‘A história do parafuso RB-12-FS-00663-02’. Fórmula 1 é complicado, amigo…

Esse vídeo é bom demais pra não mostrar aqui. E vale especialmente para aqueles momentos em que a gente acha que desenvolver um carro de Fórmula 1 é simples, ou não se dá conta do nível de tecnologia e precisão a que o circo chegou. A Red Bull, que continua campeã em se tratando da comunicação, resolveu exemplificar isso contando a história de um “mero”  parafuso da suspensão dianteira do RB12, o RB-12-FS-00663-02, desde o momento em que é concebido até sua montagem no devido lugar. São menos de três minutos, mas é tempo suficiente para se ter a exata noção da loucura que é desenvolver cada pecinha desse genial quebra-cabeças…

https://www.redbullcontentpool.com/embed/video/57ee706989a41d742e25e4d5

Earnhardt e um anúncio de arrepiar…

Ok, o Brasil também sabe fazer bonito quando o assunto é publicidade, mas os norte-americanos têm uma relação especial com seus ídolos e sabem aproveitar todo o carisma e apelo para oferecer produtos de uma forma sutil. Que o diga esse anúncio da Goodyear que tem como personagem Dale Earnhardt Jr. Adorado por muitos, odiado por alguns, um senhor piloto ainda que não consiga o título da Nascar Sprint Cup – aliás, se recupera de uma concussão cerebral algo séria, que o tirou de boa parte da reta final da temporada.

Acima de tudo, o piloto do carro 88 é o herdeiro de um dos maiores nomes da história da Stock Car, o saudoso Dale Earnhardt, “The Intimidator”, que conseguia ser tão duro dentro da pista quanto generoso e acessível fora dela, a ponto de merecer o respeito e a admiração dos rivais. Dale Senior perdeu a vida na mesma pista de Daytona que se transformou em obsessão, o que só fez aumentar o mito.

“Eu fui feito nas sombras da grandeza.

Esculpido pelas mãos do legado.

Forjado no fogo da velocidade.

Fui desafiado, testado e provado.

Mas na pista ou fora dela,

a verdade é que você é feito daquilo que você faz”.

Fala a verdade: o texto serve para os pneus e principalmente para a trajetória de Dale Jr. e a eterna necessidade de mostrar que é mais do que “o filho de…”. É ou não é de arrepiar?

 

Agenda de estação e carro novos

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Pra começo de post, a imagem que o amigo leitor vê não é obviamente de nenhum dos campeonatos pelo mundo no fim de semana, mas já tem a ver bastante com 2017 – o esporte motor é assim, enquanto as competições se desenrolam já é hora de pensar adiante, especialmente quando se tem novas regras, e este é exatamente o caso. A categoria LMP2, a segunda mais importante na fileira dos protótipos pelo mundo, passará a ter máquinas produzidas por apenas quatro construtores: Ligier/OnRoak, Dallara, Oreca e Riley/Multimatic, com diferenças para os EUA (na IMSA ela é, digamos assim, a cabeça de chave, já que os P1 são exclusividade do Mundial) e o resto do mundo. Na terra do Tio Sam , os carros serão conhecidos como DPi (Daytona Prototypes International) e poderão ter motores variados, além de uma aerodinâmica específica para cada montadora envolvida oficialmente. Na Europa e na Ásia, é motor Gibson V8 e visual igual conforme a marca.

Dito isso, a Ligier (a casa criada por Guy Ligier foi absorvida pela OnRoak, de Jacques Nicolet) foi a primeira a revelar sua nova arma, o JSP217, que está anos luz de ser uma simples evolução do modelo atual que, nas mãos do brasileiro Pipo Derani (e não só), dominou as 24h de Daytona e as 12h de Sebring deste ano. É até desnecessário usar adjetivos (com a fibra de carbono aparente fica sensacional) e confirma o nível de evolução aerodinâmica atingido hoje, apesar dos limites de preço para o chassi.

