Baku e a fábula do gêmeo perverso (Coluna Sexta Marcha – GP do Azerbaijão)

Depois de se tornar campeão mundial, em 2007, Kimi Räikkönen entrou em uma espiral negativa de resultados na Ferrari e, para tentar manter o clima leve no time de Maranello, o então presidente Luca di Montezemolo dizia que quem estava no carro, e na pista, era na verdade um gêmeo do finlandês (muito provavelmente menos talentoso).

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Pois Montezemolo foi mandar em outros cantos (os italianos brincam que ele tem algo em torno de 20 cargos diferentes), em seu lugar está Sergio Marchionne, menos midiático, embora igualmente italiano. E eu imagino se o CEO da Fiat (e presidente da Ferrari) não estará pensando algo semelhante ao antecessor, agora em relação a Sebastian Vettel.

Porque muito se falou e se falará do que se passou nas ruas de Baku, e esteve longe de ser apenas a ‘batida de trânsito’ da 21ª volta, considerando que tivemos mais um encontro de finlandeses, outro dos carros da Force India e mais um climão na Toro Rosso, sem contar o enrosco entre a dupla da Sauber, tanto mais sério depois do bilhete azul a Monisha Kaltenborn.

E fatos marcantes na segunda visita do circo à ex-república soviética houve vários, como o corridão de Felipe Massa, o pódio inesperado e justificado de Lance Stroll (nada de teorias da conspiração, por favor) e o pouco provável reencontro de Daniel Ricciardo com o alto do pódio. Mas nada que se compare à manobra de menino iniciante no kart e perdoável pela infância.

Não é o caso de inocentar Hamilton ou torná-lo vítima, mesmo porque o britânico já aprontou das suas e, a bem da verdade, é piloto de Fórmula 1, não candidato a santo. Usa as armas que tem nas mãos dentro dos limites, muitas vezes flertando com eles. Contra Nico Rosberg ano passado em Barcelona não deu certo, por exemplo.

Mas seria no mínimo burrice forçar a barra para se arriscar a um abandono que faria o jogo do ferrarista, já então líder da temporada. Lewis Carl estava incomodado com a velocidade e a distância em relação ao safety car e a telemetria o inocentou. Pode ter tirado um pouco o pé do acelerador, mas não de forma acintosa. E longe de dizer que, como nas ruas, a culpa é de quem vem atrás, quanto mais distante se está do carro adiante, mais tempo para se safar de uma manobra inesperada.

E ainda seria aceitável, como parte do “calor do momento” tão citado por tantos, que ele emparelhasse a Ferrari 5 à Mercedes 44, fizesse todo o tipo de gesto (olha que ele vem passando do limite neste aspecto), despejasse sua ira pelo rádio, mas nunca jogasse o carro contra o do rival, em que circunstância foi. Você pode até dizer: “mas Schumacher fez isso, Senna idem, Prost e Mansell também”. Não justifica a manobra. Como bem falou o piloto de Stevenage, que Vettel descesse do carro e manifestasse a insatisfação olhando nos olhos, não como foi.

Bem verdade que teremos um restante de temporada incandescente, em que não dá para descartar, por exemplo, o cada vez mais concreto Valtteri Bottas, mas há algo no alemão que me intriga. Até o primeiro ano em Maranello, com as três vitórias que foram além das expectativas, ele era o mesmo Sebastian de sempre, o cara que, diante de um jornalista encarregado pelo filho de levar um autógrafo (sim, eu mesmo), fez questão de me pedir que soletrasse letra por letra, ainda nos tempos de Red Bull. E parava o caminho entre o escritório do time e os boxes caso nele estivesse uma criança à espera de uma foto.

O alemão pode ter Michael Schumacher como ídolo, mas se aproxima cada vez mais perigosamente dele. Passou a reclamar de tudo e de todos, a se achar superior ou dono da razão sempre, está jogando fora a humildade e a coerência que sempre o marcaram. Chegou ao cúmulo de dirigir palavrões ao diretor geral de prova da FIA, Charlie Whiting, bradou com Felipe Massa quando encontrou com o brasileiro como retardatário (Abu Dhabi’16) e resolveu transformar a vida privada numa redoma intransponível (e olha que, até onde consta, ela não tem qualquer tipo de exagero tal e qual os cometidos… por Hamilton, que gosta de uma badalação, de um agito). Eu imaginava que ele manteria o jeitão agora, assim como fez quando foi da Toro Rosso para a Red Bull, e nela conquistou quatro títulos mundiais.

E é lógico que o pessoal da Liberty Media, ainda que de brincadeira, haverá de ter pensado em estimular as escaramuças na pista, fazer algo como uma Nascar sem teto, com direito a momento luta livre e troca de sopapos. Mas não seria o caso diante de lances como as ultrapassagens de Massa, o sprint de Bottas nos últimos metros ou a recuperação impressionante de Ricciardo. Cuidado como o andor, senhor Vettel, ou nem mesmo o carisma do cavalinho empinado do carro e do macacão vão garantir torcida pelo penta. Não é coisa que faça em nenhuma circunstância… Melhor ficar com o sorriso escancarado do vencedor.

 

 

 

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