Uma corrida virtual pra valer

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Se há uma coisa de que não é possível acusar os organizadores da Fórmula E, a primeira categoria do automobilismo movida 100% a eletricidade, é de falta de iniciativa e esforços para animar o espetáculo. Se os carros ainda não são rápidos o suficiente, a ideia de acelerá-los em pistas de rua de grandes metrópoles do planeta e contar com um grid que não dá inveja ao de quase nenhum outro campeonato vem se mostrando um sucesso, o que não quer dizer que Alejandro Agag e seus comandados preferiram deitar em berço esplêndido. Muito ao contrário, aliás.

A última prova de 2016, por exemplo, foi realizada em conjunto com a COP20, a conferência das Nações Unidas para as mudanças climáticas, em Marrakech (Marrocos), o que reforçou o aspecto ambiental, muito embora a poluição provocada pelo combustível fóssil nas pistas seja traço diante do que se gasta de forma irresponsável nas ruas e estradas do mundo. E agora Agag e sua turma se preparam para atacar outro nicho valorizado: o da tecnologia e de suas grandes marcas. Com vocês, o eRace de Las Vegas.

Não, os monopostos Dallara Spark SRT01 não vão ganhar as ruas da capital do jogo como fizeram F-1 e Indy, ao menos concretamente. Mas elas serão palco da primeira prova virtual da história da categoria, com um formato e uma premiação mais do que reais (e atrativos). O que fizeram as cabeças pensantes da competição? Resolveram juntar aos pilotos habituais do campeonato algumas das principais feras dos games de corrida nos simuladores habitualmente usados para preparação. Como são 30 inscritos e 20 “vagas”, uma primeira prova de qualificação vai determinar quem se junta aos 10 mais rápidos na grande final, com formato idêntico ao da corrida “verdadeira”. Na linha de chegada, um nada desprezável prêmio de US$ 200 mil ao vencedor.

Que pode ser Nelsinho Piquet, Lucas di Grassi, Sebastien Buemi, Nicolas Prost… mas também Aleksi Uusi-Jaakkola, Enzo Bonito, Bono Huis ou Graham Carroll, apenas para citar alguns dos forasteiros. E todos com macacão, capacete, e time definido (ah, tem Fan Boost como de costume também). O palco serão os pavilhões da CES – Consumer Electronics Show, a mais famosa feira de tecnologia doméstica, dia 7. Com direito a transmissão ao vivo pela Twitch.tv. Corrida virtual, real ou uma mistura? Difícil responder, mas tem tudo para marcar história…

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E o pau quebrou na rede social…

Tudo começou com uma entrevista de Lucas di Grassi a um site especializado em que o brasileiro afirma que a Fórmula E cresceu tanto e vem exigindo em igual medida dos pilotos que seria “quase impossível” fazer em 2017 o que vinha sendo o caso até esse ano: dividir o posto na equipe Abt/Audi com a condição de piloto oficial da casa dos quatro aneis no Mundial de Endurance (WEC).

Eis que eu pretendia ler com calma o que disse o paulista para conferir se chegava a tanto – há vários nomes acelerando entre os elétricos que terão “dupla personalidade” também na próxima temporada e, ao que me consta, nenhum deles reclamou.

Foi quando me deparei, no Twitter, com a declaração abaixo, vinda de um certo Nelson Ângelo Piquet que, como não poderia deixar de ser, justifica o nome e o sobrenome e felizmente diz o que tem que ser dito, ainda que nem sempre do modo mais delicado. O que disparou Nelsinho? “Coisas que as pessoas dizem depois que perdem o posto… #hipócrita. Pilotos de verdade querem correr o tempo todo”, tuitou o primeiro campeão da Fórmula E, referindo-se à saída da Audi do WEC. Nelsinho que, aliás, acertou com a equipe Rebellion e será um dos integrantes do time no comando dos Oreca 07-Gibson da categoria LMP2 (ao lado de Nicolas Prost e Bruno Senna).

E pra mostrar que o clima não é dos mais amistosos (pelo visto, com o perdão do trocadilho, anda dando choque), vejam quem saiu em defesa do comentário de Piquet: ninguém menos que o suíço Sebastien Buemi, não apenas atual campeão da F-E como confirmadíssimo no time da Toyota para brigar pelo título da endurance entre os LMP-1. Alguém mais se manifesta?