Dito isso, o fim de semana tem Mundial de Moto GP em Motorland Aragón; de Turismo (WTCC) em Shanghai; DTM, European Le Mans Series (ELMS) em Spa, onde, aliás, o JSP217 deu as caras pela primeira vez; Nascar firme e forte na segunda prova do Chase da Sprint Cup em Loudon – aqui temos Stock, F-3 e Marcas em Londrina, além do Brasileiro de Rally de Velocidade, no Vale do Paraíba, em São Paulo.

Internacional

Mundial de Moto GP: 14ª etapa – GP de Aragón (Motorland)

Mundial de Turismo (WTCC): 10ª etapa – Shanghai (CHI)

DTM: oitava etapa – Hungaroring

European Le Mans Series: sexta etapa – Spa-Francorchamps (BEL)

Europeu de F-Renault: sexta etapa – Spa-Francorchamps (BEL)

Nascar Sprint Cup: 28ª etapa – Bad Boy Off-Road 300 (Loudon)

Nascar Xfinity Series: 27ª etapa – VisitMyrtleBeach 300 (Kentucky)

Nascar Camping World Truck Series: 17ª etapa – Unoh 175 (Loudon)

Nacional

Brasileiro de Stock Car: oitava etapa – Londrina

Brasileiro de Marcas: sexta etapa – Londrina

Brasileiro de Fórmula 3: quinta etapa – Londrina

Brasileiro de Rally (Velocidade): quarta etapa – Rally do Vale do Paraíba (Taubaté/Caçapava)

Na telinha

Sábado (24)

7h30               Moto GP: treinos oficiais – GP de Aragón                    Sportv

13h55             Stock Car: treino oficial – etapa de Londrina            Sportv 2

21h                   Nascar Xfinity: etapa de Kentucky                                 Fox Sports 2

Domingo (25)

6h              Moto GP: GP de Aragón      (Moto3/Moto2/Moto GP)              Sportv

13h          Stock Car: etapa de Londrina            Sportv

15h          Nascar Sprint Cup: etapa de Loudon                         Fox Sports 2

 

O próximo candidato

Se há, no atual momento, um brasileiro que reúna as condições para sonhar com a chegada à Fórmula 1 (dentro e fora da pista), esse é o mineiro Sérgio Sette Câmara. Primeiro por estar no caminho certo, apesar dos percalços – os resultados na segunda temporada pelo Europeu de Fórmula 3 não espelham sua competitividade e o amadurecimento de quem foi ao pódio duas vezes no Masters de Zandvoort e é o atual recordista do complicadíssimo traçado de rua de Macau. Segundo por já ter tido a condição de pilotar um carro da “máxima” – aliás, a Toro Rosso Ferrari desse ano pra valer e a Red Bull que foi de um certo Sebastian Vettel em duas exibições. E não deve ser ano que vem, que nem está nos planos, mas pode ser em 2018, por que não? Pois eu tive a chance de bater um papo com Serginho para o jornal Hoje em Dia e reproduzo aqui, para você saber o que pensa o melhor candidato a manter o verde e amarelo no circo…

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Ele começou no kart quando ainda não alcançava os pedais e, mineiramente, foi subindo a pirâmide que separa os milhares de pilotos de todo o mundo de uma carreira como profissional no automobilismo internacional. E, de onde está, já começa a ver o topo sem precisar de lente de aumento.
Aliás, o mineiro Sérgio Sette Câmara já teve o gosto de comandar um F-1 atual – também participou de uma exibição com o carro usado por Sebastian Vettel para conquistar o título de 2012 e acelerou nas ruas de Glasgow ao lado de David Coulthard. Em julho, uma semana depois do GP da Inglaterra, testou com a Toro Rosso em Silverstone, dividindo a pista, por exemplo, com Kimi Räikkönen.

Atualmente no Europeu de Fórmula 3 como integrante do programa de talentos da Red Bull (o mesmo que revelou Vettel, Daniel Ricciardo e Carlos Sainz Jr.) e defendendo a equipe Motopark, Serginho, 18 anos, se transformou numa das principais esperanças de presença verde e amarela competitiva no circo, especialmente com o anúncio da aposentadoria de Felipe Massa. Ele falou sobre a temporada, os planos e expectativas.

