Danke, Nico…

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Ele foi campeão também em manter o segredo. Numa era em que as informações viajam na  velocidade da luz e sempre há alguém que sabe, o único que sabia – fora a família, lógico – era justamente o principal rival, que foi o maior companheiro, mas andava, ao menos nas aparências, separado por um muro invisível no box da Mercedes. Tanto assim que a reação de surpresa foi ampla, geral e irrestrita, de Toto Wolff a este que vos escreve, passando por pilotos, dirigentes, comentaristas e os pseudo-especialistas que adoram antecipar sem saber de verdade.

Mas a questão é que Nico Rosberg resolveu dar uma banana para o circo e viver a vida no auge das consagrações e comemorações pelo título mundial de F-1. Enquanto recebia, na festa de gala da FIA, em Viena, o troféu de campeão e os aplausos merecidos, um comunicado no Facebook deixava o mundo da velocidade atônito e surpreendido. Cinco dias de viver sua maior emoção esportiva, coroar o sonho de criança, era hora de deixar essa realidade de lado e optar por uma nova vida.

Lógico que muita gente achou um absurdo tomar essa decisão aos 31 anos, com certeza houve quem dissesse que ele, por mais que tentasse, jamais chegaria a ser bi, ou tricampeão; a grande maioria lamentou o fato que eu havia comentado no post anterior – que seria o máximo ver em 2017 um piloto com a motivação nas estrelas enfrentar um companheiro mordido e disposto a mostrar seu valor.

Mas, não será, e o mais bacana foi notar que a grande maioria entendeu os motivos da escolha. Ainda que não tenha a noção do que é a pressão de começar no kart brincando, como fazia o pequeno Nico no vídeo (o pai Keke estava lá cronometrando, pondo pilha…) e, categoria a categoria, manter um engajamento mental e físico total, uma rotina de preparação, eventos promocionais, viagens, autógrafos, obrigação de atender a todos e tudo o mais. Imagine isso por 23, 25 anos, cada vez mais forte, maior. E aí você se casa com a namorada da infância, tem uma filha, quer encontrar um tempo para viver a vida que as obrigações não permitem.

Nico Rosberg foi pouco ambicioso? Mostrou um comportamento indigno de quem quer chegar ao topo? “Cracked under pressure”, como dizem em inglês? Nada disso, foi apenas Nico Rosberg. Há máquinas de acelerar que só se contentam com sete títulos, 91 vitórias e um caminhão de poles, outros olham para o topo do Everest e consideram que chegar lá uma vez é façanha suficiente (e é mesmo). E pode ter certeza de que ele pensou no que ganharia, deixaria de ganhar e perderia ao se despedir, e foi fiel ao coração e à mente, de uma forma muito bacana.

O finlandês de Wiesbaden (brincadeira, lógico, por conta da filiação paterna e materna) não terá sido o melhor piloto sequer da atual geração, mas está longe de ser o mediano traçado por muitos. Ninguém consegue uma volta mais rápida em sua primeira corrida num F-1 e carrega nas costas uma Mercedes que não era nada do que é hoje se não tiver muita competência. Talvez tenha até merecido mais o título do que o pai em 1982 (basta ver o que foi aquele ano para constatar) – não estou comparando em termos de pilotagem. E embora tenha falado em “encerrar a carreira de piloto”, deixa o futuro em aberto até mesmo para voltar, para se divertir no DTM, na Endurance ou apenas fazendo embaixadinhas, como tanto gosta. Tomara que seja feliz no que escolher, e tanto melhor se tiver relação com as pistas, que lugar de piloto bom é limando o asfalto. De todo modo, “vielen danke, Nico”.

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