“A F-1 tem que voltar a ser uma categoria acima das outras” (Entrevista: Cristiano da Matta)

Para quem não teve a oportunidade de ler no Hoje em Dia, eu reproduzo aqui a entrevista com um dos mais vencedores e talentosos pilotos que o país já teve. Que pode até não estar na pista agora mas, nem por isso, deixou de acelerar. Muito menos de dar opiniões intertessantes ou ficar em cima do muro como poderia ser o caso para um bom mineiro. Cristiano da Matta faz um balanço da carreira, fala do presente, do futuro e do automobilismo brasileiro. Vale ler…

Ele faz parte de um grupo cada vez mais restrito no automobilismo mundial: o de pilotos que chegaram à Fórmula 1 graças, única e exclusivamente, ao talento. Observado com atenção pela Toyota depois de dar, à montadora japonesa, seu primeiro grande título internacional nos circuitos – o da CART (antiga denominação da Fórmula Indy), em 2002 ­– foi convidado para um teste com o carro dos japoneses em Paul Ricard, o suficiente para mostrar que merecia um lugar na principal categoria do esporte sobre quatro rodas. Nela, constatou uma realidade implacável: você é tão bom quanto o limite do seu carro. Ainda assim, marcou pontos, liderou uma corrida e mostrou seu talento com motivos suficientes para se orgulhar.

Cristiano da Matta já era um vencedor – foi campeão no kart, nos Brasileiros de F-Ford e F-3 e na Indy Lights. E se tornou ainda mais ao passar por uma experiência que poderia ter tido consequências bem mais trágicas. De volta aos EUA, testava o carro da equipe RuSport em Road America quando um cervo invadiu a pista e o atingiu em cheio na cabeça, a 240km/h. Foram vários dias em coma, cirurgias e uma longa reabilitação que o tornou capaz de pilotar competitivamente novamente. Uma temporada na F-Truck, algumas provas de resistência e convites pouco tentadores (principalmente do ponto de vista técnico) fizeram com que ele deixasse o automobilismo em segundo plano. Aliás, não só: a paternidade (Matheus tem cinco anos e Alice, dois) e o sucesso da marca de vestuário para ciclistas que mantém com os irmãos e leva o sobrenome familiar passaram a ocupar seu tempo. Capacete e macacão, no entanto, nunca se aposentaram totalmente. Assim como a pilotagem, que, atualmente prossegue de um modo diferente, como ele revela na entrevista ao Hoje em Dia, em também fala da F-1 atual.

Você cresceu vendo seu pai (Toninho) competir e teve nele sua grande inspiração. Acredita que o Matheus, seu filho, vai seguir o mesmo caminho?
Eu por enquanto prefiro não trazê-lo às corridas, sei que o automobilismo é uma droga pesada, vicia praticamente sem cura, acho que não é o caso de começar tão cedo, se depois ele manifestar a vontade é outra história. Como ele praticamente não me viu correndo, não tem esse exemplo tão forte, como eu tive, embora os meus troféus e fotos estejam em casa. Por enquanto o grande barato dele é a bicicleta. Ele virou o sucesso entre os colegas na escola porque é o único que vai pedalando e acha isso o máximo.

Aliás, no começo a família Da Matta não era muito favorável à ideia de mais um piloto…
E o engraçado é que, para não me apaixonar pelo kart, ganhei uma moto de enduro, como se ela fosse mais segura. Num certo dia veio o convite para um teste em Juiz de Fora e não teve jeito. Os meus irmãos continuaram andando de moto até hoje e praticamente não têm um osso que não tenham quebrado, enquanto eu, por outro lado, tive poucos acidentes.

Como tem sido a vida longe das pistas, por vezes não bate a vontade de voltar, nem que seja para se divertir? De que jeito lida com a ‘síndrome de abstinência’?
Dar dá, isso sim. Se alguém chamar para uma volta sem compromisso, para um teste, eu me animo na hora. Em termos de competição, a conclusão a que eu cheguei é que só vale a pena se for muito bom, se me der prazer. Eu fiquei mal acostumado ao trabalhar com times muito bons, profissionais (e nem estou falando da F-1, que é um mundo à parte), em que todos estão comprometidos pelo objetivo, não quero voltar para ter dor de cabeça.

Mas eu não parei de todo. Pelo menos duas vezes na semana, à noite, eu corro pra sala e vou acelerar no IRacer (considerada a mais perfeita plataforma de simulação do automobilismo, usada mesmo por muitos pilotos em seu treinamento) – tenho pedaleira, volante e tudo mais. Me divirto andando em várias pistas diferentes, as vezes ganho da molecada e em outras tem gente que me supera e não faz nem ideia de que sou eu do lado de cá da tela.