Testar um F-1 foi a realização de um sonho. Como você encara a possibilidade de chegar à categoria nos próximos anos?
Foi uma experiência excelente, mas encaro meu futuro como sempre fiz. Estou um pouco mais perto mas não muda nada, apenas me dá mais vontade de seguir trabalhando para chegar lá em breve e saber que o esforço está sendo recompensado.

Seu desempenho com o carro foi bom logo de cara e elogiado pela Toro Rosso. O que mais te chamou a atenção, considerando a diferença entre um F-1 e um F-3?
Mais do que qualquer comentário, o importante é que eu fiquei muito feliz com meu desempenho e satisfeito com o dia de testes, porque sempre fui rigoroso com o que faço. O carro impressiona pelo downforce (pressão aerodinâmica), é muito diferente, o motor é muito potente, com muita tecnologia. Mas, o que mais chamou a atenção foram os motores elétricos e o torque que eles proporcionam. É impressionante a força em baixas rotações, foi bem diferente de tudo o que eu esperava.

Mineiramente você traçou seu caminho desde o kart e, de repente, quem não te conhecia descobriu um piloto que tem tudo para ser o próximo brasileiro no circo. O assédio e o interesse te surpreenderam? Você enxerga isso de forma positiva ou como uma pressão a mais?
Realmente veio de repente. Assim que tomamos a decisão de encarar o Europeu de Fórmula 3, que era um risco, e os bons resultados vieram, comecei a me destacar, mas não me atingiu tanto, sempre fui tranquilo em relação a isso. O nível do assédio ainda é muito baixo com relação a um atleta que chega ao topo de seu esporte. Não encaro como pressão. É uma parte do meu crescimento e, se eu quero chegar lá, tenho que me acostumar com isso.

Ser piloto do programa de talentos da Red Bull é um privilégio, mas há quem diga que a paciência é pouca e as cobranças demasiadas. Como tem sido a experiência? E o contato com Helmut Marko?
Tem sido uma experiência impressionante, esse ano tive a chance de pilotar no simulador de Fórmula 1 da equipe inúmeras vezes, pilotei um F-1 três vezes considerando as exibições, estou vivendo a experiência de levar uma marca global no peito, sou muito grato a eles. A atitude deles é realmente agressiva, mas é natural esperar de seus pilotos que façam sempre o melhor. Quanto ao Marko, escrevo os relatórios depois das corridas e conversamos algumas vezes, mas é uma pessoa tranquila de lidar. É um profissional muito competente e inteligente.

Como você mesmo comentou, neste ano tem faltado sorte: na corrida em que foi pole pela primeira vez (Nurburgring), a troca de motor o fez largar em 11º e alguns problemas o impediram de confirmar o potencial. Como tem encarado esse tipo de dificuldade?
Realmente a coisa não funcionou exatamente como esperávamos, a equipe já errou, eu já errei, faltou sorte, um pouco de tudo. O mais importante é que sinto que melhorei muito como piloto, estou rápido, como mostrou a pole por dois décimos de segundo, isso me deixa feliz e confiante, e ainda tenho o restante do campeonato para evoluir e seguir mostrando serviço.

Fale um pouco sobre sua rotina de preparação na Espanha e sua vivência em um centro de alto rendimento (o CAR, em Barcelona) com atletas de outras modalidades. Em que isso é importante para seu trabalho na pista?
Minha vivência é muito importante, é uma experiência muito útil conviver com outros atletas, muitos deles até do automobilismo, todos respiram competição. Estou muito bem em todos os aspectos: físico, mental e o desempenho na pista. Falta apenas aquele resultado que confirme isso, mas vai encaixar.

Ainda há todo o restante de temporada 2016, mas, como estão os planos para 2017? Alguma categoria em vista? Existe a chance de permanecer na F-3?  E como você encararia a chance de disputar uma categoria profissional como o DTM ou o Mundial de Endurance?
É algo que não depende só de mim, eu prefiro pensar agora nas corridas e tem gente que trabalha comigo e se dedica a isso, no momento certo vamos tomar as decisões. Há várias opções válidas e todas me ajudariam bastante. Na GP2 seria interessante lidar com um carro muito potente, acho que estou pronto para a categoria, mas, por outro lado, o primeiro ano seria de aprendizado, e agora eu acho que tenho de pensar em títulos, o que poderia ser o caso na GP3, ou permanecendo na F-3. E sobre ir para o DTM ou a Endurance, lógico que a F-1 é uma meta, ainda mais agora, mas são dois campeonatos sensacionais. Sou um piloto de corrida e quero chegar a uma categoria com carros maravilhosos e muita competição.

