Meninos, eu vi (Coluna Sexta Marcha especial)

  • Sim, o espaço da coluna deveria se limitar à Fórmula 1, mas, por um ótimo motivo, abro uma exceção e falo do mais novo autódromo do país, e da história de quem acreditou no que parecia tão distante, tão improvável (eu inclusive). Mesmo porque, como alguém bem definiu numa rede social, o GP da Itália foi a melhor corrida da temporada do circo, única e exclusivamente por ter sido a mais curta e poupado a audiência de mais momentos sonolentos. Em Curvelo, por outro lado, motos e carros mostraram que com um espetáculo bem mais modesto (considerando tecnologia e orçamentos), dá para fazer corridas de primeiríssima. E o Brasil conheceu sua mais nova pista, quando tudo o que havia era o sumiço de Jacarepaguá, Brasília na UTI e o fecha-não fecha de Curitiba (que felizmente seguirá aberta).

Corria o ano da graça de 2012 quando, do outro lado da linha eu ouvi palavras que nada tinham de mágicas, de tanto que já estavam desgastadas. “Estou com um projeto para construção de um autódromo em Curvelo”. Eu que já tinha visto ao menos uma dezena de planos, esboços, potenciais terrenos, “fulano que se aliaria a beltrano, à construtora X, à montadora Y (essa é fácil de descobrir, pois é a única), coloquei os dois pés para trás mas, diante da seriedade do interlocutor e do crédito que tinha por trabalhos anteriores, resolvi dar crédito e embarcar junto. E convenci meu então chefe a reservar uma página do jornal em que trabalhava para propagar a novidade, com direito a uma foto de um monte de mato, que seria o terreno escolhido.

O tempo andou, a história esfriou e imaginava eu que seria mais um para a lista dos projetos frustrados de um autódromo digno do nome nas Minas Gerais. Alguns meses depois, eis que me aparece na internet uma imagem de um algo que lembrava o traçado de um circuito visto do alto e o assunto esquentou de novo. Muita água passou sob a ponte, houve um momento em que dois grupos caminharam em iniciativas distintas, até que, felizmente, resolveram fazer o mais sensato e unir esforços. O terreno já não era o original, mas pouco importava. No novo, transformar uma paisagem de cerrado em uma linha de asfalto, concreto e metal por onde passariam as máquinas (ou escapariam quando as coisas dessem errado) seria ainda mais fácil. A localização, ainda mais privilegiada. E a metáfora escolhida para o andamento da empreitada: a da bola de neve que começava do tamanho da mão e teria de virar uma avalanche, cada vez mais real. Ainda que em Curvelo não vá nevar jamais – eu tenho lá minhas dúvidas se um dia os céus não mandaram cristais para o sertão mineiro, tamanha a quantidade, o que justificou o nome: Circuito dos Cristais.

Mineiramente, a coisa avançava. Na primeira vez em que lá estive, há dois anos, também estava a promotora da F-Truck, Neusa Navarro Félix e, se havia a linha da pista no piso de terra, era impossível completar a volta por conta das caixas de drenagem que ainda apareciam pelo caminho totalmente abertas. Pouco importa, a cada nova visita, cada vez que se via as plantas e o que elas viriam a ser, a empolgação aumentava.

Eis que a base de cristal no solo até ajudou na hora de iniciar o asfaltamento e rasgar o tapete escuro no terreno, mantendo os pés de pequi e procurando respeitar ao máximo o meio ambiente do entorno. A caminho das minhas andanças (ou seria correnças?) em terras italianas, levei o fiel Peugeot 206  de rally para umas voltas a sensação que me veio é de que cinco ou seis voltas não eram suficientes para se situar, saber o que vinha depois de cada curva, cada subida ou descida, se viraria à esquerda ou à direita. O mais legal de tudo foi descobrir que mesmo quem é realmente do ramo sentiu algo semelhante.

Sim, porque caso você não saiba, esses quatro anos de idas, vindas, obras, ajustes frutificaram num autódromo sensacional. Que, como deixava clara uma placa na entrada do corredor atrás dos boxes, ainda está em obras, mas, mesmo nesse estágio, já tem o suficiente para deixar quem lá esteve impressionado, emocionado. Não sei quanto a você, amigo leitor, pode considerar bobagem minha, mas presenciar a história sendo feita e um autódromo inaugurado oficialmente, liberado para que milhares e milhares de cavalos sejam despejados sem dó, é uma experiência que vou guardar pra sempre. E assim como um dia o maluco que me ligou, que responde pelo nome de Flávio Bergmann; e os importantíssimos Alfredo Santos e Marco Túlio acreditaram no sonho, não custa ir mais longe e imaginar que Moto GPs, WTCCs, World SBKs e outras categorias dos sonhos (perdão pelo trocadilho) aportem em meio aos cristais.

Não pôde estar lá nas primeiras corridas? Esteja nas próximas – além de ver provas certamente emocionantes num traçado danado de exigente, você terá a chance de ver como se faz bem feito, sem frescura, mas com todo o necessário. Ainda bem que há o que comemorar em tempos tão bicudos e difíceis para o nosso esporte a motor, e que bom que veio gente de Rio, São Paulo, Goiás, Distrito Federal, Espírito Santo, Mato Grosso, Roraima e Paraná (entre pilotos, equipes e jornalistas) pra ver e testemunhar ao vivo. E a F-1? Do jeito que ela anda, melhor falar sobre o que está mais perto e tem mais perspectivas de animar e agradar.

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