Como homenageado pela F-Vee na primeira corrida de fórmula em seu estado natal, você pôde ver o carro de perto e elogiou bastante. Não deveria ser o caminho para quem quer começar e o tipo de carro ideal para formar novos pilotos?
Sim, os organizadores da categoria estão de parabéns, o conceito é muito interessante, é uma escola atual até hoje. O carro é simples, mas com uma relação entre peso e potência semelhante, por exemplo, ao da F-Ford inglesa. É difícil de explicar, na minha época era tudo mais complicado, não chegavam tantas coisas no país, tudo era mais caro e essas categorias eram o caminho obrigatório. Você saía do kart para um carro sem asas ou com pouca potência e, à medida que aprendia, ia subindo os degraus. Hoje a tecnologia tornou as coisas um pouco mais fáceis – se antes um bom piloto era capaz de garantir uma diferença de meio segundo para um inferior, hoje a diferença não passa de dois, três décimos. O pente fino está afinando cada vez mais. Mas os países que mantêm essas categorias formam bem mais pilotos do que o Brasil agora.

Por divergências com o projetista da Toyota (o inglês Mike Gascoyne), você acabou saindo da F-1 no meio da temporada de 2004 e vivenciou o lado ruim do circo. Mas também houve muita coisa positiva…
Sim, tem várias passagens que eu guardo com orgulho e as vezes penso comigo mesmo: “cara você mandou bem nessa”. Sem os simuladores que existem hoje, num carro que não contava com tantos auxílios eletrônicos, fui andar pela primeira vez em Suzuka, que é o traçado mais difícil do calendário e larguei em terceiro lugar, logo atrás do meu companheiro, bem mais experiente (Olivier Panis). E resisti durante toda a corrida ao Michael Schumacher, que dependia do resultado para confirmar o título. Em Silverstone, liderei 18 voltas com os pneus desgastados, mesmo tendo um carro que estava mais para o pelotão intermediário.

A F-1 ainda te interessa a ponto de ficar à frente da TV? O que acha das mudanças radicais no regulamento para essa temporada, podem trazer corridas mais emocionantes, ou será mais do mesmo?
Estou curioso pra ver a mudança de regulamento tão grande. Eu ainda gosto de acompanhar, de saber o que está acontecendo, embora nem sempre consiga ver todas as corridas. Especialmente pelo lado do piloto ficou muito legal, é tudo com que ele sonha – mais velocidade, especialmente nas curvas, e mais aderência mecânica, dependendo menos da aerodinâmica. A F-1 tem que voltar a ser uma categoria bastante acima das outras e, nesse aspecto, está indo no caminho certo. Tem algumas coisas que não me agradam, como a asa traseira móvel. Ultrapassagem deveria ser na técnica, na habilidade, o que acaba meio escondido com a ajuda de um dispositivo. Mas, faz parte do jogo e é igual para todos.

Além da Indy e da F-1, você disputou as 24h de Daytona (inclusive com o ex-patrão Paul Newman como parceiro, em 2005) e as 12h de Sebring. Faltou algum campeonato ou corrida em especial para o currículo?
Eu gostaria de ter feito mais coisas em provas de resistência, de GT. Nos carros de fórmula fiz quase tudo, com exceção das 500 Milhas de Indianápolis, mas é uma prova que nunca me atraiu tanto. O evento é muito bacana, mas o desafio em si não tanto. Gostaria de correr mais vezes em Daytona, Sebring, disputar as 24h de Le Mans e, se minha carreira tivesse seguido sem a interrupção do acidente, era onde eu imaginava estar hoje, correr mais alguns anos. Quem sabe, sonhar não custa.

Nesse período todo, que rival te deu mais trabalho e maior prazer em enfrentar?
É difícil falar do tempo na Fórmula 1 porque a disputa dependia muito do equipamento, nem sempre eu conseguia encarar quem andava na frente com frequência. Mas do tempo nos Estados Unidos um cara que eu sempre respeitei como adversário foi o Dario (Franchitti). Ele era um piloto duro, mas eu sabia que nunca bateria ou não haveria deslealdade nos duelos. E outro era o Tony Kanaan, que, além de tudo, tem o lado da amizade, nós fomos vizinhos muito tempo, nos enfrentamos desde a Indy Lights e eu acho um cara de outro nível, especialmente nos ovais. Ele consegue fazer coisas que ninguém mais faz, tanto assim que continua competitivo.

Seu pai costuma dizer que foram tantas pedras fundamentais de circuitos em Minas que dava para construir um autódromo. Agora que ele realmente existe, o que representa para alguém que sempre teve de treinar muito longe de casa? E o que
achou do traçado do Circuito dos Cristais?
Na verdade eu completei só duas voltas inteiras, num carro de rua, sem forçar, mas achei sensacional. Sempre gostei de traçados com subidas e descidas e bastante largas, o que dá várias opções de trajetória e te exige comprometer um determinado trecho para ser mais rápido no outro, dá margem para ganhar um décimo aqui, outro ali, nos detalhes. Dá muito prazer em guiar.

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