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Lagartos não me mordam (Coluna Sexta Marcha – GP de Cingapura)

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Então Nico Hulkenberg se colocou de propósito entre Max Verstappen e Carlos Sainz Jr. para forçar um acidente e permitir a vitória… do xará Nico Rosberg…

Perdão pela brincadeira, mas a chance era boa demais para ser desperdiçada. Mesmo porque, depois de acompanhar atentamente as 61 voltas pelas ruas de Cingapura, ver a imensa roda gigante disfarçada de relógio de luxo e curtir a turma que prefere ver tudo do alto, ainda mais de uma piscina sem borda, fiquei pensando sobre o que teria sido mais importante ao longo do fim de semana: se o passeio inocente de um lagarto crescidinho pela pista (e vamos combinar, eita lugar onde se gosta de atravessar o caminho das máquinas); o passeio menos inocente de um fiscal de pista mal orientado ou o boliche dos primeiros metros (e eita Hulkenberg que gosta de uma batida em Cingapura…).

Porque se a 15ª etapa do Mundial de Fórmula 1 fosse um filme de suspense, teria mantido o espectador grudado na cadeira até a última cena, esperando por um desfecho surpreendente… que não aconteceu. Como largaram os pilotos? Rosberg, Ricciardo e Hamilton. Como terminaram? Rosberg, Ricciardo e Hamilton. E olha que eu não contei, mas certamente foram bem mais ultrapassagens do que um ano antes (apenas 12), a grande maioria sem necessidade de ajuda do DRS. E ainda tivemos um inspirado Daniil Kvyat mostrando a Max Verstappen que nem todo dia santo é santo dia; que não é o caso de tirar o carro da trajetória e estender tapete vermelho, muito antes pelo contrário.

No mais, os problemas de freios das Mercedes foram precaução mais que qualquer outra coisa, e o ataque de Ricciardo e sua Red Bull nas voltas finais um arremedo de reação que dificilmente se concretizaria. Temos um campeonato, é verdade, assim como um alemão que mostra força mental e pilotagem dignas de quem realmente quer ser campeão. Embora sempre fique a impressão de que Lewis Hamilton vai levar a melhor mais cedo ou mais tarde. No mais, por mais que Verstappen Junior tenha levado a sua na Espanha, tudo indica que será episódio isolado, tal e qual as McLarens em 1988. Tomara que não seja necessário a turma da Liberty Media apelar para algum dinossauro no caminho das máquinas para manter a audiência em alta…

Agenda felizmente interminável…

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Fórmula, GT, Endurance, Stock Car, Turismo, Rallycross. Quando todas as modalidades estão reunidas numa só agenda, num fim de semana que, ainda por cima, vai revelar campeões, é sinal de que tem muita coisa boa pelo mundo da velocidade. E eu nem colocaria no topo o GP de Cingapura de Fórmula 1, embora haja a expectativa (talvez mais um desejo) de que Red Bull e Ferrari se aproximem ou superem as Mercedes, tal e qual ano passado.

Mas ainda que o circo não tivesse montado sua lona lá pros lados de Marina Bay já teríamos corridas boas com sobra. A começar pela própria pista de rua, que também recebe a sempre animada e competitiva TCR International Series, novamente em dobradinha com a festa do Tio Bernie. Nurburgring é o palco da última etapa da série de resistência do Blancpain GT Series e, na terra do Tio Sam então, nem se fala.

Felizes os norte-americanos que, ao mesmo tempo, vão curtir a sexta etapa do Mundial de  Endurance, em dobradinha com o Weather Tech Sportscar Championship, ainda por cima num palco como Austin; a decisão da Indy em Sonoma (seria melhor dizer o duelo interno na Penske?) e a Nascar iniciando seu Chase em Chicagoland, com a Teenage Mutant Ninja Turtles 400 (sim, depois do Bob Esponja ano passado, agora é a vez das Tartarugas Ninjas…). E tem mais, como você pode conferir na infalível (quase…) listinha abaixo. Sem deixar de lembrar que, por aqui, temos os 500km de São Paulo no Velo Cittá.