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A resposta do outro interessado na história veio algumas horas depois, pela mesma rede social. Ele alega que, quando fez a declaração, se referiu aos conflitos de datas entre as duas categorias, que tornariam impossível brigar pelo título em ambas. Então tá…

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F-Inter: está valendo…

Foi em fevereiro do ano passado o primeiro post do blog sobre o projeto de uma categoria-escola de fórmula para o automobilismo brasileiro que cobrisse a lacuna deixada desde o fim dos campeonatos monomarca (F-Ford, Chevrolet e Renault) que servisse de primeiro passo para a molecada saída do kart, que não necessariamente tem que pular de cabeça nos quase 250cv de um Fórmula 3. Iniciativa do empresário Marcos Galassi, do histórico construtor José Minelli e de uma série de parceiros e pessoas que acreditaram. Em agosto, surgiram as primeiras imagens do F-Inter, com sua válida mistura de tradição e tecnologia; simplicidade e mão de obra.

Bem mais do que um ano se passou até que se chegasse ao histórico momento do último fim de semana. Não porque algo tenha dado errado, muito pelo contrário. O projeto foi crescendo sem atropelos, o conceito apresentado em várias ocasiões e ganhou um padrinho de peso, na figura de Roberto Moreno. A ideia, para quem não sabe, é oferecer o pacote completo por preços bastante competitivos – e por pacote completo entenda-se preparação psicológica, auxílio nutricional e todo o trabalho extra-pista, que é para encaminhar as carreiras de forma séria e profissional, como os tempos atuais exigem.

Pois depois de inúmeros testes, melhorias e avanços, finalmente os sinais se apagaram para a primeira rodada dupla da história da categoria. Interlagos recebeu um grid ainda tímido (sete carros), mas era algo esperado, considerando que fim de temporada é momento de guardar o pouco que sobra e pensar no ano seguinte. Importante é considerar que muita gente foi ver, quem andou e viu gostou e as perspectivas são infinitamente melhores. Neste primeiro momento, os carros andaram com potência de 160hp, embora possam alcançar os 190, o que ocorrerá a partir do primeiro campeonato completo.

O interessante é que teve gente andando forte mesmo vindo do kart indoor, outros com muita experiência em outras modalidades, e o objetivo é justamente esse – diversão e aprendizado para todas as idades e níveis de pilotagem. Tenho certeza de que Galassi ouviu muitas vezes que era loucura, que não deveria insistir, e felizmente se manteve fiel a seus propósitos. Em tempo, parabéns a  Gustavo Coelho; Luiz Menezes Junior; Raphael Figueiredo; Marcelo Zebra; Alexandre Galassi; Marcelo Henriques e Pedro Aguiar. E que em breve tenha muito mais gente boa andando com eles…

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Agora o WRC vai…

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Dizer que o Mundial de Rally (WRC) não tem apelo entre os amantes do automobilismo é uma mentira sem tamanho – as provas encurtaram  nas últimas décadas, sua majestade, Sebastien I, se aposentou, e a competição continua gerando disputas e imagens sensacionais. Quanto a transformar isso em retorno publicitário e dinheiro, é outra história. Um rally que se preze dura dois ou três dias, envolve largada promocional, shakedown, levantamento, não é um esporte para transmissão ao vivo, e nem deve se tornar – olha que teve gente com a proposta de pegar todas as especiais como uma grande classificatória e decidir tudo nos últimos quilômetros do último dia para ficar bem na TV, o que seria um absurdo sem tamanho.

Eis que, há dois anos, o promotor encarregado pela FIA de organizar o espetáculo passou a ser o… WRC Promoter, que nada mais é do que uma divisão do grupo Red Bull. Logo se imaginou que toda a estrutura do gigante austríaco seria usada para tornar o produto ainda mais espetacular do que sempre foi, mesmo para quem não está na beira da estrada. De início a coisa demorou a decolar, as ideias do alemão Oliver Ciesla são as melhores possíveis, mas o pacote chegou a andar para trás. A ponto de o site oficial piorar e ficar menos interativo e acessível.

Mas eis que estamos às vésperas de uma grande revolução no esporte – no ano que vem os carros terão formas e desenho ainda mais agressivo, apoios aerodinâmicos à vontade e quase 400cv espremidos dos motores 1.600cc turbo (como você pode ver nas fotos). Para completar a festa, a Toyota e a Citroën estão de volta, ainda que a saída da VW tenha tirado um pouquinho do brilho. Mas acabou levando sua majestade Sebastien II a migrar para a Ford, que volta a ficar bem na fita.

