada dia mais difícil a tarefa de respirar – são pelo menos quatro horas diárias de tratamento e a recomendação de praticar atividades ao ar livre, com um estilo de vida saudável. Depois de acompanhar o pai, Luca, numa prova para modelos históricos, ela se apaixonou de tal modo pela velocidade que não só decidiu que disputaria o Campeonato Italiano de Subida de Montanha (CIVM) e o Mini Challenge italianos como ainda conheceu, na equipe, seu namorado. Hoje, no macacão, está bem clara a inscrição “I Love FFC” (a sigla da Fundação de Pesquisa para a Fibrose Cística).

Rachele

“Sempre gostei do automobilismo e, não fosse a minha condição, teria começado no kart quando menina, mas não me dei por vencida. Apesar das limitações e das dificuldades, quero muito viver esse mundo de barulho de motores e emoção. Não é fácil – as vezes preciso de três dias de repouso total para me recuperar de uma corrida curta, e meu sonho era disputar uma prova de longa duração em dupla com meu pai. Depende também do aspecto econômico”, vamos ver, diz a garota, que já guarda troféus não só pelo desempenho na categoria feminina das competições. No capacete, ela leva a inscrição “apenas respire” e seu padrinho nas pistas é ninguém menos que o inoxidável, interminável Arturo Merzario.

Ulysse é ainda mais novo que Rachele – vai completar 19 anos em setembro. E, já menino, começou a manifestar comportamentos típicos da Síndrome de Asperger, que é uma forma de autismo  da qual ainda não se sabe tanto, mas que isola o portador do mundo exterior, fazendo-o viver uma realidade própria, quase impenetrável. Depois de muito procurar, seus pais viram que no automobilismo ele encontrou uma atividade que o fez se integrar, baixar a guarda, mobilizar seu foco. E não é pouca coisa você ser o sétimo colocado na categoria Elite 2 da Nascar Whelen Euro Series, que o blog já mostrou por aqui. O que lhe valeu, aliás, a chance de disputar uma etapa da série K&N Pro East – uma das várias categorias de acesso ao trio principal da Stock norte-americana. E seu chefe de equipe é ninguém menos que Claude Galopin, um dos responsáveis pela aventura da AGS na Fórmula 1, nos anos 1980 e 90.

O francês não apenas mostra uma evolução elogiável no cockpit como também fora dele, menos esquivo e mais integrado com o público. Dois exemplos muito interessantes de como a velocidade pode fazer muito bem à saúde, além de todos os outros benefícios já comprovados pela ciência para quem participa ou assiste.

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Era pra ser uma agenda alegre, mas…

Se fôssemos apenas cérebro e razão, eu começaria o post dizendo que a agenda da velocidade no fim de semana está caprichada até demais, com atrações para todos os gostos e corridas a perder de vista na telinha. Mas, somos emoção também (felizmente) e não dá para não se entristecer com o que foi o primeiro dia de treinos para o GP da Catalunha de Moto GP e o desfecho trágico para o espanhol Luis Salom, vice-campeão da Moto 3 em 2012, durante a segunda sessão livre da Moto 2. A cena é daquelas que não gostaríamos de ver e determinar causas para o acidente só serve para tentar dar mais um passo em termos de segurança e evitar que se repita. Infelizmente o imponderável ainda é mais forte do que os airfences (as barreiras de ar inflável usadas para amortecer impactos); os macacões com airbags que se ativam em milésimos de segundo ou as largas áreas de escape.

É raro, bem mais do que no passado, mas acontece. E como sempre é o caso, enche de nuvens o clima de um evento que tinha tudo para ser tão sensacional quanto o anterior, em Mugello. Não haverá festa, a tensão será bem maior, os homens de ferro mais uma vez se darão conta de que não são imortais. Fica a expectativa de que o que vem pela frente nas pistas do Brasil e do mundo nos próximos dias seja apenas o que queremos ver: disputas emocionantes, ultrapassagens e a consagração dos vencedores nas diversas categorias em um clima descontraído. Até por isso, mais do que todas as homenagens que já foram feitas e ainda virão, preferi uma foto mais positiva, que é como espero que tudo ocorra.

DTM

 

Internacional
Mundial de Endurance (WEC): treinos extra-oficiais para as 24h de Le Mans
Mundial de Moto GP: sétima etapa – GP da Catalunha (Montmeló)
Verizon Indycar Series: sexta e sétima etapas – Detroit Duels
DTM: terceira etapa – Lausitzring
TCR International Series: quinta etapa – Salzburgring (AUT)
IMSA Weather Tech: quinta etapa – Detroit
Euroformula Open: terceira etapa – Paul Ricard (FRA)
GT Open: terceira etapa – Paul Ricard (FRA)
Nascar Sprint Cup: 14ª etapa – Axalta 400
Nascar Xfinity Series: 13ª etapa – Pocono Green 250

Nacional
Brasileiro de Stock Car: quarta etapa – Santa Cruz do Sul (RS)
Brasileiro de F-Truck: quarta etapa – Goiânia
Brasileiro de Fórmula 3: segunda etapa – Santa Cruz do Sul (RS)
Brasileiro de Marcas (Copa Petrobras): terceira etapa – Santa Cruz do Sul (RS)
Top Kart Brasil: etapa Interlagos

Na telinha
Sábado (4)
7h30 Mundial de Moto GP: GP da Catalunha (treinos oficiais) Sportv
13h30 IMSA: GP de Detroit Fox Sports 2
13h30 Stock Car: etapa de Santa Cruz do Sul (treino oficial) Sportv 3
15h30 Nascar Xfinity: etapa de Pocono Fox Sports 2
16h30 Fórmula Indy: GP de Detroit (prova 1) Bandsports

Domingo (5)
6h Mundial de Moto GP: GP da Catalunha (Moto 3/Moto 2/Moto GP) Sportv
7h35 TCR International Series: etapa de Salzburgring * live timing em http://tcr-series.com/
13h Stock Car: etapa de Santa Cruz do Sul Sportv 2
13h Brasileiro de F-Truck: etapa de Goiânia Band
14h10 Nascar Sprint Cup: etapa de Pocono Fox Sports 2
16h30 Fórmula Indy: GP de Detroit (prova 2) Bandsports