Internacional

Mundial de Fórmula 1: 15ª etapa – GP de Cingapura

Mundial de Endurance (FIA WEC): sexta etapa – Austin (EUA)

Mundial de Rallycross (FIA RX): nona etapa – Montmeló (ESP)

Verizon Indycar Series: 16ª etapa – GoPro GP of Sonoma

Weather Tech Sportscar: Lone Star Le Mans – Austin

TCR International Series: nona etapa – Cingapura

Blancpain GT Endurance Series: última etapa – Nurburgring

Nascar Sprint Cup: 27ª etapa – Teenage Mutant Ninja Turtles 400 (Chicagoland)

Nascar Xfinity Series: 26ª etapa – Drive for Safety 300 (Chicagoland)

Nascar Camping World Truck Series: 16ª etapa – American Ethanol (Chicagoland)

Global Rallycross Championship (GRC): 10ª etapa – Seattle

V8 Supercars: 10ª etapa – Sandown 500

Mundial de Superbikes: 11ª etapa – GP da Alemanha (Lausitzring)

Nacional

Brasileiro de Endurance: terceira etapa – 500km de São Paulo

Na telinha

Sábado (17)

7h                 Fórmula 1: GP de Cingapura (treino livre)                  Sportv

8h20         TCR International Series: etapa de Cingapura          live streaming em http://tcr-series.com/

10h               Fórmula 1: GP de Cingapura (treino oficial)               Sportv/Globo (* apenas o Q3)

13h30         Weather Tech Sportscar: Lone Star Le Mans            live streaming em www.imsa.tv

16h30      Nascar Xfinity: etapa de Chicagoland                              Fox Sports 2

Domingo (18)

6h           TCR International Series: etapa de Cingapura          live streaming em http://tcr-series.com/

9h              Fórmula 1: GP de Cingapura              Globo

15h30    Nascar Sprint: etapa de Chicagoland              Fox Sports 2

19h30    Indy: GP de Sonoma                               Band/Bandsports

Eu já sabia… e não só eu…

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O ano era 1998 e o local, infelizmente hoje é sinônimo de saudade, por mais que tenha dado espaço a uma estrutura igualmente interessante. Antevéspera do início dos treinos para a Rio 200, etapa da Série Mundial da F-Indy (assim se chamava então), paddock do Autódromo Internacional Nelson Piquet, em Jacarepaguá, estávamos eu e o colega Vicente Dattoli (que pelo sobrenome também não esconde as origens) e aparece um sujeito de camiseta e bermuda caminhando calmamente por entre os boxes e estruturas dos times. Como ele era notícia (e muito), lá fomos os dois em busca de uma entrevista. Nada de assessores de imprensa com gravadores pendurados, horários corridos, compromissos, exclusividades de TV.

Não ganhamos apenas a entrevista e a matéria (eu no Estado de Minas, Vicente no Jornal do Brasil), mas uma conversa que durou boa meia hora e não ficou apenas na corrida, na categoria, no automobilismo. Falou-se de tudo e mais um pouco, ainda mais que o papo caminhou num italiano esforçado. E tudo bem que o ambiente da Indy sempre foi mais descontraído, mais acessível – acho que contei em outro post que tive o privilégio de ganhar uma aula de um “certo” Gil de Ferran durante um atraso por chuva com direito a café servido pelo campeão de 2000 – mas “o cara” era o cara. Não havia quem não tivesse olhos e atenções para aquele Reynard Honda de número 4, num belíssimo vermelho com direito aos raios amarelos descendo pelo bico.

Quem viveu aqueles tempos em que a série norte-americana tinha nível e espetáculo suficiente para peitar o circo já notou que o personagem em questão é Alessandro Zanardi. E o objetivo do post não é senão mostrar que o bolonhês já era um monstro de simpatia, carisma e humildade muito antes de passar por um momento que quase significou o ponto final da história. Éramos dois rostos desconhecidos com, no máximo, quatro ou cinco provas acompanhadas de perto, e isso não fez a menor diferença.