Pois eis que hoje a Red Bull confirmou que o campeonato de 2017 será exibido pelo seu canal de TV (que poderá ser acessado no YouTube, no site do touro vermelho, por aplicativo e no próprio site do WRC) GRÁTIS. Calma, não é de se esperar uma maratona de rali com horas e mais horas de transmissões ininterruptas. Às sextas-feiras, será apresentado um especial com até meia hora de duração. No sábado, uma especial será transmitida na íntegra, com direito a imagens onboard, além do programa com os highlights. E domingo serão outros 40 minutos fechando a cobertura, que ainda terá uma série de features e reportagens especiais nos períodos entre as etapas.

Se será apenas uma forma de adoçar a boca de nós, espectadores, para vir com a fatura a partir de 2018, é outra história. O importante é que, ao menos ao longo de todo o ano que vem, estará disponível a quem quiser, na hora que quiser, absolutamente grátis. Felizmente não estamos nos tempos de Max Mosley à frente da FIA, já que o inglês, devidamente influenciado pelo parceiro Bernie Ecclestone, nem podia pensar em nada que pudesse concorrer com a F-1. Não é o caso de brigar por audiência, mas sim de trazer mais uma ótima opção. Vá preparando o sofá, porque em breve vai voar neve na sala…

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Danke, Nico…

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Ele foi campeão também em manter o segredo. Numa era em que as informações viajam na  velocidade da luz e sempre há alguém que sabe, o único que sabia – fora a família, lógico – era justamente o principal rival, que foi o maior companheiro, mas andava, ao menos nas aparências, separado por um muro invisível no box da Mercedes. Tanto assim que a reação de surpresa foi ampla, geral e irrestrita, de Toto Wolff a este que vos escreve, passando por pilotos, dirigentes, comentaristas e os pseudo-especialistas que adoram antecipar sem saber de verdade.

Mas a questão é que Nico Rosberg resolveu dar uma banana para o circo e viver a vida no auge das consagrações e comemorações pelo título mundial de F-1. Enquanto recebia, na festa de gala da FIA, em Viena, o troféu de campeão e os aplausos merecidos, um comunicado no Facebook deixava o mundo da velocidade atônito e surpreendido. Cinco dias de viver sua maior emoção esportiva, coroar o sonho de criança, era hora de deixar essa realidade de lado e optar por uma nova vida.

Lógico que muita gente achou um absurdo tomar essa decisão aos 31 anos, com certeza houve quem dissesse que ele, por mais que tentasse, jamais chegaria a ser bi, ou tricampeão; a grande maioria lamentou o fato que eu havia comentado no post anterior – que seria o máximo ver em 2017 um piloto com a motivação nas estrelas enfrentar um companheiro mordido e disposto a mostrar seu valor.

Mas, não será, e o mais bacana foi notar que a grande maioria entendeu os motivos da escolha. Ainda que não tenha a noção do que é a pressão de começar no kart brincando, como fazia o pequeno Nico no vídeo (o pai Keke estava lá cronometrando, pondo pilha…) e, categoria a categoria, manter um engajamento mental e físico total, uma rotina de preparação, eventos promocionais, viagens, autógrafos, obrigação de atender a todos e tudo o mais. Imagine isso por 23, 25 anos, cada vez mais forte, maior. E aí você se casa com a namorada da infância, tem uma filha, quer encontrar um tempo para viver a vida que as obrigações não permitem.

Nico Rosberg foi pouco ambicioso? Mostrou um comportamento indigno de quem quer chegar ao topo? “Cracked under pressure”, como dizem em inglês? Nada disso, foi apenas Nico Rosberg. Há máquinas de acelerar que só se contentam com sete títulos, 91 vitórias e um caminhão de poles, outros olham para o topo do Everest e consideram que chegar lá uma vez é façanha suficiente (e é mesmo). E pode ter certeza de que ele pensou no que ganharia, deixaria de ganhar e perderia ao se despedir, e foi fiel ao coração e à mente, de uma forma muito bacana.

O finlandês de Wiesbaden (brincadeira, lógico, por conta da filiação paterna e materna) não terá sido o melhor piloto sequer da atual geração, mas está longe de ser o mediano traçado por muitos. Ninguém consegue uma volta mais rápida em sua primeira corrida num F-1 e carrega nas costas uma Mercedes que não era nada do que é hoje se não tiver muita competência. Talvez tenha até merecido mais o título do que o pai em 1982 (basta ver o que foi aquele ano para constatar) – não estou comparando em termos de pilotagem. E embora tenha falado em “encerrar a carreira de piloto”, deixa o futuro em aberto até mesmo para voltar, para se divertir no DTM, na Endurance ou apenas fazendo embaixadinhas, como tanto gosta. Tomara que seja feliz no que escolher, e tanto melhor se tiver relação com as pistas, que lugar de piloto bom é limando o asfalto. De todo modo, “vielen danke, Nico”.