Eu já sabia… e não só eu…

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O ano era 1998 e o local, infelizmente hoje é sinônimo de saudade, por mais que tenha dado espaço a uma estrutura igualmente interessante. Antevéspera do início dos treinos para a Rio 200, etapa da Série Mundial da F-Indy (assim se chamava então), paddock do Autódromo Internacional Nelson Piquet, em Jacarepaguá, estávamos eu e o colega Vicente Dattoli (que pelo sobrenome também não esconde as origens) e aparece um sujeito de camiseta e bermuda caminhando calmamente por entre os boxes e estruturas dos times. Como ele era notícia (e muito), lá fomos os dois em busca de uma entrevista. Nada de assessores de imprensa com gravadores pendurados, horários corridos, compromissos, exclusividades de TV.

Não ganhamos apenas a entrevista e a matéria (eu no Estado de Minas, Vicente no Jornal do Brasil), mas uma conversa que durou boa meia hora e não ficou apenas na corrida, na categoria, no automobilismo. Falou-se de tudo e mais um pouco, ainda mais que o papo caminhou num italiano esforçado. E tudo bem que o ambiente da Indy sempre foi mais descontraído, mais acessível – acho que contei em outro post que tive o privilégio de ganhar uma aula de um “certo” Gil de Ferran durante um atraso por chuva com direito a café servido pelo campeão de 2000 – mas “o cara” era o cara. Não havia quem não tivesse olhos e atenções para aquele Reynard Honda de número 4, num belíssimo vermelho com direito aos raios amarelos descendo pelo bico.

Quem viveu aqueles tempos em que a série norte-americana tinha nível e espetáculo suficiente para peitar o circo já notou que o personagem em questão é Alessandro Zanardi. E o objetivo do post não é senão mostrar que o bolonhês já era um monstro de simpatia, carisma e humildade muito antes de passar por um momento que quase significou o ponto final da história. Éramos dois rostos desconhecidos com, no máximo, quatro ou cinco provas acompanhadas de perto, e isso não fez a menor diferença.

E pensar que tudo aquilo que “Zanna”, como carinhosamente chamam os compatriotas, havia vivido até então era fichinha diante do que a vida ainda reservava. Ele não precisava fazer nada por ninguém, senão por sua imensa fome de vida. No longo tempo em que se recuperou do gravíssimo acidente que levou as duas pernas, mas não a vontade de seguir, não pensava em voltar a pilotar, em buscar títulos, só não queria parar por ali. E o que veio depois não foi mais do que a celebração de uma frase que Barack Obama certamente emprestará, e ainda permitirá a modificação: “Yes, I can.” Sim, eu posso comandar uma máquina no Mundial de Turismo (WTCC) e vencer. Sim, eu posso terminar as voltas que faltaram naquele maldito 15 de setembro de 2001 em Lausitzring. Sim, eu posso disputar as 24h de Spa-Francorchamps ao lado de dois pilotos sem limitações, no mesmo carro, competindo em igualdade de condição com as demais 50 e tantas máquinas.

Sim, eu posso fazer das mãos a minha ferramenta para ganhar o asfalto, engolir quilômetros, seja escondido sob um macacão e uma carroceria, seja exposto numa handbike. Não, o cronômetro não é maior do que eu assim como a morte, a dúvida, a perda. Alessandro Zanardi apenas reescreve a história, porque façanhas já são inúmeras, a começar por estar ele mais vivo e forte do que nunca hoje. E que belo é o destino que, se tira de um lado, permite que o bicampeonato paralímpico aconteça muito perto do que foi Jacarepaguá. Ele nem precisaria fazer tanto. Se você não teve o privilégio de acompanhar o que eram as demonstrações de talento desse cara com quase 1.000 cavalos nas costas (basta uma delas: procure no YouTube pela ultrapassagem sobre Bryan Herta no Sacarrolhas de Laguna Seca), e mais ainda, se não teve o privilégio de constatar em primeira pessoa tudo o que sempre se disse de bom dele e o porque de tanta gente estar feliz com o resultado desta quarta-feira, eu reafirmo. Não é um monstro, sempre foi. Auguri… Como ele mesmo fez questão de dizer em perfeito português: “segura o italiano”.

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