E pensar que tudo aquilo que “Zanna”, como carinhosamente chamam os compatriotas, havia vivido até então era fichinha diante do que a vida ainda reservava. Ele não precisava fazer nada por ninguém, senão por sua imensa fome de vida. No longo tempo em que se recuperou do gravíssimo acidente que levou as duas pernas, mas não a vontade de seguir, não pensava em voltar a pilotar, em buscar títulos, só não queria parar por ali. E o que veio depois não foi mais do que a celebração de uma frase que Barack Obama certamente emprestará, e ainda permitirá a modificação: “Yes, I can.” Sim, eu posso comandar uma máquina no Mundial de Turismo (WTCC) e vencer. Sim, eu posso terminar as voltas que faltaram naquele maldito 15 de setembro de 2001 em Lausitzring. Sim, eu posso disputar as 24h de Spa-Francorchamps ao lado de dois pilotos sem limitações, no mesmo carro, competindo em igualdade de condição com as demais 50 e tantas máquinas.

Sim, eu posso fazer das mãos a minha ferramenta para ganhar o asfalto, engolir quilômetros, seja escondido sob um macacão e uma carroceria, seja exposto numa handbike. Não, o cronômetro não é maior do que eu assim como a morte, a dúvida, a perda. Alessandro Zanardi apenas reescreve a história, porque façanhas já são inúmeras, a começar por estar ele mais vivo e forte do que nunca hoje. E que belo é o destino que, se tira de um lado, permite que o bicampeonato paralímpico aconteça muito perto do que foi Jacarepaguá. Ele nem precisaria fazer tanto. Se você não teve o privilégio de acompanhar o que eram as demonstrações de talento desse cara com quase 1.000 cavalos nas costas (basta uma delas: procure no YouTube pela ultrapassagem sobre Bryan Herta no Sacarrolhas de Laguna Seca), e mais ainda, se não teve o privilégio de constatar em primeira pessoa tudo o que sempre se disse de bom dele e o porque de tanta gente estar feliz com o resultado desta quarta-feira, eu reafirmo. Não é um monstro, sempre foi. Auguri… Como ele mesmo fez questão de dizer em perfeito português: “segura o italiano”.

Faz sete enormes anos…

O perfil oficial da Fórmula 1 no Twitter (coisa que demorou a aparecer diante da resistência inicial de Bernie Ecclestone) lembra que, há exatos sete anos, Rubens Barrichello conquistava a última das 101 vitórias brasileiras no circo. Monza’2009, com a Brawn. Parece já uma eternidade e, para os padrões a que nos acostumamos, realmente é. Pior da história é imaginar que o triunfo 102 e o Hino Nacional demorarão a surgir na F-1.

Lógico que não há como comparar, mas que dá uma inveja danada olhar para a Moto GP e constatar que a temporada já contou com oito vencedores, de quatro marcas diferentes, incluindo dois pilotos de times semioficiais. Aí talvez fosse possível até sonhar com um desfecho improvável mas feliz…

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Formula 1/Twitter/reprodução

F-1 de dono novo. E o que temos a ver com isso?

BUDAPEST, HUNGARY - JULY 24: Daniel Ricciardo of Australia driving the (3) Red Bull Racing Red Bull-TAG Heuer RB12 TAG Heuer makes a pit stop during the Formula One Grand Prix of Hungary at Hungaroring on July 24, 2016 in Budapest, Hungary. (Photo by Mark Thompson/Getty Images)

A história, assim como a composição acionária da FOM, que comanda o circo da F-1, é complicada, cheia de meandros. Aquela coisa de uma empresa que é dona da outra, que controla uma holding, que tem sede num paraíso fiscal, um pequeno percentual de fulano, outro de beltrano – e Bernie Ecclestone, que construiu o império, à frente de tudo, embora não mais seja o dono do espetáculo. Por isso, é de se questionar qual a importância de saber que o conglomerado Liberty Media desembolsou US$ 8 bilhões para comprar 18,7% das ações da Delta Topco (a controladora da categoria) que pertenciam à também americana CVC Capital Partners.

