Que a águia acelere em paz

Daniel Sexton Gurney. Ao menos era o nome de batismo de um dos homens mais versáteis da história do automobilismo, que nos deixou neste começo de semana depois de 86 bem-vividos anos, boa parte deles ligados ao esporte. É até curioso que a lembrança mais forte deste californiano (de adoção, já que nasceu em Nova York) seja a do criador de máquinas; artífice da All-American Racers (AAR) e seus Eagle, que aceleraram nas pistas da F-1, da Indy e da IMSA, mais recentemente como parceiro da Toyota. Alguém tão bom no que fazia que se tornou sinônimo de componente em carros de corrida – o “gurney flap”, aquela pequena extensão reta sobre o bordo da asa traseira que garante maior pressão aerodinâmica sem cobrar a conta em resistência.

Mas antes de chegar a este estágio ele pilotou, muito, e bem. O que dizer de alguém que venceu Sebring, Le Mans, provas da Stock Car, da USAC (antepassada da F-Indy); além de quatro GPs na F-1, sendo um deles o primeiro da história da Porsche? E entre 1966 e 1968 com direito ao carro de fabricação própria, empurrado por um pesado e pouco confiável motor Weslake V12.

Nas 24 horas mais famosas do mundo da velocidade, uma história que poderia ter fim triste, mas se tornou marcante. Nas nove primeiras participações, pelos times oficiais de Ferrari, Porsche e Ford, foram oito abandonos. Em 1967, com o GT40 MK IV e um parceiro não muito acostumado aos desafios da Sarthe como A.J Foyt, finalmente conseguiu. E reza a lenda que a tentativa de abrir a garrafa de champanhe no pódio se tornou o primeiro banho de que se tem história, algo que depois se tornaria tão corriqueiro e simbólico.

Dan Gurney não venceu campeonatos, mas era temido e respeitado por todos, embora, muitos contem, sempre tivesse um conselho a dar ou uma ideia a trocar. Vivia de uma paixão que o conduziu até os últimos dias da vida. Foi efetivamente bom em tudo o que fez e, por isso, deixa uma ausência enorme. Agora, certamente estará lá em cima em intermináveis conversas com Carrol Shelby, planejando mais uma máquina. Acelere em paz, campeão…

 

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As máquinas da “Supertemporada”

Como o leitor deve saber, a saída da Porsche da categoria LMP1 no Mundial de Endurance provocou um terremoto que chegou a colocar em risco o próprio futuro  e o formato da competição. Se a Audi já tinha dado adeus em 2016, a despedida da outra marca do Grupo VW, atual campeã, deixou a Toyota falando sozinha em termos de protótipos híbridos, já que, ao menos por enquanto, nenhuma outra montadora resolveu encarar o nada barato desafio.

Felizmente houve quem, sem apoio de qualquer fabricante, decidisse encarar o que se transformou numa “Supertemporada” do FIA WEC, com início nas 6h de Spa-Francorchamps, em maio, duas edições das 24h de Le Mans (assim como na prova belga) e o retorno a Sebring, para uma prova de 1.500 milhas. O doutor Colin Kolles alinha, mais um ano, com seu agora chamado CLM P01-Enso, de motorização Nissan. Um protótipo que surgiu como Lotus, já teve vários propulsores e configurações distintas mas, em nenhuma delas, foi competitivo.

Por outro lado, o banqueiro russo Boris Rotenberg (SMP Racing) resolveu levar adiante o projeto que valeu o patrocínio a vários compatriotas e à produção de um LMP2 que, por não estar entre as quatro fábricas escolhidas pela FIA (Ligier/Onroak, Oreca, Dallara e Riley), ficou sem ter aonde acelerar. Graças a uma parceria com a Dallara, desenvolveu o BR1, de belas e agressivas linhas e que, na configuração do time, rodará empurrado por um V6 biturbo AER de 720cv.

Pois hoje (quinta-feira, 11), foi a vez de a Ginetta revelar seu G60-LT-P1, que contou com colaboração do tarimbado projetista italiano Paolo Catone, bem como de Adrian Reynard (outro que dispensa apresentações) e trabalho de desenvolvimento feito em parceria com a Williams. O visual ficou algo mais convencional do que o do BR1, mas esse é justamente o grande barato de uma categoria que dá maior liberdade na concepção: é possível seguir caminhos diferentes para brigar por vitórias. O primeiro “cliente” confirmado é ninguém menos que a Manor “de raiz” (leia-se, John Booth e Graeme Lowdon), e o discurso é o de cutucar a Toyota e seu TS050, mesmo sem a propulsão híbrida. Ainda que não seja o caso, teremos sim um campeonato e, o que é melhor, com pelo menos sete carros, aos quais se somam os P2, GTE Pro e GTE Am. Espetáculo certamente não vai faltar…

BR1

CLM P-01 Enso

Ginetta G60-LT-P1

 

Não quero ser Danica, quero ser Hailie

O blog começa o ano mostrando a mais promissora candidata a encarar os marmanjos nos ovais norte-americanos e ocupar o posto que foi de Danica Patrick – que, diga-se de passagem, fez toda a sua trajetória nas categorias de base na Europa, até descobrir que se destacaria mesmo em casa, primeiro na Indy, e mais tarde na Nascar (embora tenha gente que torça o nariz até hoje e acredite que ela só tivesse lugar e destaque por ser mulher, o que está longe de ser o caso).

Mas, estamos falando de Hailie Deegan, que vem a ser filha do mais do que radical Brian Deegan, multicampeão dos X-Games e das principais competições do motocross freestyle, antes de se aventurar sobre quatro rodas. Um pouco mais ajuizada do que o pai, ela preferiu enveredar direto pelo mundo do automobilismo e, depois de arrepiar no comando de uma picape no Lucas Oil Off-Road Series ao lado do pai com apenas 15 anos, decidiu que o caminho rumo à Nascar é a direção a seguir.

Com 16 anos, ela será a caloura no pelotão da K&N Pro West Series da stock car norte-americana, que seria, a grosso modo, uma “quarta divisão” depois da Monster Cup Series, da Xfinity e da Camping World Truck, no comando de um Camry da Bill McAnally Racing – os ovais são menores, assim como as médias horárias das provas, embora o equipamento nada fique a dever, E a vaga não foi conquistada por gênero, mas por pé direito: ela foi a mais promissora em uma espécie de peneira feita pelo time.  E como o talento parece estar à altura da ambição (“é onde eu vejo meu futuro, vou me empenhar muito com a equipe e procurar aproveitar cada treino para me acostumar ao carro e deixá-lo mais rápido”), não demora muito para que Hailie dê os passos seguintes e comece a incomodar no topo. Game on, #19!!!!