A F-1 verde e a vergonha vermelha (Coluna Sexta Marcha – GP do Canadá)

Antes de qualquer consideração, é de uma falta de senso total marcar, separadas por apenas uma semana, etapas do Mundial de F-1 no Canadá e no Azerbaijão, principalmente considerando que pilotos e equipes deixariam Montreal rumo a Baku no sentido Leste. A estreia do circo na terra do petróleo já havia frustrado quem imaginava que Nico Hulkenberg pudesse lutar pela segunda vitória nas 24h de Le Mans (e quem sonhava com uma participação de Fernando Alonso, sabe-se lá como). Tudo bem que calendários batem – e Mônaco/Indianápolis é o melhor exemplo disso – mas há certas ocasiões que deveriam ser preservadas para o bem do esporte, mesmo porque um evento acaba ofuscando o outro (e sendo ofuscado por ele também).

Algo que vai totamente de encontro (não ao encontro, que é totalmente diferente) com a percepção, diga-se de passagem, atrasada, de Bernie Ecclestone sobre sua galinha dos ovos de ouro e a relação com os fãs. Mr. E tinha uma forma de ver as coisas que parecia a frase do velho lobo Zagallo, quando assumiu numa de tantas vezes a Seleção Brasileira. “Nós não nos preocupamos com os adversários, eles é que têm que se preocupar com o Brasil”. Nada mais antiquado e fora de contexto. Assim também o ex-vendedor de carros usados em Londres acreditava que o público seguiria a F-1 de que modo fosse – correndo em destinações longínquas, horários nem sempre favoráveis; tendo que pagar pelo sinal de TV para poder acompanhar os GPs e sem uma fonte de informações e interação à altura em plena era das redes sociais.

Talvez a queda de audiência tenha feito o ex-dono da Brabham acordar; primeiro veio um site oficial, este ano a categoria entrou no Twitter e resolveu criar iniciativas como a escolha do piloto do dia. Agora, confirmando o que já não era segredo para ninguém, veio o acordo com a Heineken, que conseguiu uma dobradinha com a Liga dos Campeões da UEFA que é exemplo em qualquer conversa sobre marketing esportivo. Peça a qualquer criança para listar um patrocinador da competição de clubes e ele certamente indicará a cervejaria holandesa, mesmo que ainda esteja longe de consumir o produto. Ecclestone e os seus finalmente tiveram a humildade de admitir que precisavam de um estímulo assim para não perder terreno numa concorrência cada vez mais acirrada, e olha que eu não falo apenas de categorias de automobilismo, mas de toda e qualquer forma de entretenimento. O primeiro resultado foi ver que o entorno do Circuito Gilles Villeneuve ficou ainda mais verde – com a Rolex também como apoiadora, não demorará muito e teremos o asfalto pintado na mesma cor.

Dito isso, e considerando que de nada adianta ter esforços assim fora da pista se o espetáculo dentro dela não chamar a atenção, é impressionante como a Ferrari vem se especializando em dar tiros no pé quando tem no horizonte a possibilidade de vitória. A largada ontem parecia replay da de Melbourne, e o desfecho também quase acabou sendo. E quando a McLaren de Jenson Button trouxe a deixa para antecipar o pitstop, o gol estava escancarado, era só empurrar para a rede… com pneu macio, que resistiria ao esforço (ainda que no limite) e dispensaria uma segunda parada. Se havia um risco a correr, era melhor que fosse esse – se a borracha acabasse antes do fim, ao menos algo teria sido tentado. Eis que as cabeças pensantes de Maranello fizeram a coisa errada na hora certa, e entregaram mais uma visita ao alto do pódio de bandeja.

Melhor para um Lewis Hamilton que não só exaltou a memória de Muhammad Ali, como levou ao pé da letra a célebre frase do puglista, saltando como uma borboleta e ferroando como uma abelha – que o diga o espetado Nico Rosberg, numa manobra dura, mas leal. E tal qual 2014, depois de começar o ano comendo o pão que o diabo amassou, lá vai o nativo de Stevenage pronto para tomar a ponta e dificilmente se desgrudar dela. Com a Ferrari trepidante e a indecisão na briga pela condição de terceira força (que poderia, eventualmente, como em Barcelona, se aproveitar das circunstâncias), a disputa é um duelo prateado mesmo, ainda que muita água vá passar por baixo da ponte – não a de Valência, que é apenas lembrança. Podia ter sido emocionante à altura dos GPs canadenses recentes, tomara que Baku e seu Tilkódromo, quer dizer, autódromo de rua compensem…

baku

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s