Fim de 2017 ou começo de 2018? (Coluna Sexta Marcha – GP de Abu Dhabi)

O comentário já foi usado por mim no balanço da temporada 2017 da Fórmula 1 publicado no Jornal Hoje em Dia (você confere AQUI), mas é bom demais para não ser usado também no blog. O autor é ninguém menos do que Martin Brundle, o muitas vezes subestimado britânico que até hoje é conhecido como “o rival de Ayrton Senna no Inglês de Fórmula 3”, embora tenha até mesmo título mundial de endurance no currículo.

Hoje comentarista da Sky Sports F-1, ele comparou o GP de Abu Dhabi a “um 0 a 0 insosso em uma partida de futebol sem graça”. E a bem da verdade, de emocionante, ao longo das 56 voltas, não há nada digno de nota. “Aaah, mas houve várias disputas no pelotão intermediário, um bocado de ultrapassagens”, alguém há de dizer. Sim, mas, em 99% dos casos mas numa reta em que o uso do DRS faz toda a diferença, e envolvendo compostos de pneus diferentes. Dito isso, por mais que seja espetacular visualmente, Yas Marina não é o posto ideal para se encerrar uma temporada – e olha que é difícil esquecer o que ocorreu com Fernando Alonso em 2010, incapaz de fazer uma única ultrapassagem sobre Vitaly Petrov que lhe valeria o tri.

Mas mais do que falar da temporada que fica para trás, o fim de semana traz motivos para inquietação e preocupação quanto ao futuro de “La Máxima”. Antes de mais nada, voltou a existir um abismo entre Mercedes e Ferrari, tal como foi o caso de 2014 a 2016. E não venham falar que os italianos “passaram a se concentrar no carro de 2018 quando viram que o Cavallino tinha ido para o brejo”, pois a turma das Flechas de Prata também teve toda a tranquilidade à disposição a partir do momento em que se viu na ponta com folga. Tivesse mantido o W08 inalterado, digamos, de Cingapura em diante, e os títulos viriam do mesmo modo.

E não é só isso. Preocupa o fato de que a classificação de pilotos exiba, nas  primeiras posições, praticamente uma fileira de companheiros de equipe. Tirando os dois primeiros times, o que se viu foi a disputa interna em Red Bull, Force India, Renault, Williams e McLaren. Quando o piloto é quem deveria voltar a fazer mais diferença, o que se vê é que o equipamento, tanto quanto antes, é o maior limitador de desempenho. Não me iludo quanto à possibilidade de um milagre feito por Robert Kubica, mais provável que seu retorno tenha um quê de Fernando Alonso na McLaren (Honda, claro).

Longe de mim querer criar um cenário catastrófico, mas o circo mostra vários sinais que deveriam preocupar. Um grid de 20 carros é pouco, condiciona o espetáculo e freia a renovação. E não adianta toda a papagaiada (força de expressão, há várias ideias dignas de elogio) fora da pista se, dentro dela, o espetáculo não fica à altura. E se o cenário é de secura em relação aos grandes talentos do futuro – não fosse assim e Brandon Hartley não teria ganho um posto na Toro Rosso, assim como Kubica esteja a um passo da volta – pior ainda é ver que os poucos bons nomes disponíveis vão, salvo exceção do monegasco Charles Leclerc, chupar o dedo. Antonio Giovinazzi, Felix Rosenqvist, Oliver Rowland, Josef Newgarden (por quê não?)? Esquece.

E não sei se é o caso de apenas três motores (e aquele caminhão de posições perdidas como punição), ou de sete compostos diferentes de pneus, quando eles não interferem na estratégia. Quanto ao Halo… estou na turma que preferia ver os carros sem aquele “chinelo de dedo estilizado”, e preocupado com o efeito visual que ele possa provocar (e a perda de interesse por consequência). Sem contar que a grana paga às equipes esse ano já será mais baixa, e olha que o que se viu este ano ainda não foi 100% “by Liberty Media”. Dizem que o primeiro modo de corrigir erros e problemas é reconhecê-los, tomara que isso seja feito já a partir de agora. Mesmo porque a paciência do torcedor para ficar assistindo apenas “insossos 0 a 0” tem limites…

Anúncios

6 pensamentos sobre “Fim de 2017 ou começo de 2018? (Coluna Sexta Marcha – GP de Abu Dhabi)

  1. Oi Rodrigo! Um 2018 sem um brasileiro na F1. Mesmo como, às vezes, meros coadjuvantes, a presença de brasileiros nos levava para a frente da TV. Vamos ver como será sem eles. Quanto a 2019, a chance é do Sérgio Sette Câmara? Vc vê a possibilidade do Serginho ser competitivo, ou será mais um para completar grid e não deixar o circo sem um brasileiro, claro, para suprir interesses comerciais, de TV, etc? Abraços!

    Gostar

    • Adilson, valeu pela interação e o comentário, sim, o Serginho é quem está mais próximo, o que infelizmente não quer dizer muito. Veja o caso de 2018: muito provavelmente haverá um só novato, o Charles Leclerc, embora vários outros merecessem o salto. O Serginho é um ótimo piloto, embora não seja (ele e 99,9% dos casos) aquilo que a F-1 procura agora: um novo Verstappen, capaz de vencer corrida aos 18 e brigar pelo título aos 20, 21. Por isso todo mundo já está tão ouriçado com o Lando Norris, que é visto como o próximo “fenômeno” (eu acho que ainda precisaria fazer muito mais para merecer a condição. Pensa no caso do Stroll que, dinheiro a parte, foi campeão na F-4, na F-3, e sofreu um bocado no primeiro ano. O problema do Sérgio é o mesmo do Felipe Nasr, como foi do Di Grassi. Hoje você faz o que seu equipamento permite, não tem espaço para milagre. Bons tempos em que uma Toleman ou uma Tyrrell podiam pensar em vencer corridas, ninguém imagina isso com a Sauber ou a Toro Rosso. A lista de pilotos imensos recentemente queimados pela F-1 é grande, o Wehrlein, ao que tudo indica, é o mais novo. Assim é difícil dar os próximos passos, assinar com um time mais forte…

      Gostar

  2. No caso de 2010, um pit stop antecipado da Ferrari que imitou a estrategia do Webber foi o grande erro estratégico e ainda assim Alonso teria que chegar em 4°,além do Petrov teria que passar Kubica e Rosberg. Yas Marina deveria ter seu traçado de kart feito em estacionamento de supermercado refeito para algo desafiador.
    Sobre o Halo trata-se de uma grande bobagem que só serve para bloquear a visão e não duvidaria se por desagrado retirarem essa porcaria na metade da temporada.

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s