A Massa o que é de Massa

Estávamos nós no fim do século 20, quase chegando ao ano 2000, quando um moleque deixou a F-Chevrolet brasileira rumo ao sonho de acelerar, na Europa, algo que na época ainda era tão comum. Confesso que os primeiros textos recebidos sobre o tal de Felipe Massa não provocavam aquela expectativa, não era daqueles nomes que chutavam a porta e se tinha a certeza de que brilhariam mais tarde – olha que vários casos assim acabaram não dando em nada.

Mas aí, o bom desempenho na F-Renault, a adaptação a um ambiente diferente, a chance de disputar o Europeu de F-3000 que, embora não valesse o intercontinental, era também mais do que razoável, começaram a criar uma impressão diferente. Pra mim aquele moleque que chegou à Sauber “a la” Max Verstappen (não estou fazendo comparações, pelo amor de Deus, apenas considerando o estilo arrojado e por vezes irresponsável e imaturo de quem teria muito a aprender) teria dois caminhos: ou seria varrido do circo tão rápido quanto entrou, ou faria algo que prestasse, e muito.

Eis que o filme na minha cabeça avança e vai para uma tarde de novembro de 2008, em Interlagos, quando um consternado Felipe entrou na sala de entrevistas de Interlagos ainda com lágrimas nos olhos e a certeza de que vencer a batalha não havia sido tão importante quanto perder a guerra. Fez tudo o que precisava, conseguiu um dos desempenhos mais impressionantes da história da F-1 naquelas 71 voltas, mas não foi o bastante. Em meio aos jornalistas, a mulher, Rafaela, tentava fazer o marido (e todos nós) enxergar o lado positivo. “Gente, nada de tristeza, ele venceu a corrida, deu um show aqui…”, e era verdade.

Pois há dois modos de analisar a vida e a trajetória de um piloto de Fórmula 1, quanto mais num país de quase 200 milhões de especialistas (que também são técnicos de futebol, etc, etc.). O senso comum é implacável, impiedoso, julga como sendo ele aquele que sempre bateu na trave, “mas faltava alguma coisa”. O cara que perdeu o duelo interno com Fernando Alonso, que ouviu a famosa frase “Felipe, Fernando está mais rápido que você”, que não conseguiu tirar leite de pedra como o espanhol fez. Um perdedor, um mediano, alguém muito bem pago mas incapaz de dar fim ao jejum de títulos, a retomar uma tradição de conquistas que nós ainda não nos acostumamos a perder. Um sujeito que, ao levar uma mola alheia na cabeça, deixou de chegar aonde podia e se tornou não mais do que um sobrevivente na categoria máxima ao automobilismo.

Mas há o lado de quem acompanha, vive, muito de longe e um pouco de perto, os bastidores, conversa com gente daqui e de fora, pilotos e jornalistas, personagens diretos ou indiretos de uma história que está prestes a se encerrar ao menos no circo, assim que chegar Abu Dhabi. Aí eles vão lembrar de como um moleque insolente ousou bater Michael Schumacher num dia iluminado de 2006 na Turquia; como ajudou Kimi Räikkönen a ser campeão não como um submisso segundo piloto, mas como um companheiro que lutou até onde pôde. E não ganhou do céu nenhuma das 11 vitórias ou 16 poles. Do contrário, foi roubado pelas circunstâncias de um título que teria ficado de ótimo tamanho. Alguém que mesmo para mim não teria muito a fazer na Williams diante de um Valtteri Bottas louvado em verso e prosa, mas que soube segurar as pontas e redimensionou o finlandês.

Ok, Felipe Massa não é o mais talentoso sequer da sua geração, talvez não tenha um repertório técnico tão amplo a ponto de render bem quando as condições não são ideais; sofreu para adaptar sua pilotagem de modo a gastar menos pneus e favorecer suas estratégias. Mas está longe de ser respeitado pelos colegas, por quem veio antes e ainda vem por aí apenas como o cara boa-praça. Cada pódio, cada posição foram merecidos, batalhados, não dá para dizer que ele ficou um dia a mais do que merecia. Chega um ponto da carreira em que fica claro que não vai se abrir vaga no time soberano, ou os possíveis cockpits no horizonte não darão chance de fazer mais do que se fez até ali. Foi assim com muita gente boa e continuará sendo.

A quem apedreja, eu lembro apenas: imaginem só se nas contas verde e amarelas houvesse 11 vitórias e 16 poles a menos. E como seria bom se tivéssemos três ou quatro Massas na bica de chegar; com a F-1 na mira. Por essas e outras, sem hipocrisia, é que alguém que testemunhou o momento mais sensacional e ao mesmo tempo mais triste de uma bela carreira se junta ao coro. Nós é que temos que te agradecer, Felipe, pelas manhãs de domingo em que ainda houve Hino Nacional tocado num autódromo. Se não foram mais, não era para ser, mas valeu assim mesmo…

massa1

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s