O próprio Mr. E, que continuará comandando o boteco até 2019, resumiu a operação comercial a seu jeito: “eles estão entrando para ganhar dinheiro, assim como quem estava antes também queria o mesmo”. Dito assim, seria o caso de imaginar que nada mudará radicalmente nos próximos anos, mas não deve ser dessa forma.

A turma do fundo CVC – daquelas instituições norte-americanas que unem desde grupos de professores aposentados a gigantes do mercado financeiro em busca de oportunidades lucrativas de investimento – preferia deixar o dia a dia nas mãos de Ecclestone. E não ligava muito para o fato de que o ex-dono da Brabham se lixava para as mídias sociais, custou a criar um site decente para a categoria e passar a promovê-la em Twitter e Facebook. Ao mesmo tempo, a Moto GP surfava nas ondas das provas emocionantes e as corridas cada vez mais sonolentas afastavam espectadores, diminuíam a venda de ingressos e a audiência na TV (em alguns países, aliás, transmissão em canais abertos já é coisa do passado).

Tio Bernie achava que o tempo dos ovos de ouro duraria para sempre; que a fila de países dispostos a abrir os cofres para sediar corridas não terminaria jamais, e que a seleção natural da categoria (se alguém não consegue sobreviver, outro alguém ocupa as vagas no grid) se encarregaria de manter as vacas gordas, o que está longe de ser o caso. Agora, parece que ele aceitará dividir as decisões com Chase Carey, dirigente indicado por John “Darth Vader” Malone, fundador e CEO da Liberty Media. Que, com empresas em seu portfólio como os canais Discovery e as emissoras de rádio via satélite Sirius XM, vai querer fazer muito barulho para que o investimento gere lucro.

É aí que entra a pergunta feita no título do post: e o que nós, pobres mortais fãs da categoria, temos a ver com isso? É de se imaginar que a tal da “mentalidade norte-americana” de espetáculo traga tudo aquilo que o próprio Bernie já sugeriu, mais por provocação, e ninguém teve coragem de fazer para não desnaturar a F-1. Coisas do tipo grids invertidos, lastro de peso para os mais rápidos, pontuação mais robusta, talvez até playoffs para definir os campeões. O que, conforme o caso, até não seria má ideia, não fossem três letrinhas: FIA. A entidade (e seu presidente Jean Todt, principalmente), dificilmente aceitará transformar a categoria numa Nascar para monopostos e, se exercer o direito a veto, fica tudo como está. E a bem da verdade é preciso cuidado para não se passar do vinho para a água. Se a coisa começar pelos aspectos extra-pista, por aproximar o circo do público, aí sim terá sido um grande negócio.

Meninos, eu vi (Coluna Sexta Marcha especial)

  • Sim, o espaço da coluna deveria se limitar à Fórmula 1, mas, por um ótimo motivo, abro uma exceção e falo do mais novo autódromo do país, e da história de quem acreditou no que parecia tão distante, tão improvável (eu inclusive). Mesmo porque, como alguém bem definiu numa rede social, o GP da Itália foi a melhor corrida da temporada do circo, única e exclusivamente por ter sido a mais curta e poupado a audiência de mais momentos sonolentos. Em Curvelo, por outro lado, motos e carros mostraram que com um espetáculo bem mais modesto (considerando tecnologia e orçamentos), dá para fazer corridas de primeiríssima. E o Brasil conheceu sua mais nova pista, quando tudo o que havia era o sumiço de Jacarepaguá, Brasília na UTI e o fecha-não fecha de Curitiba (que felizmente seguirá aberta).

Corria o ano da graça de 2012 quando, do outro lado da linha eu ouvi palavras que nada tinham de mágicas, de tanto que já estavam desgastadas. “Estou com um projeto para construção de um autódromo em Curvelo”. Eu que já tinha visto ao menos uma dezena de planos, esboços, potenciais terrenos, “fulano que se aliaria a beltrano, à construtora X, à montadora Y (essa é fácil de descobrir, pois é a única), coloquei os dois pés para trás mas, diante da seriedade do interlocutor e do crédito que tinha por trabalhos anteriores, resolvi dar crédito e embarcar junto. E convenci meu então chefe a reservar uma página do jornal em que trabalhava para propagar a novidade, com direito a uma foto de um monte de mato, que seria o terreno escolhido.

O tempo andou, a história esfriou e imaginava eu que seria mais um para a lista dos projetos frustrados de um autódromo digno do nome nas Minas Gerais. Alguns meses depois, eis que me aparece na internet uma imagem de um algo que lembrava o traçado de um circuito visto do alto e o assunto esquentou de novo. Muita água passou sob a ponte, houve um momento em que dois grupos caminharam em iniciativas distintas, até que, felizmente, resolveram fazer o mais sensato e unir esforços. O terreno já não era o original, mas pouco importava. No novo, transformar uma paisagem de cerrado em uma linha de asfalto, concreto e metal por onde passariam as máquinas (ou escapariam quando as coisas dessem errado) seria ainda mais fácil. A localização, ainda mais privilegiada. E a metáfora escolhida para o andamento da empreitada: a da bola de neve que começava do tamanho da mão e teria de virar uma avalanche, cada vez mais real. Ainda que em Curvelo não vá nevar jamais – eu tenho lá minhas dúvidas se um dia os céus não mandaram cristais para o sertão mineiro, tamanha a quantidade, o que justificou o nome: Circuito dos Cristais.

Mineiramente, a coisa avançava. Na primeira vez em que lá estive, há dois anos, também estava a promotora da F-Truck, Neusa Navarro Félix e, se havia a linha da pista no piso de terra, era impossível completar a volta por conta das caixas de drenagem que ainda apareciam pelo caminho totalmente abertas. Pouco importa, a cada nova visita, cada vez que se via as plantas e o que elas viriam a ser, a empolgação aumentava.

Eis que a base de cristal no solo até ajudou na hora de iniciar o asfaltamento e rasgar o tapete escuro no terreno, mantendo os pés de pequi e procurando respeitar ao máximo o meio ambiente do entorno. A caminho das minhas andanças (ou seria correnças?) em terras italianas, levei o fiel Peugeot 206  de rally para umas voltas a sensação que me veio é de que cinco ou seis voltas não eram suficientes para se situar, saber o que vinha depois de cada curva, cada subida ou descida, se viraria à esquerda ou à direita. O mais legal de tudo foi descobrir que mesmo quem é realmente do ramo sentiu algo semelhante.

Sim, porque caso você não saiba, esses quatro anos de idas, vindas, obras, ajustes frutificaram num autódromo sensacional. Que, como deixava clara uma placa na entrada do corredor atrás dos boxes, ainda está em obras, mas, mesmo nesse estágio, já tem o suficiente para deixar quem lá esteve impressionado, emocionado. Não sei quanto a você, amigo leitor, pode considerar bobagem minha, mas presenciar a história sendo feita e um autódromo inaugurado oficialmente, liberado para que milhares e milhares de cavalos sejam despejados sem dó, é uma experiência que vou guardar pra sempre. E assim como um dia o maluco que me ligou, que responde pelo nome de Flávio Bergmann; e os importantíssimos Alfredo Santos e Marco Túlio acreditaram no sonho, não custa ir mais longe e imaginar que Moto GPs, WTCCs, World SBKs e outras categorias dos sonhos (perdão pelo trocadilho) aportem em meio aos cristais.

Não pôde estar lá nas primeiras corridas? Esteja nas próximas – além de ver provas certamente emocionantes num traçado danado de exigente, você terá a chance de ver como se faz bem feito, sem frescura, mas com todo o necessário. Ainda bem que há o que comemorar em tempos tão bicudos e difíceis para o nosso esporte a motor, e que bom que veio gente de Rio, São Paulo, Goiás, Distrito Federal, Espírito Santo, Mato Grosso, Roraima e Paraná (entre pilotos, equipes e jornalistas) pra ver e testemunhar ao vivo. E a F-1? Do jeito que ela anda, melhor falar sobre o que está mais perto e tem mais perspectivas de animar e agradar.